Libertadores

Da Noite das Garrafas a um duelo de craques, o retrospecto do Corinthians x Flamengo na Libertadores

O Flamengo possui histórico favorável contra o Corinthians na Libertadores, incluindo uma vitória em 1991 e a classificação nas oitavas de 2010

As duas maiores torcidas do Brasil iniciarão nesta terça-feira mais um embate titânico na Libertadores. Flamengo e Corinthians se enfrentam por uma vaga nas semifinais, com um histórico de partidas memoráveis na competição continental. Em 1991, mesmo com jogos limitados à fase de grupos, a vitória rubro-negra no Pacaembu descambou em revolta da torcida corintiana e violência. Já em 2010, pelas oitavas de final, o embate gigante entre Adriano e Ronaldo seria resolvido por outro astro, Vágner Love, mesmo com o triunfo alvinegro em São Paulo. Abaixo, relembramos essas histórias.

Flamengo e Corinthians se enfrentaram pela primeira vez na Copa Libertadores de 1991, durante a fase de grupos. Os paulistas chegavam como atuais campeões do Brasileirão, enquanto os cariocas tinham abocanhado a Copa do Brasil. Qualidade não faltava dos dois lados. Os alvinegros contavam com jogadores como Ronaldo, Marcelo Dijan, Neto, Paulo Sérgio, Viola, Fabinho e Tupãzinho. Ainda ganharam o reforço de Mirandinha, ex-Newcastle, no ataque. Nelsinho Baptista permanecia como treinador. Já os rubro-negros vinham sob a batuta do maestro Júnior. Contavam com uma geração recheada de jovens, incluindo Marcelinho Carioca, Nélio e Piá, além de ídolos do porte de Zé Carlos e Charles Guerreiro. O técnico era Vanderlei Luxemburgo.

A abertura da fase de grupos já contou com o Flamengo x Corinthians, realizado em Cuiabá. A Libertadores começava concomitante com o Brasileirão e os dois times chegavam em climas diferentes. Os alvinegros estavam motivados depois de derrotarem o Botafogo, enquanto os rubro-negros tomaram de 5 a 1 contra o Goiás. Além disso, havia uma crise de bastidores no Fla, com Luxemburgo ameaçando sair diante da possibilidade de uma contratação que não tinha sido pedida.

Seria uma boa partida em Cuiabá, com o empate por 1 a 1. O Corinthians começou melhor, aproveitando a velocidade de seu ataque, e Neto exigiu grande defesa de Zé Carlos em cobrança de falta. O Flamengo melhorou a partir dos 20 minutos, mas o goleiro Ronaldo também segurou as pontas. O gol, porém, veio antes do intervalo. Uma cobrança de falta de Marcelinho na gaveta, ironicamente, faria os corintianos sofrerem. Já no segundo tempo, os alvinegros melhoraram e pressionaram pela igualdade, embora Ronaldo também trabalhasse. Teriam que insistir até os 44, quando o substituto Paulo Sérgio fez grande jogada e cruzou para o arremate de Fabinho, de voleio.

Nacional e Bella Vista eram os representantes uruguaios no grupo dos brasileiros. O Corinthians empatou as duas em Montevidéu, enquanto o Flamengo derrotou o Nacional e empatou com o Bella Vista. Assim, a situação dos rubro-negros era bem mais cômoda quando ocorreu o reencontro no Pacaembu. Gaúcho era uma importante adição no ataque do Fla em relação ao primeiro jogo, enquanto Gilmar assumia a meta. Já os corintianos contavam com as entradas de Paulo Sérgio e Viola como titulares, além do retorno de Márcio Bittencourt.

O Flamengo disparou na liderança com a vitória por 2 a 0 em São Paulo, num jogo mais lembrado pela confusão ocorrida no final – a chamada “Noite das Garrafas”. Os rubro-negros apresentaram um jogo qualificado, de velocidade e agressividade. E o gol saiu cedo, aos 11 minutos, com um toque contra de Wilson Mano, após cobrança de escanteio. A partir de então, o Fla ditou o ritmo com Júnior, enquanto o Corinthians se limitava às bolas paradas com Neto. Gilmar vivia uma noite impecável em sua meta. Aos 36, o placar foi arredondado. Júnior lançou Alcindo, que fez o cruzamento para a cabeçada de Gaúcho. Na segunda etapa, a pressão maior dos corintianos não deu resultado, com o risco de tomar mais nos contragolpes.

As cenas lamentáveis ocorreram ainda no fim do segundo tempo, aos 36 minutos. A confusão teria se iniciado pelo bandeirinha Manuel Serapião, que respondeu com gestos obscenos aos insultos das arquibancadas. Torcedores revoltados do Corinthians começaram a invadir o gramado e agrediram Serapião, bem como o árbitro Renato Marsiglia. Além disso, ocorreu uma chuva de garrafas de vidro no gramado, sobretudo quando os times e o trio de arbitragem já tinham se retirado para os vestiários. A polícia militar respondeu com truculência, especialmente depois que um dos alambrados foi arrebentado – com 15 metros destruídos. A partida sequer chegaria ao fim e o placar de 2 a 0 foi ratificado pela Conmebol. Já o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, prometia um “mutirão contra a violência”.

No fim das contas, Flamengo e Corinthians se classificaram ao lado do Nacional. E ambos os times teriam o mesmo algoz nos mata-matas. Os corintianos sucumbiram nas oitavas diante do Boca Juniors, com a derrota por 3 a 1 na Bombonera e o empate por 1 a 1 no Morumbi. Já o Flamengo passou por cima do Deportivo Táchira, mas também acabou eliminado contra o Boca Juniors nas quartas. Os rubro-negros venceram por 2 a 1 no Maracanã, antes da derrota por 3 a 0 na Bombonera. Gabriel Batistuta foi o terror dos brasileiros, com dois gols diante dos paulistas e mais dois contra os cariocas.

Foram 19 anos até que Flamengo e Corinthians voltassem a se enfrentar na Libertadores. Em 2010, estavam com os troféus invertidos: os rubro-negros vinham da conquista do Brasileirão, enquanto os alvinegros levaram a melhor na Copa do Brasil. O confronto também teria mais peso, nas oitavas. O Fla contava com seu badalado “Império do Amor” no ataque, com a dupla formada por Adriano e Vágner Love. O técnico Rogério Lourenço, recém-promovido ao comando após a contestável demissão de Andrade, também tinha à disposição Léo Moura, Ronaldo Angelim, Juan, Maldonado e outros destaques no título nacional anterior. Já a famosa dupla corintiana era formada por Ronaldo e Roberto Carlos, num grupo que ainda reunia ídolos como William, Chicão, Ralf, Elias e Danilo. Mano Menezes era o treinador. A fase favorável pesava aos paulistas, donos da melhor campanha na fase de grupos, com os cariocas possuindo o pior retrospecto entre os 16 classificados.

A primeira partida aconteceu num Maracanã pulsante, mas sob forte chuva. Num primeiro tempo sem grandes emoções, o Flamengo teve as melhores chances, mas viu Michael ser expulso com o segundo amarelo aos 37 minutos. Já durante a segunda etapa, Moacir perdeu um gol feito para o Corinthians, antes de Juan acertar o travessão numa falta cobrada para a área. O gol do Fla surgiu num pênalti cometido por Moacir sobre Juan. Adriano encarou Júlio César na marca da cal e venceu o goleiro, balançando as redes aos 21 minutos. Júlio César ainda seria providencial, num milagre em cabeçada de Adriano que pegou depois no travessão. Hostilizado pelos torcedores flamenguistas após sua escolha de assinar com o Corinthians, Ronaldo estava longe da melhor forma e pouco apareceu, com o seu time sem aproveitar a vantagem numérica.

“Tenho que agradecer todo apoio que recebi e não posso esquecer do Andrade. É o campeão brasileiro e foi ele quem montou essa equipe”, comentaria, depois do jogo, o técnico Rogério Lourenço. “O mérito é todo dos jogadores, foram espetaculares pela aplicação, tanto no espírito de luta quanto na parte tática. Eles acreditaram na proposta e cumpriram fielmente. O Flamengo vinha sempre jogando para cima, enquanto os adversários ficavam esperando. Temos que nos posicionar de forma que os adversários também venham para cima, porque temos contra-ataques muito fortes”.

A regra do gol fora oferecia um cenário interessante ao Flamengo no Pacaembu. O Corinthians precisava ir para o ataque e até resgatou o sistema de 2009, com a entrada de Jorge Henrique. Venceu por 2 a 1, mas o gol sofrido demarcou o amargor alvinegro. Melhores no início, os corintianos martelaram durante os primeiros minutos, mas só marcaram aos 28, num cruzamento de Danilo que David Braz mandou contra as próprias redes. O Fla acordou e passou a responder, mas já aos 31 veio o segundo do Corinthians, num cruzamento de Dentinho para a cabeçada de Ronaldo.

A confiança tomava a torcida do Corinthians, até que o golpe fatal do Flamengo ocorresse na volta para o segundo tempo. Aos cinco minutos, Vágner Love recebeu em velocidade e tocou na saída de Felipe. Os rubro-negros cresceram, com Kleberson entrando e ajudando muito no meio. Tanto é que poderiam ter feito o segundo, com a falta de pontaria pesando contra. Já os alvinegros perderam a força da primeira etapa e nem assustaram tanto quanto deveriam. Na melhor chance, já nos acréscimos, Chicão teve uma cobrança de falta defendida por Bruno.

Aquela eliminação do Corinthians seria mais frustrante pelo contexto, no ano do centenário do clube. Porém, a revolta de outras ocasiões não se repetiu no Pacaembu e o time saiu aplaudido pela torcida. Classificado, o Flamengo não teria vida longa naquela Libertadores. Acabou eliminado pela Universidad de Chile, em duelos bastante movimentados.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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