Libertadores

Em 1970, grandes duelos entre Galo e Palmeiras anteciparam os anos de bonança no Brasileirão

Pouco antes de dominarem o Campeonato Brasileiro, Palmeiras e Atlético protagonizaram jogos importantes no Robertão de 1970

É curioso como Atlético Mineiro e Palmeiras demoraram tanto tempo para se enfrentar numa edição de Copa Libertadores. Os dois clubes, afinal, tiveram anos áureos concomitantes na década de 1970 e não chegaram a figurar juntos na competição. Foram cinco aparições continentais dos palmeirenses e três dos atleticanos de 1968 a 1981, mas as duas forças não coincidiram na mesma edição do certame. E antes do triênio de 1971-1972-1973, em que mineiros e paulistas dividiram os troféus do Brasileirão entre si, as duas equipes chegaram a ser adversárias diretas por uma vaga no torneio sul-americano – assim como pelo título nacional. O Robertão de 1970 guarda um dos jogos mais importantes entre os oponentes desta semifinal de Libertadores, ainda que o período de glórias só tenha se concretizado meses depois.

O Palmeiras tinha um histórico mais rico nas competições nacionais, construído desde sua primeira Academia nos anos 1960. Os alviverdes conquistaram duas edições da Taça Brasil e duas do Robertão. Chegaram inclusive ao campeonato nacional de 1970 como atuais campeões, ainda que não tenham participado da Libertadores naquela temporada – já que a CBD abriu mão de enviar representantes por dois anos consecutivos, em protesto contra problemas de organização na competição, assim como por priorizar a preparação da Seleção à Copa do Mundo.

Já o Atlético Mineiro faria aparições mais esporádicas na Taça Brasil. Foram quatro participações, sem passar das quartas de final. Em tempos nos quais o Cruzeiro tinha grande representatividade nacional, os títulos estaduais do Galo foram mais escassos na década de 1960. Nas três primeiras edições do Robertão, os atleticanos também não passaram da primeira fase. O sinal mais concreto da mudança de forças ocorreu justamente na edição de 1970, quando o clube conseguiu a inédita classificação para o quadrangular final.

Os primeiros jogos oficiais entre Atlético Mineiro e Palmeiras aconteceram exatamente no Robertão. Nos dois primeiros confrontos, melhor para o Galo. Os atleticanos ganharam por 4 a 2 em 1967, numa das únicas duas derrotas dos futuros campeões, e também fizeram 2 a 1 em 1968. O troco alviverde aconteceu a partir da edição seguinte. A equipe conseguiu vencer por 1 a 0 em Belo Horizonte, num resultado que auxiliaria na caminhada por mais um título palestrino no torneio.

Já o primeiro duelo entre Palmeiras e Atlético no Robertão de 1970 aconteceu pela 17ª rodada da fase de classificação, em 19 de novembro. Um jogo que tinha grande apelo, considerando o embalo das equipes. Os palmeirenses lideravam o Grupo A, mas tinham jogos a mais que os atleticanos, ainda invictos.

Telê Santana, campeão pelo Galo

Telê Santana comandava o Galo, que reunia boa parte da base que seria campeã nacional um ano depois. Ídolos como Renato, Humberto Monteiro, Vantuir, Cincunegui, Vanderlei, Oldair, Lola e Tião formavam a espinha dorsal, com a presença também de Vaguinho, pouco depois vendido para o Corinthians. O desfalque ficava para o artilheiro Dario, o Dadá Maravilha, poupado naquele encontro. Mas não que os palmeirenses não reunissem suas estrelas. Pelo contrário, o técnico Rubens Minelli contava com uma constelação que incluía Leão, Baldochi, Eurico, Dudu, Ademir da Guia, Edu Bala e César Maluco. Juntando os dois elencos, eram três jogadores que tinham conquistado a Copa do Mundo meses antes com a seleção brasileira.

Aquele duelo no Parque Antárctica já seria emblemático. O Palmeiras conseguiu encerrar a invencibilidade do Atlético, com a vitória de virada por 2 a 1. O primeiro tempo seria do Galo, numa apresentação mais segura e contando com boas defesas do goleiro Renato. O tento sairia aos 26 minutos, com o ponta Ronaldo provocando com uma falha de Leão, que deixou a bola passar por entre suas pernas. Todavia, uma postura excessivamente defensiva dos mineiros diante da vantagem permitiria que os palmeirenses crescessem.

No início do segundo tempo, o Palmeiras já arrancou o empate. Edu Bala fez grande jogada pela direita e seu chute acabaria rebatido por Renato. No rebote, Ademir da Guia completou de cabeça. Quatro minutos depois, a virada se concretizou. Ademir deu o presente para Héctor Silva balançar as redes com categoria. Depois disso, o Galo tentou recobrar o prejuízo e Dadá até entrou, mas não aproveitou suas oportunidades. A cátedra de Ademir da Guia acabaria se tornando mais decisiva. No fim, Dé ainda quase anotou o terceiro para os palestrinos, mas carimbou a trave. Restou aos mineiros reclamarem da arbitragem, apontando irregularidades nos tentos paulistas.

O Palmeiras manteve a liderança do Grupo A até o final da fase de classificação. Já o Atlético Mineiro garantiu a segunda colocação, especialmente depois de uma vitória sobre o Botafogo em Belo Horizonte, que se provaria decisiva às pretensões da equipe, diante da corrida direta pela segunda colocação. Outro resultado expressivo naquela reta final aconteceu contra o Fluminense, classificado no Grupo B para o quadrangular decisivo. O Cruzeiro completaria o quarteto presente na fase final da competição nacional.

A primeira rodada abriria caminho ao Fluminense. O Tricolor derrotou o Palmeiras por 1 a 0 no Maracanã, enquanto o Atlético empatou com o Cruzeiro no Mineirão. Com o quadrangular disputado em turno único, a segunda rodada seria decisiva para manter as esperanças de atleticanos ou palmeirenses vivas na competição. A vitória seria imprescindível. As duas equipes voltavam a se pegar no Parque Antárctica, na mesma data em que o Flu fazia sua visita aos cruzeirenses em Belo Horizonte.

Telê Santana contava com a volta de Dario em relação ao primeiro jogo, compondo o ataque com o veloz Lola. O treinador apostava numa formação mais resguardada, confiando nos contra-ataques para construir o resultado em São Paulo. O goleiro Renato era um dos pontos fortes dos atleticanos, em ótimas fase recente. Já Rubens Minelli mandaria seus comandados ao ataque. O atacante Héctor Silva era um retorno importante, após comparecer ao velório do pai em Montevidéu e ser substituído por Fedato contra o Fluminense. O uruguaio deveria contar com o apoio de Ademir na armação, enquanto César Maluco era a principal esperança de gols. Na defesa, Leão e Baldochi eram dúvidas por lesão, mas no fim o goleiro jogaria e Luís Pereira entraria na zaga. E outra notícia relevante de véspera era o acerto com Leivinha, então na Portuguesa, para a temporada seguinte.

O Palmeiras cumpriu sua parte no Parque Antárctica, e de maneira categórica, com a vitória por 3 a 0. Os alviverdes apresentavam uma postura agressiva, muitas vezes se antecipando às jogadas. Com isso, recuperavam a posse rapidamente e trabalhavam os passes. O primeiro tempo, todavia, não teria gols. Os palmeirenses perderam algumas de suas melhores oportunidades, ainda que não demonstrassem grande desespero pela demora do tento. O Galo, afinal, não representava muito perigo do outro lado. Dadá atravessava uma fase negativa e não conseguia dar continuidade aos contragolpes, muito bem marcado por Luís Pereira.

No segundo tempo, enfim, a vitória se abriu ao Palmeiras. Aos sete minutos, Grapete e Pio foram expulsos numa confusão. A saída do zagueiro atleticano seria bem mais custosa e concederia espaços aos anfitriões. O primeiro gol foi anotado por Edu Bala, aos dez. O ponta cruzou e a bola com efeito acabou encobrindo Renato. Com o Atlético obrigado a sair para o ataque, os alviverdes aproveitaram os espaços para matar o encontro. Aos 25, uma jogadaça rendeu o segundo gol. Ademir e Hector Silva tabelaram com categoria, até que o Divino desse um corta-luz para César guardar. Por fim, Ademir faria o seu aos 35, fechando a conta com um bonito toque por cobertura. Depois disso, coube aos palestrinos administrarem o resultado.

Naquele momento, porém, o título parecia mais próximo do Fluminense. Os tricolores venceram o Cruzeiro em Belo Horizonte e dependeriam apenas de um empate na rodada final, contra o Galo no Maracanã, para ficar com a taça. Caso perdessem, ainda teriam o direito a um jogo extra se igualassem sua pontuação. O Palmeiras era o único com chances matemáticas, ao receber o Cruzeiro em São Paulo, mas não pensava apenas no título. Os alviverdes sabiam que a vitória, independentemente do resultado do Flu, os garantia na Copa Libertadores de 1971. Neste ponto, havia inclusive uma corrida paralela com atleticanos e cruzeirenses.

“O segundo colocado participará da disputa da Taça Libertadores e tanto o Cruzeiro quanto o Atlético irão lutar por isso. Nossas chances de título, se bem que remotas, ainda existem. Vai ser muito difícil o Fluminense perder lá no Maracanã. Mas em futebol tudo é possível”, salientaria Rubens Minelli. No fim das contas, os palmeirenses carimbariam o passaporte. O Flu se sagrou campeão ao empatar com o Atlético. O Palmeiras venceu o Cruzeiro e, como vice-campeão, se confirmou na Libertadores. Dois pontos atrás, o Galo terminou em terceiro e não faria ainda sua estreia continental.

O Palmeiras teria uma campanha respeitável na Libertadores de 1971, mesmo sem alcançar a final. Os alviverdes conseguiram terminar na liderança do grupo contra Fluminense, Deportivo Itália e Deportivo Galícia, em que apenas o primeiro avançaria. Já no triangular semifinal, os paulistas acabariam superados pelo futuro campeão Nacional de Montevidéu, numa chave cascuda que ainda reunia o Universitario de Lima. O Galo, de qualquer forma, não tardaria a estrear no torneio continental.

Com Telê Santana no comando e a mesma base que disputou o Robertão, o Galo conquistou o Campeonato Brasileiro de 1971. Contou, sobretudo, com a recuperação de Dadá Maravilha no ataque para fazer a diferença. No encontro com o Palmeiras pela primeira fase, prevaleceu o empate por 0 a 0. Já a comemoração dos palestrinos aconteceu em 1972 e 1973, com o bicampeonato nacional. A maioria do time vice no Robertão de 1970 também estava preservada, com direito a vitórias por 3 a 0 e 1 a 0 nos encontros com os mineiros naquelas edições. Um auge compartilhado pelos dois clubes, com uma projeção talvez só comparável ao que ocorre nesta semifinal de Libertadores.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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