Libertadores

De amistosos marcantes a muitos duelos decisivos, 18 confrontos memoráveis entre Athletico-PR e Flamengo

Flamengo e Athletico Paranaense têm uma longa lista de mata-matas, sobretudo na Copa do Brasil, além de jogos muito especiais no Brasileirão

Athletico Paranaense e Flamengo se enfrentaram tantas vezes em partidas decisivas nos últimos anos que, inegavelmente, uma rixa mais forte alimenta o confronto. É óbvio que nada se compara a uma final de Libertadores, mas as faíscas foram frequentes pelos recorrentes embates na Copa do Brasil, incluindo a decisão de 2013, além de disputa em conjunto na fase de grupos continental em 2017. O histórico dos clubes, de qualquer maneira, é bem mais longo. Há uma coleção de partidas memoráveis pelo Brasileirão, emblemáticas para os dois lados, sobretudo as semifinais de 1983. E mesmo alguns amistosos ficam na lembrança – especialmente porque as visitas do Flamengo demarcaram diferentes fases da Baixada, inclusive a inauguração do estádio quando o Furacão sequer havia sido fundado.

Para resgatar essa caminhada, listamos 18 confrontos que reconstroem o passado de Athletico Paranaense x Flamengo. O jogo dos flamenguistas contra o Internacional que inaugurou a Baixada, naquela que foi a primeira excursão dos cariocas para outra cidade, acaba de fora por não ser tecnicamente o Furacão – surgido a partir de uma fusão do Internacional com o América em 1924, o que garantiu a posse do estádio. Como os encontros se tornaram mais constantes a partir dos anos 1960, sobretudo nas últimas duas décadas, a lista tem uma porção de histórias recentes. E isso até reforça a noção de como a final da Libertadores tem um elemento explosivo a mais por essa aproximação.

1927: O primeiro jogo

A primeira partida oficial entre Flamengo e Athletico Paranaense aconteceu em 1927, numa excursão dos cariocas a Curitiba. O Fla tinha acabado de conquistar o Campeonato Carioca e vinha em alta, numa equipe estrelada por Nonô, grande figura do clube na década de 1920. Já o Athletico, fundado três anos antes, havia sido vice-campeão estadual naquela temporada. No dia anterior, os flamenguistas tinham enfrentado a Seleção do Paraná no antigo Estádio do Parque da Graciosa e empataram por 2 a 2. Apesar do desgaste, os visitantes golearam por 4 a 1 o Furacão, no mesmo local, e levaram a chamada Taça Doutor Affonso Camargo.

O grande nome do encontro foi o atacante Fragoso, uma das principais figuras do Flamengo naqueles últimos anos de amadorismo. Foram quatro gols do protagonista da tarde. Segundo os relatos da época, “uma numerosa assistência” esteve presente no Parque da Graciosa, com os quatro gols do Fla concentrados no primeiro tempo e o desconto do Athletico na etapa final. Além disso, um dos jogadores athleticanos foi veementemente criticado pela violência. “Queremos nos referir a Motta, que depois de entrar com o pé em Amado, numa investida perfeitamente inútil, quis brigar com o arqueiro carioca. Já esperávamos isso e estávamos surpresos de não ter acontecido o mesmo no jogo anterior. Jogadores como Motta deveriam ter sua entrada em campo há muito tempo proibida”, descreveu o jornal paranaense O Dia. Sinal da rivalidade que já nascia.

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1963: Amistoso pela solidariedade

Após 20 anos até um novo amistoso em 1947, com vitória flamenguista por 3 a 2 na Baixada, Athletico e Flamengo ficaram mais 15 anos distantes. O reencontro em 1962 resultou na primeira derrota dos cariocas para os paranaenses, na Vila Capanema. Já em 1963 ocorreu a primeira visita do Furacão ao Maracanã. Seria uma ocasião nobre: o estado do Paraná enfrentou um dos maiores incêndios florestais da história do Brasil em 1963, com 10% de vegetação do estado destruída, além de mais de uma centena de mortos e milhares de desabrigados. O amistoso ofereceu a renda em apoio aos flagelados. Porém, o público deixou a desejar, com menos de 5 mil pagantes, num dia em que greves de bancários e de garis paralisavam o Rio de Janeiro. O pontapé inicial foi dado por Dom Hélder Câmara, já uma figura de muito relevo na luta pelos direitos humanos. E o Fla se comprometeu em complementar a renda para chegar na casa do milhão de cruzeiros.

O triunfo por 1 a 0 do Flamengo, em si, não mereceu tanto destaque. Foi uma partida descrita como fraca tecnicamente, mas muito corrida. Os dois goleiros, Marcial e Gil, tiveram muito trabalho. Porém, seria numa bola rebatida pela zaga em cima de Gil que saiu o gol contra, que determinou a vitória flamenguista. Entre os jogadores flamenguistas, destaque para a dupla de meio-campistas formada por Nelsinho e Carlinhos.

1983: Na história do Brasileirão

Os primeiros jogos oficiais entre Athletico e Flamengo aconteceram na virada dos anos 1960 para os 1970, pelo Robertão e depois na transformação do Campeonato Brasileiro. As equipes ficaram nove anos sem se enfrentar a partir de 1974, até que o Brasileirão de 1983 guardasse uma ocasião titânica, que marcaria os dois clubes: o embate aconteceu nas semifinais. O Fla tinha conquistado dois títulos nas três edições anteriores da competição e, por mais que viesse com altos e baixos, tinha pegado embalo sob as ordens de Carlos Alberto Torres para eliminar Corinthians e Vasco. Nomes históricos como Zico, Leandro, Júnior, Mozer e Adílio continuavam na equipe, que também ganhava outros destaques como Baltazar. Já o Furacão vivia seu grande sucesso nacional, depois de superar o São Paulo. Washington e Assis motivavam os sonhos do time de Hélio Alves, que ainda tinha Roberto Costa em grande forma no gol. O folclórico Peu era um velho conhecido dos flamenguistas no time adversário.

O Maracanã recebeu mais de 100 mil no jogo de ida. O Athletico não contava com Assis e dependeu bastante de Roberto Costa, porque o Flamengo bombardeou sua meta. O goleiro até fez seus milagres, mas não evitou a derrota por 3 a 0. Era um dia de Zico, que fez o primeiro de cabeça, deu o passe para o segundo de Vítor e ainda anotou o terceiro em cobrança de pênalti. Nem a expulsão de Mozer atrapalhou. Depois da partida, Zico comentou: “Ainda no primeiro tempo, merecíamos estar vencendo por 3 a 0. Perdemos várias oportunidades de gols, todas criadas com inteligência e habilidade. O time esteve muito bem. Roberto pegou demais. E, além de ser bom, tem muita sorte”. O craque fez questão de trocar de camisa com o goleiro na saída do campo.

Por ter campanha superior, o Furacão tentou a reviravolta no Couto Pereira. Mais de 65 mil lotaram as arquibancadas, no recorde de público do estádio que permanece há quase quatro décadas. Apesar do calor dado, a vitória por 2 a 0 foi insuficiente. Os dois gols saíram em jogadas parecidas, num intervalo de três minutos, entre os 29 e os 32 do primeiro tempo. Capitão avançou pela esquerda e cruzou para Washington anotar ambos, o primeiro por baixo e o segundo de cabeça. Foi um jogo em que o Fla perdeu muitos gols, mais por falta de pontaria do que por méritos de Roberto Costa. O goleiro Raul ainda precisou salvar o terceiro athleticano antes do intervalo, enquanto o segundo tempo seria amarrado. Classificado, o Flamengo conquistou seu terceiro título na final contra o Santos, com recorde no Maraca. Roberto Costa, todavia, recebeu a Bola de Ouro da Placar como melhor jogador da competição.

1994: A reinauguração da Baixada

Se o Flamengo tinha inaugurado a Baixada quando o Athletico Paranaense sequer existia, os cariocas mais uma vez foram convidados para participar da reinauguração do estádio em 1994, após uma ampla reforma. Foi o fim de um longo desterro para o Furacão, depois de sete anos no Pinheirão. E o momento emblemático também embalou os paranaenses, que na época disputavam a segunda divisão do Campeonato Brasileiro. Os athleticanos conquistaram o acesso e a nova fase de sua casa marcou um período de ascensão para o clube, que culminaria não só em boas campanhas nacionais, como também numa melhora ainda maior das estruturas nos anos seguintes.

O Flamengo tinha uma equipe jovem que reunia Sávio, Nélio, Valdeir e Paulo Nunes. Já o Athletico atravessava uma seca desde 1990 e contava com um elenco de parcos destaques, a exemplo de João Carlos Cavalo. Seria uma festa bonita, com boa presença do público, desfiles em campo e uma cerimônia especial. O Furacão venceu por 1 a 0. O goleiro Adriano ainda pegou o pênalti de João Carlos Cavalo, mas, empurrados pela torcida, os athleticanos marcaram o tento decisivo com Ricardo Blumenau aos 42 da etapa final.

1999: A pedra fundamental da Arena da Baixada

Coincidentemente, quando a velha Baixada se transformou numa moderna Arena, o Flamengo também estava lá em seus primeiros dias. A reinauguração do estádio aconteceu num amistoso contra o Cerro Porteño, mas o Fla se tornou o primeiro adversário do Athletico em uma partida oficial, pela segunda rodada do Campeonato Brasileiro de 1999. Valeu pelo jogo eletrizante, na vitória por 3 a 2 do Furacão. A equipe dirigida por Vadão reunia vários jovens talentosos – Lucas Severino, Kléber Pereira, Adriano Gabiru, Kelly, Kléberson. Os flamenguistas, sob as ordens de Carlinhos, tinham Romário como estrela e bons jogadores como Leandro Ávila, Rodrigo Mendes, Fábio Baiano, Fabão e Célio Silva.

Antes do jogo, não pegou bem quando Clemer falou que não conhecia Lucas Severino. Pois o atacante fez vibrar os 30 mil presentes na vitória. O Athletico abriu a conta com Kléber Pereira, de pênalti, em falta originada numa jogada de Lucas. Já no segundo tempo, o próprio Lucas ampliou num cochilo de Fabão. O Flamengo tentou voltar ao jogo com seu primeiro tento, de Romário, já aos 36 minutos, mas Kléberson também aprontou e carimbou a vitória. O meia saiu do banco para anotar um lindo gol, com direito a drible em Leandro Ávila e tudo. Ainda houve tempo para Fábio Baiano descontar de novo, mas o triunfo era athleticano. O ano terminaria em alta para o time de Vadão, que venceu uma seletiva com os times eliminados no Brasileirão e se classificou pela primeira vez à Copa Libertadores.

2001: Marca de campeão

O Athletico Paranaense viveria um ano dos sonhos em 2001. E um sinal concreto do que viria a ser aquele Brasileirão veio na quarta rodada, quando o Flamengo visitou a Arena da Baixada. O time de Zagallo andava em alta, com o tricampeonato carioca e também a conquista da Copa dos Campeões. Brigaria contra o rebaixamento naquela campanha na Série A, que se provou difícil logo pela goleada dos futuros campeões: um 4 a 0 em Curitiba. Alex Mineiro, Kleber Pereira, Kléberson e Souza eram heróis athleticanos em campo, numa equipe que iniciou a competição sob as ordens de Mário Sérgio. Os flamenguistas contavam com Petkovic, Reinaldo, Beto e Júlio César.

Gustavo abriu o placar logo no primeiro minuto, de cabeça. Petkovic chegou a acertar a trave duas vezes em cobranças de falta e Gustavo salvou uma bola em cima da linha, mas Alex Mineiro ampliou num contra-ataque antes do intervalo. Já no segundo tempo, Kléber Pereira e Rodriguinho concluíram o show do Furacão. Aquele resultado ainda abriu uma sequência emblemática de hegemonia athleticana no confronto dentro da Baixada: seriam sete derrotas consecutivas dos flamenguistas no estádio até um empate em 2009, com direito ainda a uma goleada por 4 a 1 em 2003.

2004: Uma virada emocionante

Mesmo sem a taça, a torcida do Athletico tem muito carinho pelo time que terminou na segunda posição do Brasileiro de 2004. O mesmo não se pode dizer do Flamengo, em mais uma temporada de vacas magras e risco de rebaixamento. Como dava para se prever, a hegemonia do Furacão contra os cariocas na Arena da Baixada se ratificou mais uma vez, mas com um resultado emocionante. A vitória por 2 a 1 aconteceu apenas no apagar das luzes, com uma virada comandada por Washington Coração Valente, em fase implacável.

O Athletico de Levir Culpi era forte com Washington, Dagoberto, Jadson e Fernandinho. O mesmo não se pode dizer de um Flamengo que reunia garotos como Júlio César e Ibson para aliviar um pouco, além dos veteranos Zinho e Júnior Baiano, sob as ordens do técnico Ricardo Gomes. O Fla ficou prestes a surpreender quando abriu o placar aos 24 do segundo tempo, numa cabeçada de Júnior Baiano. A virada, porém, se desenhou depois dos 42. Washington empatou com um lindo giro e virou de pênalti, graças a uma lambança de Júlio César, que cometeu a falta no artilheiro após deixar uma bola fácil escapar de suas mãos. Em longa série invicta, logo os paranaenses tomariam a liderança do Santos, mas não a sustentariam.

2007: O ápice de uma arrancada inesquecível

A torcida do Flamengo também possui um carinho especial pelo time do Brasileirão de 2007. Depois de anos a fio fazendo péssimas campanhas no torneio, o início da jornada na Série A prometia outra vez a luta contra o rebaixamento, mas os cariocas embalaram como poucas vezes se viu na competição. Partiram da zona da degola para a zona da Libertadores, numa ascensão meteórica que foi comemorada feito um título. Mais marcante ainda era a maneira como a massa abraçou a equipe de Joel Santana e lotou repetidamente o Maracanã, recém-reformado por causa do Pan. O Furacão seria testemunha ocular dessa jornada, numa das partidas mais festejadas pelo Fla, já que confirmou a vaga na Libertadores durante a penúltima rodada.

O Flamengo trazia muitos jogadores da base, como Renato Augusto e Ibson, mas também tinha outras figuras mais rodadas como Fábio Luciano, Obina, Léo Moura, Juan, Ronaldo Angelim e Souza Caveirão. Alex Mineiro permanecia no ataque do Furacão, em time de David Ferreira, Netinho, Claiton, Danilo, Rhodolfo e Jancarlos. Mais marcante que o placar de 2 a 0 foi o público de mais de 87 mil. O Fla dominou a partida e anotou o primeiro numa jogadaça de Renato Augusto, que tabelou com Souza para guardar. O armador também serviu Juan no segundo tento. E com a derrota paralela do Cruzeiro, a vaga na Libertadores estava carimbada. Em tempos de imbróglio pela famigerada Taça das Bolinhas, houve até entrega de troféu simbólico promovida pelos flamenguistas.

2008: A salvação na última rodada

O Athletico Paranaense caiu de nível na segunda metade da década de 2000 e correu riscos no Brasileirão. A hegemonia contra o Flamengo na Arena da Baixada serviu de trunfo na última rodada do campeonato em 2008. Os flamenguistas de novo fizeram uma campanha na parte de cima da tabela e sonhavam com Libertadores. Já os athleticanos beiravam a zona de rebaixamento e precisavam do resultado a qualquer custo. No fim das contas, um jogo maluco aconteceu em Curitiba. Os paranaenses ganharam por 5 a 3 e escaparam da queda por um ponto. Já os cariocas não se classificaram ao torneio continental também por um ponto.

O Athletico de Geninho contava com uma equipe sem inspirar muitos amores, de Rafael Moura, Julio dos Santos, Alan Bahia, Rhodolfo e Galatto. O Flamengo de Caio Júnior tinha Marcelinho Paraíba e Diego Tardelli acrescidos à base do ano anterior. Um gol contra de Toró abriu o placar aos 12, enquanto Rafael Moura ampliou aos 26. Já a reta final do primeiro tempo seria de uma trocação louca. Marcelinho descontou, Júlio Sheik fez o terceiro e Marcelinho voltou a encostar no placar de 3 a 2. Todavia, o Furacão fez o quarto com Zé Antônio no meio do segundo tempo e Alan Bahia humilhou o goleiro Bruno no pênalti com paradinha que valeu o quinto. Só aos 45 que o Fla fechou a contagem, para que Marcelinho Paraíba completasse sua tripleta.

2009: O Imperador voltou

Ainda era a quinta rodada do Campeonato Brasileiro e o Flamengo, dirigido por Cuca, passava longe de imaginar como aquela campanha seria fantástica. Depois de começar mal o torneio e de acelerar no meio do caminho, o time depois comandado por Andrade voltou a ser campeão nacional pela primeira vez em 17 anos. Antes que o conto de fadas começasse, o Athletico se tornou convidado de honra para uma festa especial no Maracanã: o Furacão era justamente o adversário no duelo que marcou a reestreia de Adriano Imperador após voltar da Internazionale. O Maraca lotado aplaudiu a vitória por 2 a 1, que, é claro, teve gol do centroavante para decidir – como se repetiria em todo o Brasileirão.

A escalação do Flamengo já reunia a base campeã, com Léo Moura, Juan, Angelim e Kléberson. Se Petkovic não estava presente, Ibson e Emerson Sheik auxiliavam de início. Já o Athletico não trazia tantas novidades em relação ao embate do ano anterior, com as inclusões de Márcio Azevedo e Marcinho. Era um show para Adriano, com bandeirão ganhando os céus com o rosto do centroavante e o Rap da Felicidade embalando a cantoria pra quem “só queria ser feliz na favela onde nasceu”. Na pressão do Fla, Antônio Carlos marcou o primeiro contra sob a sombra de Didico. E o centroavante deixou sua assinatura no início do segundo tempo, numa cabeçada fulminante. Rafael Moura descontou no meio da segunda etapa, mas não seria o He-Man a se colocar no caminho do Imperador.

2013: A outra final

O ano de 2013 é importante para Flamengo e também para Athletico Paranaense. Os cariocas atravessavam um período importante de transição, em que começavam a restabelecer suas estruturas e deixariam para trás a bagunça na gestão que imperou nas décadas anteriores. Enquanto isso, os paranaenses tinham acabado de retornar à primeira divisão do Campeonato Brasileiro e também dariam passos firmes para os sucessos que viriam em breve. As trajetórias acabaram por se cruzar na Copa do Brasil. O Fla fazia uma campanha de recuperação excepcional, com a classificação apertada sobre o Cruzeiro e a goleada no clássico com o Botafogo, antes de superar o Goiás na semifinal. O Furacão aterrorizou a dupla Gre-Nal e, pelo que aprontava no Brasileirão, estava preparado ao desafio.

Com a reforma da Arena da Baixada para a Copa do Mundo, a primeira partida aconteceu na Vila Capanema. Não era o melhor ambiente para o Furacão. O time dirigido por Vágner Mancini trazia bons nomes como Weverton, Manoel, Luiz Alberto, Paulo Baier, Marcelo Cirino e Éderson. Já o Flamengo de Jayme de Almeida tinha alguns jogadores em estado de graça, como Hernane Brocador, Paulinho e Luiz Antônio, em elenco mais tarimbado por Elias, Chicão, Wallace, Léo Moura, André Santos e Felipe. O empate por 1 a 1 caiu bem ao Fla. Marcelo Cirino anotou o primeiro num chutaço de fora, mas Amaral anotou um gol ainda mais impressionante para empatar, num míssil da intermediária. Era o primeiro tento do volante pelo clube, num lance improvável. Felipe segurou o placar no segundo tempo.

Já a partida de volta teria o Flamengo com o regulamento a seu favor, graças à vantagem do empate sem gols. Os cariocas tentaram mais no primeiro tempo, com muitos chutes de longe, incluindo uma falta cobrada por Luiz Antônio na junção da trave com o travessão. O Furacão saiu mais no segundo tempo, mas o Fla era mais perigoso nos contragolpes e perdia chances. Hernane tentou até de voleio, mas Weverton fechava o gol. O primeiro tento saiu apenas aos 43, num giro lindo de Paulinho para a conclusão de Elias. Já nos acréscimos, o Brocador deixou o seu e disse que “acabou”, para fazer o Maracanã explodir com o terceiro título dos flamenguistas na Copa do Brasil.

2017: O antecedente na Libertadores

Flamengo e Athletico Paranaense já se pegaram na Libertadores. Foi em 2017, quando as duas equipes compunham o mesmo grupo de San Lorenzo e Universidad Católica. Cada equipe fez sua parte em casa nos confrontos diretos, com duas vitórias por 2 a 1. Entretanto, o Furacão teve mais competência contra os demais adversários e se classificou ao lado do Ciclón, enquanto o Fla teve que se contentar com a repescagem à Copa Sul-Americana na terceira colocação. Paulo Autuori tinha uma escalação athleticana com Thiago Heleno, Lucho González, Eduardo da Silva, Nikão e Weverton. Já Zé Ricardo comandava um Fla com Guerrero, Diego Ribas, Willian Arão e Réver, mas também de figuras pouco queridas como Alex Muralha e Márcio Araújo.

O Flamengo se impôs dentro do Maracanã, com a vitória por 2 a 1. Foi um ótimo primeiro tempo da equipe, que marcou o primeiro de cabeça com Guerrero e o segundo em chute colocado de Diego – que depois carimbou a trave. A reação do Furacão aconteceu no segundo tempo, com Nikão, e o time pressionou pelo empate, mas no máximo teve um gol bem anulado por impedimento. Já no reencontro, o Athletico foi mais eficiente para ganhar por 2 a 1 na Baixada. Thiago Heleno abriu a contagem aos 37 do primeiro tempo e Felipe Gedoz saiu do banco para aumentar aos 44 do segundo. Os cariocas tinham mandado uma bola na trave antes disso com Leandro Damião, mas só descontaram com Willian Arão no apagar das luzes.

Os tropeços fora de casa custaram caro ao Flamengo naquela campanha. Na rodada final, o time precisava só do empate e tomou a virada por 2 a 1 do San Lorenzo aos 47 do segundo tempo. Acabou eliminado. Enquanto isso, o Athletico Paranaense transformou sua história na campanha com um épico diante da Universidad Católica. O Furacão saiu atrás no placar e buscou uma reação fantástica nos 15 minutos finais do segundo tempo, com o gol decisivo dos 3 a 2, logo após o segundo tento chileno, já aos 42 minutos. A campanha, todavia, parou nas oitavas diante do Santos. O Fla seria vice da Sul-Americana diante do Independiente.

2019: O Furacão emperra a máquina do Flamengo

O Flamengo viveu um 2019 inesquecível, com as conquistas da Libertadores e do Brasileirão. O Athletico Paranaense também, ao faturar a Copa do Brasil. E o Furacão impôs o único asterisco no sucesso de Jorge Jesus, ao tirar os favoritos nas quartas de final do torneio nacional, em momento no qual o Fla tentava se acertar. Tiago Nunes contava com a forte equipe de Bruno Guimarães, Rony, Nikão, Marco Rúben e Marcelo Cirino, além dos hoje flamenguistas Santos e Léo Pereira. Já o Flamengo de Jorge Jesus era um time em formação. Ainda não tinha sua escalação completa, embora o time já reunisse Diego Alves, Rodrigo Caio, Willian Arão, Arrascaeta, Gabigol, Bruno Henrique, Rafinha e Everton Ribeiro. Gente que perdeu espaço como Rodinei, Léo Duarte, Renê, Cuéllar, Vitinho e Lincoln também esteve em campo.

O primeiro jogo, na Arena da Baixada, terminou empatado em 1 a 1. Léo Pereira marcou o primeiro para o Athletico no início do segundo tempo, mas Gabigol fez um lindo gol por cobertura para igualar na sequência. Seria um jogo de muita controvérsia ao redor do VAR, com lances reclamados pelos paranaenses. Já no Maracanã, novo 1 a 1. Gabigol assinalou o tento flamenguista no meio do segundo tempo, antes de Rony empatar num contragolpe aos 31. Nos pênaltis, o Fla perdeu as duas primeiras. Diego bateu no meio e facilitou para Santos, enquanto Vitinho isolou. Diego Alves até salvou contra Bruno Nazário, mas Santos também parou Everton Ribeiro e Bruno Guimarães fechou o placar em 3 a 1. Seria um grande passo na caminhada do título do Furacão.

2019: O fim do tabu na Baixada

O Flamengo já tinha outra cara quando se reencontrou com o Athletico três meses depois, pelo segundo turno do Brasileirão de 2019. O time de Jorge Jesus estava claramente encorpado, com as adições de Pablo Marí e Gerson, além das presenças de Everton Ribeiro, Bruno Henrique, Rafinha e Diego Alves no time titular. Todavia, foi uma equipe mista que visitou Curitiba, contra um Athletico que também contava com ausências importantes. A vitória por 2 a 0, além de dar mais fôlego ao Fla na busca pela taça, encerrou um jejum de 45 anos sem vitórias do clube contra o Furacão na capital paranaense por competições nacionais – os únicos dois triunfos no intervalo ocorreram em amistoso de 1998 e na Sul-Americana de 2011.

O Fla fechou a rodada com uma vantagem de oito pontos na liderança, enquanto o Athletico era o modesto décimo colocado, relaxado após o título da Copa do Brasil um mês antes. Mesmo com as limitações do Furacão, Diego Alves foi decisivo naquela tarde. O goleiro realizou uma porção de grandes defesas, que seguraram o placar. E o primeiro tento do Flamengo seria uma entregada do goleiro Léo, para Bruno Henrique roubar a bola dentro da área, antes da definição fácil. Diego Alves continuou com ótimas defesas, até Bruno Henrique matar o jogo no segundo tempo com um desvio leve.

2020: O tira-teima na Supercopa

O sucesso de Flamengo e Athletico em 2019 rendeu uma partida especial em 2020, com a retomada da Supercopa do Brasil. Os campeões do Brasileirão e da Copa do Brasil abriram a temporada nacional em fevereiro, com o jogo em Brasília. Jorge Jesus praticamente repetiu a escalação campeã da Libertadores, com a exceção de Pablo Marí, suplantado por Gustavo Henrique na zaga. O Athletico não tinha mais Tiago Nunes e, curiosamente, estava sob as ordens de Dorival Júnior. Thiago Heleno, Nikão, Rony e Santos formavam a espinha dorsal.

O Flamengo teve grande atuação no Mané Garrincha e emplacou a vitória por 3 a 0. Gabigol cruzou para Bruno Henrique marcar o primeiro logo aos 15. Com meia hora de jogo, Gabigol aproveitou o cochilo athleticano para ampliar. As chances perdidas freavam qualquer esboço de reação do Furacão e o triunfo seria sacramentado aos 22 do segundo tempo, num rebote concluído por Arrascaeta. Era mais uma taça erguida numa sequência imparável dos flamenguistas.

2020: O troco na Copa do Brasil

Nos últimos anos, os embates de Flamengo e Athletico Paranaense na Copa do Brasil se tornaram bastante repetidos. Em 2020, coube ao Fla eliminar o Furacão e encerrar a defesa do título. Os encontros pelas oitavas de final aconteceram quando os flamenguistas eram dirigidos por Domènec Torrent, numa equipe que perdia peças e absorvia novos nomes. Thiago Maia, Pedro e Hugo Neneca estavam entre as novidades. Léo Pereira havia trocado de lado. Já os athleticanos tinham Walter no ataque, além de Santos, Nikão e Thiago Heleno como lideranças. Paulo Autuori assumia o comando naquele momento, numa sequência ruim sem vitórias do time – que acabaria por se ampliar.

A ida, na Arena da Baixada, não tinha público por causa da fase mais aguda da pandemia. O Flamengo venceu por 1 a 0, gol de Bruno Henrique logo aos 20 minutos do primeiro tempo, na sobra de uma bola de Pedro no travessão. Hugo Neneca se destacaria, com uma coleção de defesaças. O garoto chegaria até a pegar um pênalti batido com força por Walter na segunda etapa. No Maracanã também vazio, o Fla teve sua estrela em Pedro, no triunfo por 3 a 2. O centroavante mandou na gaveta para abrir o placar e ampliou com oportunismo, antes de Erick descontar às portas do intervalo num chutaço de fora. Santos parou Pedro mais algumas vezes, Thiago Maia teve um golaço anulado e Michael finalmente fez o terceiro aos 39 do segundo tempo. O placar se tornou mais apertado quando Bissoli diminuiu depois disso, mas não representou uma ameaça.

2021: Um Furacão devastador no Maracanã

A Copa do Brasil voltou a ser cenário para a rixa em 2021, agora na semifinal. O Flamengo já não vinha no momento mais empolgado sob as ordens de Renato Gaúcho, que lidava com muitas críticas pelo descompasso da defesa, enquanto o Athletico também oscilava sob as ordens de Alberto Valentim, mas crescia nas copas. Foi exatamente o que aconteceu naqueles duelos, com uma equipe que já tinha sido melhor dentro da Arena da Baixada no empate por 2 a 2 e sobrou em eficiência nos 3 a 0 históricos do Maracanã. Mesmo que o título não tenha vindo ao Furacão, o resultado no Rio de Janeiro entra no combo de feitos da temporada que culminaria em mais uma taça na Copa Sul-Americana.

A primeira partida teve um empate por 2 a 2 em Curitiba que saiu no lucro ao Flamengo. Os cariocas marcaram o primeiro gol num lance de sorte, em que a bola sobrou para Thiago Maia definir. Santos precisou conter os visitantes na sequência, mas logo o Furacão acertou a marcação e cresceu no segundo tempo. Pedro Henrique empatou numa cabeçada logo de início e Renato Kayzer virou em outra testada. Somente nos acréscimos veio o segundo gol do Fla, num pênalti que Pedro converteu. Entretanto, os acertos da Baixada se repetiram no Maracanã e, muito mais organizado, o Athletico encontrou o caminho do ouro. Fechou-se muito bem na defesa e explorou contragolpes fatais para os 3 a 0. A pressão athleticana na marcação funcionou à perfeição desde o início e gerou o primeiro gol aos cinco minutos, num pênalti sofrido por Kayzer e batido por Nikão. A defesa sólida se preservou e, nos longos acréscimos da etapa inicial, Nikão fez mais um no contragolpe. Já no segundo tempo, o Fla martelou e parou na segurança de Santos. Mesmo a expulsão de Khellven não atrapalhou e o terceiro gol saiu aos 44 da etapa final, numa jogadaça de Zé Ivaldo para a conclusão de Pedro Rocha. Vaias ecoavam no Maraca.

2022: O aperitivo para Guayaquil

O quarto encontro pela Copa do Brasil em quatro temporadas seria o mais importante para projetar o que pode acontecer em Guayaquil. Mesmo assim, algumas impressões mudaram nesses quase três meses desde aquelas quartas de final. O Athletico Paranaense de Felipão mostrou que poderia combater a força do Flamengo, que vinha num momento bastante contundente com Dorival Júnior. Entretanto, ficaram discussões sobre o antijogo e as limitações dos paranaenses ao redor daquelas partidas. Fato é que o Fla precisou de muito suor e da inspiração de Pedro. Depois do amarrado 0 a 0 do Maracanã, foi a genial bicicleta do centroavante que garantiu a classificação com o 1 a 0 na Arena da Baixada. O cartão postal do que viria se tornar uma campanha campeã do clube nesta Copa do Brasil.

O Flamengo mandou no jogo do Maracanã, só não conseguiu destravar a defesa do Athletico no empate por 0 a 0. O goleiro Bento estava intransponível e ainda contou com outras ajudas, da trave e também da bola salva em cima da linha por Khellven. Pedro era quem liderava o abafa do Fla, em noite descalibrada de Gabigol. Ainda choveram críticas à arbitragem e às dificuldades dos paranaenses em representarem perigo. A Arena da Baixada poderia oferecer outro cenário, mas o Flamengo mais uma vez foi melhor. Depois de um primeiro tempo mais pegado, a segunda etapa ganhou em qualidade. O Fla arregaçou as mangas na volta do intervalo e pressionou até marcar aos 12 minutos, no cruzamento de Rodinei para a bicicleta fenomenal de Pedro. Com isso, os cariocas passaram a administrar o resultado e a buscar os contragolpes, enquanto os paranaenses iam para cima do empate. Seriam minutos finais mais de luta do que de qualidade do Furacão, que ainda deu sorte quando Gabigol poderia ter feito o segundo. A temperatura elevada desses jogos influencia o que se verá no Equador.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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