Libertadores

Depois de um primeiro tempo mágico, o Flamengo temeu o pior, mas voltou com outra vitória enorme de Quito

Flamengo teve um primeiro tempo surpreendentemente tranquilo, mas passou sufoco até carimbar o triunfo sobre a LDU

A torcida do Flamengo, talhada em tempos difíceis na Libertadores, até parecia mal acostumada no primeiro tempo em Quito. Os rubro-negros faziam uma atuação fantástica no Estádio Casa Blanca, batendo a LDU por dois gols de vantagem e botando os equatorianos na roda. Parecia até um sonho pensar nos 100% de aproveitamento, quando a fase de grupos costuma guardar muitas armadilhas aos flamenguistas mais calejados. O segundo tempo mudaria de figura, porém. A LDU voltaria a ser o adversário temível na altitude, que bateu o próprio Fla em 2019. Os anfitriões provocaram o empate e a virada estava ao alcance. Mas, se o Flamengo não terminaria a noite impecável como indicava nos 45 minutos iniciais, ainda arrancou o triunfo valiosíssimo nos 45 minutos finais. Contou com um pênalti convertido por Gabigol, se safou da pressão no fim e garantiu o placar de 3 a 2. A empolgação esfria um pouco, mas não tira o peso dos 100% de aproveitamento num grupo duro.

O Flamengo vinha a campo com o importante desfalque de Gerson. João Gomes entrou na cabeça de área, ao lado de Diego. De resto, Rogério Ceni repetiu a formação vista contra o Unión La Calera, incluindo Bruno Viana ao lado de Willian Arão no miolo da zaga. A LDU, invicta na temporada, prometia complicar aos rubro-negros. Porém, o jogo mal começou e o Fla já deu um passo à frente no placar. O primeiro gol surgiu aos três minutos, numa jogadaça de Everton Ribeiro, tão questionado por sua queda de desempenho durante os últimos meses. O meia fintou a marcação e deu uma linda enfiada de bola. Gabigol disparou com enorme espaço e bateu na saída do goleiro Adrián Gabbarini. O início saía melhor que a encomenda aos brasileiros.

O gol não seria ocasional no ótimo primeiro tempo do Flamengo. Não apenas pela maneira como as trocas de passes saíam, mas também pelos espaços concedidos pela Liga de Quito. A LDU não acertou sua marcação, com um latifúndio no meio-campo, o que deixava o trio de zagueiros bastante exposto. Os equatorianos até ganharam campo com o passar dos minutos, enquanto os rubro-negros se fechavam um pouco mais e administravam o fôlego na altitude com calma na posse de bola. Mas nada que gerasse tantos riscos à equipe visitante. Quando os anfitriões poderiam marcar o gol aos 13, o impedimento foi bem marcado.

A partir dos 20, o jogo do Flamengo passou a fluir mais. Os ataques eram muito bem construídos e desmontavam a defesa da LDU. O placar poderia ter sido mais elástico, não por surgirem tantas chances, mas por elas sempre serem claras. Everton Ribeiro quase marcou um golaço aos 23, num chute de longe que Gabbarini espalmou. Logo depois, o goleiro também seria preciso numa saída nos pés de Bruno Henrique. Ainda assim, o segundo gol amadurecia, e ele surgiu da forma mais impressionante aos 30. O troca de passes foi excepcional, como se os rubro-negros jogassem por música, entre toques de primeira e requintados. Bruno Henrique decidiu arriscar de fora e seria muito feliz na finalização, superando Gabbarini. Golaço que lembrava os melhores momentos daquela equipe de 2019. Foram os melhores 45 minutos iniciais sob as ordens de Rogério Ceni – considerando também o peso do encontro e as condições em Quito.

A LDU parecia totalmente baqueada. Não acertava seu jogo e, por mais que tenha saído ao ataque no fim do primeiro tempo, não ameaçava de verdade. Por isso mesmo, o técnico Pablo Repetto realizou três alterações logo na retomada do segundo tempo. Além de recompor a defesa com uma linha de quatro, mandou Luis Amarilla e Adolfo Muñoz para aumentar a força ofensiva. Já o Flamengo tinha uma notícia ruim, diante do desconforto sofrido por Diego Alves. Um dos heróis na vitória sobre os equatorianos no Maracanã em 2019, o arqueiro deu lugar a Hugo Neneca na meta.

As mudanças logo surtiram efeito na Liga de Quito, que pressionou e conseguiu descontar aos cinco minutos. Depois que Luis Ayala recebeu com muito espaço na esquerda e cruzou, Cristian Martínez Borja se antecipou e fez valer a Lei do Ex contra o Flamengo. Isla, em particular, tomava um banho no lado direito da defesa e não conseguia acompanhar os adversários. O segundo gol só não veio na sequência porque, quando Amarilla invadiu a área com liberdade, Bruno Viana travou na hora do chute. Arrascaeta até mandou um tiro perigoso para fora na sequência, como resposta, mas estava claro como a situação não era favorável. Os rubro-negros permitiam que a LDU avançasse em campo e aumentasse o ritmo, sem apresentar muita firmeza na marcação.

Rogério Ceni até trocou João Gomes, de bom primeiro tempo, por Hugo Moura aos 13. Não foi isso que aliviou a situação difícil. A LDU seguia martelando e a zaga estava exposta. Aos 16, saiu o anunciado empate. Após cobrança de escanteio, ninguém conseguiu realizar o corte. Amarilla subiu com liberdade e desviou meio sem querer. A virada parecia palpável aos anfitriões, considerando o nervosismo entre os flamenguistas. Todavia, a Liga também diminuiu um pouco sua voracidade, o que permitiu um respiro maior aos visitantes.

O jogo ficaria mais picado na sequência, com muitas faltas. O Flamengo conseguia encaixar alguns contragolpes e ganhava faltas perigosas, mas Arrascaeta e Diego não cobraram tão bem. Além disso, que a LDU não abafasse tanto, a defesa rubro-negra dava sinais de insegurança. Por sorte, a pontaria dos equatorianos não estava em dia. Ceni usou mais duas substituições, com as entradas de Gustavo Henrique e Vitinho. Mas não que eles tenham gerado efeito direto na vitória. Aos 37, Filipe Luís acionou Arrascaeta e Moisés Corozo, péssimo já no primeiro tempo, cometeu um pênalti infantil sobre o uruguaio. Gabigol foi para a marca da cal e converteu.

No fim, o Flamengo ainda teve Renê na vaga de Gabigol. A vantagem no placar dava alívio, mas não tranquilidade. Afinal, a Liga de Quito não desistiu e continuou provocando uma blitz nos minutos finais. A bola atravessava a área dos rubro-negros e ninguém era capaz de cortar. Em contrapartida, nenhum jogador dos equatorianos conseguiu completar. O apito final guardaria uma descarga de energias aos flamenguistas. O triunfo teve seus toques de mágica, mas também viu as oscilações que marcam o trabalho de Rogério Ceni e também a fragilidade defensiva – com Bruno Viana e Filipe Luís se safando neste sentido. No fim das contas, considerando o desgaste provocado pela altitude e a influência que isso também pode ter causado no segundo tempo, prevaleceu uma dose de raça rumo à comemoração – apesar do flerte com a frustração.

Fato é que, neste momento, o Flamengo parece ter encaminhado a classificação aos mata-matas. Com três jogos, os rubro-negros acumulam nove pontos, algo inédito em sua história na Libertadores. A equipe lidera o Grupo G com vantagem de cinco pontos sobre a LDU, somando quatro, ainda na segunda posição. Já o Vélez subiu ao terceiro lugar, após derrotar o Unión La Calera por 2 a 0 no Chile. A visita aos chilenos, aliás, é o compromisso do Fla na próxima rodada.

Classificação fornecida por SofaScore LiveScore

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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