Libertadores

O Flamengo x Vélez da Supercopa de 1995 além da pancadaria protagonizada por Zandoná e Edmundo

O confronto marcado pela confusão generalizada ainda guardaria boas histórias, num Flamengo dirigido pelo jornalista Apolinho

Flamengo e Vélez Sarsfield fazem um duelo pela semifinal da Libertadores com ares de anos 1990. Afinal, aquela década guardou diversos embates entre os clubes pelas competições continentais – curiosamente, só foram se encontrar pelo principal torneio da Conmebol em 2021. Eram tempos dourados aos fortineros, com a equipe que conquistou a América no marcante título de 1994, sob o comando de Carlos Bianchi e a estrela de José Luis Chilavert. Já os rubro-negros colecionavam aventuras além das fronteiras, mesmo que não fossem mais tempos abastados de glórias. E a história mais famosa é pela pancadaria, não pelo futebol. Dificilmente aquele confronto pelas oitavas de final da Supercopa seria lembrado, não fosse a troca de sopapos entre Edmundo e Flávio Zandona. O velezano levou a melhor na porrada, mas os flamenguistas é que avançaram na competição.

A Supercopa da Libertadores era uma competição que preenchia o calendário da Conmebol no segundo semestre e reunia apenas camisas pesadas, de clubes que já haviam conquistado a Libertadores anteriormente. O Velez era adição recente ao certame, após levar a taça continental em 1994. Já o Flamengo costumava fazer boas campanhas, tal qual em 1993, quando foi finalista em derrota para o São Paulo na decisão. Também em 1993, as duas equipes fizeram o seu primeiro duelo em jogo amistoso por um torneio relâmpago. Deu Fla por 2 a 0, em Liniers, com gols de Nilson e Nélio. O resultado ainda não antecipava o fortalecimento desfrutado pelos velezanos pouco depois, que já contavam com Chilavert, Turco Asad e José Basualdo na escalação.

Quando o sorteio da Supercopa de 1995 saiu, o Vélez poderia ser considerado o favorito para o duelo. O Flamengo, afinal, se encontrava em crise. Aquele ano do centenário seria amargo de várias maneiras, sobretudo pelo Campeonato Carioca perdido na decisão contra o Fluminense. A equipe do “Ataque dos Sonhos” não engrenava e as mudanças de técnico aconteciam. Vanderlei Luxemburgo deu lugar a Edinho, que durou semanas no cargo e recebeu o bilhete azul no início de novembro. Eram tempos da folclórica aposta em Washington Rodrigues, o Apolinho, famoso jornalista do Rio de Janeiro. O novo comandante havia sido colega do presidente Kleber Leite nos tempos de Rádio Globo. Assinou por apenas três meses, em setembro de 1995, liderando uma transição para o clube antes de reassumir os microfones como comentarista.

O Jornal do Brasil dizia que o Flamengo “jogava para a galera”, ao tirar o foco da crise com a contratação de uma figura popular. Apolinho, por sua vez, prometia “trazer de volta a alegria”. O detalhe ficava para o relacionamento com Romário, alvo de críticas do jornalista e até de uma briga pública na época da demissão de Luxa. “Romário é que nem dono de sauna, ganha dinheiro com o suor dos outros” e “talvez ele decida suar a camisa tanto quanto sua camisinha” eram algumas frases do comentarista sobre o Baixinho antes de assumir o comando. O centroavante rebatia, chegando a chamá-lo de palhaço diante dos microfones durante a Copa América de 1995. A apresentação teria os dois selando as pazes. Rodrigues revelou que Romário foi um dos primeiros a ligar para dar as boas vindas por sua contratação.

A estreia de Apolinho aconteceu exatamente no duelo contra o Vélez, na Argentina. O treinador classificava a partida como um “fio desencapado”.  E um pedido peculiar marcava a ocasião: Rodrigues queria uma TV ligada no banco de reservas. Como radialista, desejava rever os lances de imediato. “A posição do treinador é ruim e uma TV ajudará. Gosto de ver em detalhes lances e repeti-los”, dizia. O treinador, contudo, precisou se virar sem Romário. O atacante desmaiou num treino durante a antevéspera do jogo e passou por uma série de exames. Seria desfalque em Buenos Aires.

O Velez vinha bastante forte para o duelo. A equipe dirigida por Carlos Bianchi liderava o Campeonato Argentino. Sua escalação contava com boa parte dos campeões da Libertadores de 1994. Chilavert era o goleiro, Mauricio Pellegrino e Roberto Trotta formavam uma boa parceria de zaga, José Basualdo e Christian Bassedas eram destaques no meio, Turu Flores e Turco Asad se combinavam no ataque. Já o Flamengo era uma equipe de pouco equilíbrio. Paulo César era o goleiro, com a defesa formada por Agnaldo Liz, Cláudio, Ronaldão e Lira. Pingo e Márcio Costa protegiam o meio, com Djair e Nélio na ligação. Já na frente, Edmundo e Sávio eram os astros disponíveis.

Apolinho prometia um “futebol feijão-com-arroz”, sem invencionices e mais objetivo. Além disso, deu uma anedótica recomendação, como revelou ao jornal O Globo: “Na véspera do jogo disse aos jogadores: não escovem os dentes, não tomem banho, não usem desodorante, nem façam a barba. Quero que vocês metam medo no adversário, a começar pela aparência”.

O Flamengo surpreendeu em Liniers. A vitória por 3 a 2 no Estádio José Amalfitani não era exatamente esperada. “Fla vence Vélez em virada histórica pela Supercopa”, manchetava o jornal O Globo. “O Flamengo de Washington Rodrigues pelo menos em vibração é bem diferente do time que era dirigido por Vanderlei Luxemburgo ou Edinho. Mesmo sem Romário, o time sem criatividade e apático que vinha de três derrotas seguidas estreou ontem à noite na Supercopa dos Campeões da Libertadores com uma histórica vitória de 3 a 2 sobre o Vélez Sarsfield, obtida à base da raça”.

Durante os primeiros minutos, com bom toque de bola, o Flamengo era melhor. O Velez só cresceu depois dos 20 e conseguiu o gol aos 25, num pênalti de Ronaldão sobre Pellegrino, que Trotta bateu. O goleiro Paulo César evitou o segundo dos velezanos, com intervenções importantes, enquanto uma breve resposta do Fla viria num tiro de longe dado por Djair que Chilavert espalmou.

A melhora do Flamengo no segundo tempo seria liderada por Edmundo. O time vibrava mais e assustou com Nélio, ao carimbar a trave. Apolinho botaria o time para frente, com Rodrigo Mendes na vaga de Djair. E o gol de empate saiu nessa crescente, aos 26 minutos, graças a uma cabeçada de Edmundo após o cruzamento de Agnaldo Liz. O Animal ainda perdeu o tento da virada, quando o Velez retomou a vantagem aos 37. Asad carimbou a trave e Marcelo Herrera completou no rebote.

Se a situação soava como perdida a essa altura, a reação fantástica do Flamengo ainda garantiria a vitória. O novo empate aconteceu aos 43. Chilavert tinha salvo uma cabeçada de Edmundo, mas cometeu pênalti em Lira. Sávio deixou tudo igual, deslocando o goleiro com frieza. Por fim, nos acréscimos, a virada surgiu numa arrancada de Rodrigo Mendes. O talismã rubro-negro naqueles anos 1990 permitiu um resultado excelente em Liniers. Ficou de cara com Chilavert e bateu de canhota, no contrapé do paraguaio.

“Cuspiram na gente, ofenderam o Brasil, jogaram pedra. Mas ninguém ganha da gente no grito. Ninguém aqui é galinha”, diria um agitado Apolinho, na saída de campo. Segundo os relatos da época, ao entrar nos vestiários, o treinador resolveu dar um “peixinho” no chão e levou os jogadores ao delírio. “Era muita alegria. Tinha que extravasar. Ainda bem que deslizei! Temos muito o que acertar, mas o Flamengo que venceu em Buenos Aires é o verdadeiro Flamengo”.

Depois do que aconteceu em Buenos Aires, o Flamengo venceu o Juventude e empatou com o Grêmio pelo Brasileirão, antes de degringolar de novo. O time exercia um mando de campo itinerante, em várias cidades brasileiras, e costumava escalar reservas. Perdeu para Botafogo, Vitória e Paraná Clube. Em compensação, a Supercopa servia como respiro e surgia como prioridade. O reencontro com o Vélez aconteceria no Parque do Sabiá, em Uberlândia, com o “Ataque dos Sonhos” escalado dessa vez. Pingo foi quem perdeu seu espaço no meio-campo. Já o Vélez vinha de um mês sem vitórias e mantinha praticamente a mesma equipe, com a entrada de Claudio Husaín no meio-campo. O nome mais lembrado, de qualquer forma, era o lateral Flavio Zandoná – membro do time desde o sucesso em 1994 e famoso por seus mísseis de fora da área, além das pancadas em qualquer parte do campo.

A vantagem do empate pouco contou ao Flamengo, que partiu para cima e atropelou o Vélez por 3 a 0. O primeiro gol saiu logo aos cinco minutos. Sávio dominou na ponta esquerda e driblou dois, antes de cruzar rasteiro em direção à pequena área. Pellegrino marcou contra. O primeiro tempo teria uma grande chance perdida por Romário, além das saídas dos laterais Agnaldo e Lira, ambos lesionados. Nada que tirasse a tranquilidade dos rubro-negros.

O segundo tempo se tornou ainda melhor para o Flamengo, diante do desespero do Vélez pela virada. Fernando Pandolfi até acertou o travessão, mas os fortineros não passaram disso e tomaram mais. Edmundo tabelou com Romário e chutou por baixo de Chilavert, para anotar o segundo gol. Já o terceiro teria o brilho, mais uma vez, de Rodrigo Mendes. O ponta, que saíra do banco, aplicou um drible de letra em Zandoná e deixou o lateral estatelado no chão. Com Chilavert saindo desesperado de sua meta, bastou rolar para Romário no meio da área. O Baixinho só cutucou, diante da meta escancarada. Era um baile.

Por fim, o caos. Nos acréscimos, Edmundo tentou passar por Zandoná e tomou uma cotovelada. O árbitro uruguaio Ernesto Fillipi deixou por isso mesmo, mas o Animal não. O atacante passou a mão no supercílio ensanguentado e deu um tapa no rosto de Zandoná. O lateral retribuiu com um tapa e, quando o brasileiro se virou, acertou um soco lateral pelas costas do adversário. Edmundo desabou nocauteado. Romário veio em defesa do companheiro e deu uma voadora em Zandoná, que sequer caiu. A partir de então começou a pancadaria generalizada. Treinador de goleiros do Fla, Paulo César derrubou dois e botou o terceiro para correr. Curiosamente, o explosivo Chilavert era um dos mais serenos e separava a briga. A partida sequer continuou, com a entrada da polícia em campo.

“Mostramos que podemos formar um grande time. Agressão é coisa de quem não sabe perder. O importante é que eu vou continuar na competição e ele não”, dizia Edmundo, na saída de campo, enquanto reclamava de um tostão na coxa que o fazia mancar na reta final do duelo. Porém, o atacante pegou uma suspensão até o final da Supercopa e ficou restrito ao Brasileirão. Zandoná, por sua vez, levou dez partidas de gancho. “Com o lance de Edmundo no Brasil, tenho algo a favor e outro contra. A favor é que o acertei no Brasil e contra é que peguei por trás. Gostaria de ter pegado de frente”, afirmaria, à revista El Gráfico, como salientam os amigos do Futebol Portenho.

O Vélez riu por último naquela história toda. A equipe terminou 1995 com o título do Apertura. Já a conquista da Supercopa ocorreu em 1996. O Flamengo perderia a final daquela edição de 1995. Passou por Nacional de Montevidéu e Cruzeiro nas etapas posteriores. Todavia, sucumbiu diante do Independiente na decisão. A derrota por 2 a 0 em Avellaneda tornaria insuficiente o triunfo por 1 a 0 no Maracanã, diante de 105 mil torcedores. Foi o penúltimo jogo sob as ordens de Apolinho, antes da despedida no Brasileirão de 1995, no qual o time passou longe de se classificar aos mata-matas e correu certos riscos de rebaixamento como 21° colocado.

Flamengo e Vélez teriam outro reencontro em breve, menos tumultuado, pela própria Supercopa. Na fase de grupos, o Vélez ganhou por 1 a 0 em Florianópolis, gol de Chilavert batendo pênalti. O troco veio em Liniers, com o triunfo por 3 a 0 comandado por Sávio, autor dos três tentos. Os dois times ficaram pelo caminho, numa chave que teve o São Paulo classificado. Ainda foram mais dos duelos pela fase de grupos pela Mercosul de 1998, com vitória do Vélez na Argentina por 1 a 0 e do Flamengo no Brasil por 2 a 0, com dois de Romário. Depois, aconteceram mais do confrontos pela fase de grupos da Mercosul de 2000, em que o empate por 1 a 1 em Buenos Aires foi seguido pelos 2 a 0 rubro-negros no Rio de Janeiro, com tentos de Adriano e Roma. Denílson até seria expulso por provocar neste último embate, mas nada comparado a Edmundo e Zandoná.

Passaram-se mais de 20 anos para o próximo encontro de Flamengo e Vélez, na primeira vez pela Libertadores. O duelo em Liniers pela fase de grupos de 2021 foi memorável, com a virada rubro-negra por 3 a 2 garantida graças ao brilho de Arrascaeta. Depois, empate por 0 a 0 no Maracanã. São essas as memórias mais vivas para as semifinais, embora as imagens de 1995 sempre voltem à tona.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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