Libertadores

Felipão teve a chance de uma (provável) despedida apoteótica, mas a que teve já foi adequada à sua história

Scolari armou bem o seu time e conseguiu equilibrar o primeiro tempo contra o Flamengo, até a expulsão de Pedro Henrique

Quando soou o apito final da partida-que-não-deve-ser-nomeada no Mineirão, era difícil imaginar que Luiz Felipe Scolari teria a chance de se despedir no maior palco do futebol sul-americano. Aquele jogo pareceu o fim. Houve outros momentos que também pareceram, mas ele nunca se deixou abalar por críticas. Na verdade, sempre foram o seu combustível. Passou um tempo no exterior, reagrupou-se e retornou para a prorrogação de uma carreira brilhante na qual, se esteve longe do auge, ainda se mostrou capaz de grandes feitos. Foi campeão brasileiro. Chegou à final da Libertadores com o Athletico Paranaense. E passará um bom tempo digerindo o que poderia ter acontecido se não fosse a expulsão de Pedro Henrique no final do primeiro tempo.

Tudo indica que se aposentará. Deve ser seu último ano como técnico. Talvez siga envolvido com o futebol em outro cargo. Há 40 anos na estrada, sua carreira teve fases. O começo irregular, como a maioria. O auge, nos anos noventa, quando parecia ter o toque de Midas e conquistou uma quantidade assustadora de títulos em um momento no qual o futebol brasileiro era muito equilibrado. Chegou à Seleção e virou ídolo nacional com o pentacampeonato. Depois, comandou Portugal e se tornou um raro caso de ser ídolo nacional de mais de um país. Essa fase terminou com o fracasso no Chelsea e com sabe-se lá o que foi fazer no Uzbequistão (provavelmente ganhar bastante dinheiro).

Felipão virou um técnico ainda competente, para o nível do futebol brasileiro, e que também não estava mais entre os melhores. É uma transformação quase inevitável quando alguém trabalha com a mesma coisa por tanto tempo. Retornou a um Palmeiras que tinha problemas. Ganhou uma Copa do Brasil esvaziada sem os times da Libertadores e encaminhou o rebaixamento antes de ser demitido. Acumulou quatro anos de baixa, e era natural pensar se ele sequer teria vontade de seguir em frente. Por que arriscar manchar um currículo impecável? Mas a chance de treinar a seleção brasileira em uma Copa do Mundo em casa caiu em seu colo quando o comando da CBF deixou de ser de Ricardo Teixeira e passou a José Maria Marin e Marco Polo Del Nero. Não dava para recusar. Qual o pior que poderia acontecer?

A terceira fase deveria ser tudo que veio depois do Chelsea. O 7 a 1, porém, foi tão monumentalmente marcante que criou uma nova. Felipão passou a viver como o técnico da derrota mais acachapante da maior seleção do mundo. Uma letra escarlate que brilhava quando ele ia na padaria, na farmácia ou saía para uma caminhada. O normal nessa situação era ficar recluso, deixar o tempo passar, sair da mira do público. Ele fez isso, recuperando confiança com títulos pelo Guangzhou Evergrande na China, mas apenas depois de tentar se reabilitar voltando ao Grêmio. Não deu lá muito certo. O desgaste era claro. A nova repatriação chegou com uma oportunidade inesperada.

O Palmeiras não estava mais com problemas. Quer dizer, até estava, mas de outra natureza. Era um clube mais próximo ao do fim da Era Parmalat do que o de Betinho e Marcos Assunção, mas tinha dificuldade para escolher técnico. E inclinação a medalhões. E tendência a sempre olhar ao passado. Uma hora chegaria a Felipão. O foco era em competições de mata-mata. Ironicamente, foi eliminado de todas e quando percebeu estava na liderança do Campeonato Brasileiro. Foi um sucesso efêmero, porém, porque, por mais que tenha adotado alguns conceitos mais modernos, ficou rapidamente claro que pegou um ano de entressafra no futebol brasileiro. Os duelos com o Flamengo de Jorge Jesus escancararam um abismo.

Felipão teve passagens curtas por Cruzeiro e Grêmio sem muito sucesso. Agora, sim, o fim? Parecia. Mas encontrou o Athletico Paranaense. Um clube que faz algumas coisas diferentes. Tem uma estrutura que exige menos influência direta do treinador. Pessoas menos qualificadas que ele tiveram sucesso por lá. Agregou experiência, administração de vestiário, e conduziu uma campanha brilhante na Libertadores. Classificações emocionantes e suadas que carregaram a sua marca. Trabalhou bem com o garoto Vitor Roque, por exemplo, tantas vezes decisivo. E estava chegado ao intervalo da decisão obrigando Dorival Júnior a quebrar a cabeça para escapar do ferrolho que montara.

Ele entrou em campo com uma novidade: Vitor Bueno no lugar do atacante Agustín Cannobio. O meio ficou mais encorpado, com Hugo Moura, Fernandinho e Alex Santana por dentro, Vitinho e Vitor Bueno pelos lados. Vitinho era quase ala esquerdo, e Abner fechava como zagueiro. Adotou uma marcação mais individual. Abner observava Gabigol, Vitinho, as investidas de Rodinei. Essa formatação causou problemas ao Flamengo e gerou um primeiro tempo equilibrado até a expulsão. Gabigol ter marcado pouco depois não permitiu que o Athletico se reagrupasse antes de sair atrás no placar. Felipão voltou do intervalo com o zagueiro Matheus Felipe no lugar de Alex Santana. Deu alguns minutos e tentou soltar um pouco sua equipe, com as entradas de Canobbio e Rômulo. Eram claros os espaços que o Flamengo tinha para atacar e, embora o segundo gol rubro-negro parecesse mais próximo que o empate, o Furacão pelo menos manteve a esperança até os minutos finais.

O título não veio. Talvez ser campeão da Libertadores com o Athletico Paranaense em um dos seus últimos jogos como treinador fosse exageradamente otimista. Estar na posição de consegui-lo já foi uma surpresa. No fim, uma boa surpresa. Felipão é um dos maiores técnicos que o Brasil já produziu. Um dos mais vitoriosos. Com suas idiossincrasias e falhas, um dos mais amados. Se essa foi sua despedida, foi muito mais adequado ao que construiu do que… aquele jogo lá.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.
Botão Voltar ao topo