Libertadores

Depois de tantas e tantas contratações, foi uma das mais modestas que entregou ao Palmeiras sua obsessão

Foi uma notinha, em 11 de novembro. Uma quarta-feira. Às 13h50, quando todo mundo ainda estava com aquele sono pós-almoço. Dizia assim: “Palmeiras acerta com atacante Breno Lopes, vice-artilheiro da Série B”. Eram quatro parágrafos no site oficial do Palmeiras. A introdução, uma declaração do atleta, um breve histórico. Poderia ter passado batido. Sem a pompa e a circunstância de reforços como Dudu, Cleiton Xavier, Lucas Barrios, Alejandro Guerra, Miguel Borja, Felipe Melo, Ramires, Luiz Adriano ou Rony, estrelas contratadas para entregar ao Palmeiras a sua obsessão: a Copa Libertadores.

Esses grandes nomes, alguns muito mais do que outros, contribuíram para o projeto do Palmeiras, mas, no ano de menor investimento desde 2015, trocando de treinador, cheio de garotos da base, conquistou o título que tanto queria com um gol do jogador que chegou para compor elenco depois da lesão de Wesley e com o elenco cheio de desfalques por lesão e Covid-19. Não foi de uma estrela o gol do Palmeiras. Foi de um predestinado: aos 53 minutos do segundo tempo, um dos reforços menos badalados do time que mais contratou nos últimos marcou o gol da obsessão. O gol do título. O gol da Libertadores.

O gol de Breno Lopes é uma história comum do futebol: infância humilde, esperança da família, dificuldades, decepções, superação, chances, ápice. É também uma lição de que você pode planejar o quanto quiser – e não é que o Palmeiras sempre levou nota 10 – e ainda não ter o menor controle sobre o que acontece em campo. A Libertadores sempre foi colocada como o principal objetivo do Palmeiras, mas é impossível se planejar para vencê-la. O máximo que se pode almejar é ser regular no Campeonato Brasileiro para disputá-la todos os anos.

É preciso jogar muito futebol para ser campeão sul-americano. O Palmeiras o fez. Teve um grande papel de Abel Ferreira. Teve destaques individuais, como Weverton, Rony e Luiz Adriano. A diretoria, com todas as suas falhas (e foram muitas), manteve o time forte durante os últimos seis anos. Há uma lógica por trás do título do Palmeiras. Há méritos que são frutos de um trabalho bem feito, com mais de um responsável. Mas um torneio de mata-mata também depende do imponderável e, quanto mais vezes você o disputa, maiores as chances de o imponderável jogar a seu favor.

Neste sábado, o imponderável vestiu a camisa 19 do Palmeiras e se posicionou muito bem na segunda trave do Maracanã, aproximadamente no mesmo lugar em que Mario Götze marcou o gol da Copa do Mundo da Alemanha, para completar o ótimo cruzamento de Rony e entrar para a história de um bicampeão sul-americano.

A trajetória de Breno Lopes apenas este ano já dá um filme. Mineiro de Belo Horizonte, se profissionalizou pelo Joinville e conquistou o acesso com o Juventude, em 2019. Foi emprestado para testes na equipe de aspirantes do Athletico Paranaense no começo do ano passado, mas acabou dispensado. De volta ao clube gaúcho, ganhou destaque com nove gols em 19 partidas da Série B e, apesar da boa fase, quando teve a chance de impressionar diante de mais câmeras de TV, correu o risco de ficar marcado pelo incrível gol que perdeu contra o Grêmio, nas oitavas de final da Copa do Brasil. Calejado, quando apareceu o interesse do Palmeiras, adotou a estratégia do otimismo cauteloso.

“Meu empresário me ligou: ‘Breno, o Palmeiras tem interesse em você’. Só que eu já estava calejado com essas coisas. Tinha ouvido conversa de Atlético Mineiro, Sport, Bahia. Pensei: ‘Se for da vontade de Deus, ótimo’. Mas a verdade é que eu nem estava me iludindo mais. Fiquei focado e pensei: ‘O que for para ser, será’”, afirmou, em sua apresentação oficial que aconteceu depois de sua estreia, contra o Fluminense, dois dias antes.

“Só que aí meu empresário me ligou de novo dias depois e contou que o Palmeiras havia mandado o contrato. Foi só aí que eu vi que iria acontecer mesmo. Ficamos a semana toda na correria e assinamos o contrato. Foi a realização de um sonho de infância”, completou.

Após jogar na vitória por 2 a 0 sobre o Fluminense, Breno Lopes seguiu atuando com frequência, às vezes saindo do banco de reserva, às vezes como titular. O seu primeiro gol pelo clube foi na última terça-feira, em um jogo quase esquecido do Campeonato Brasileiro contra o Vasco. E a noite de sexta? Entre se preparar para o jogo da sua vida e tentar controlar os nervos, comemorou o acesso do Juventude, para o qual contribuiu de maneira decisiva, selado com vitória por 1 a 0 sobre o Guarani.

Parece ter sido uma semana razoável para Breno Lopes. Em um perfil do site da ESPN, constava que os dois jogos favoritos da sua carreira foram o do acesso à Série B, contra o Imperatriz, e a vitória sobre o Botafogo, pela Copa do Brasil de 2019, ambos pelo Juventude. Surgiu mais um para a lista.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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