Libertadores

Como foi o Palmeiras x Cerro Porteño pela Libertadores de 1999 – quando Arce fez valer a Lei do Ex com a camisa alviverde

Atual treinador do Cerro Porteño, Arce teve boas atuações contra os azulgranas nos duelos pela fase de grupos em 1999

Cerro Porteño e Palmeiras são velhos conhecidos na Copa Libertadores. Esta será a sexta edição diferente da competição que terá o confronto entre azulgranas e alviverdes. Haverá um encontro emotivo do lado de fora, com a presença de Chiqui Arce, lenda palmeirense que é o atual treinador do Ciclón – onde também foi ídolo. O veterano, aliás, experimentará o duelo agora com as cores invertidas. Os primeiros embates entre Palmeiras e Cerro Porteño pela Libertadores ocorreram em 1999, quando o craque vestia a camisa 2 palestrina. Contribuiu para as duas vitórias do time de Felipão na fase de grupos, na caminhada rumo ao inédito título do clube naquela edição do torneio continental.

Arce começou sua carreira na cidade natal, de Paraguarí, com o pequeno 15 de Mayo. Mesmo com apenas 15 anos, Chiqui era o camisa 10 da equipe e chamou atenção do Cerro Porteño após levar seu modesto time ao título num torneio reunindo agremiações do interior. Ainda esperou um tempo para se firmar na equipe principal do Ciclón, o que aconteceu em 1989, quando tinha 18 anos. Não demorou a fazer história. Participou de equipes importantes dos azulgranas e conquistou o Campeonato Paraguaio três vezes – em 1990, 1992 e 1994. De um meia que sabia bater bem na bola, transformou-se num lateral de excepcionais qualidades. Paulo César Carpegiani e Valdir Espinosa foram dois treinadores essenciais em seu amadurecimento.

A mudança de Arce para o Brasil aconteceu em 1995, primeiro para vestir a camisa do Grêmio. Virou protagonista na equipe de Felipão e um dos principais responsáveis pela conquista da Libertadores em 1995. Permaneceu no Olímpico por três anos, até seguir os passos do treinador rumo ao Palmeiras em 1998. O lateral direito seria ainda maior à história alviverde, com sua identificação e sua importância às taças erguidas. De novo, a chance de faturar a Libertadores surgiria em seu horizonte em 1999. Mesmo que, para tanto, precisasse encarar seus velhos conhecidos do Cerro Porteño.

Palmeiras e Cerro compunham o Grupo 3 da Libertadores em 1999, também de Corinthians e Olimpia – em tempos nos quais os representantes do mesmo país se encaravam na fase inicial. O primeiro duelo entre azulgranas e alviverdes aconteceu pela segunda rodada, em Assunção. Os palmeirenses apresentariam suas credenciais, após o triunfo sobre os corintianos no início da campanha por 1 a 0. Quebrariam a motivação dos cerristas, depois de um 4 a 3 sobre os olimpistas na estreia.

Felipão ainda realizaria mudanças no Palmeiras ao longo da Libertadores. Velloso, Cléber e Evair apareciam como titulares naquela visita a Assunção. Marcos e Oséas ficavam no banco, enquanto César Sampaio estava contundido. De qualquer forma, os alviverdes tinham muita qualidade à disposição com Zinho, Alex, Paulo Nunes, Júnior Baiano, Júnior, Roque Júnior e o próprio Arce estrelando a escalação. Do outro lado, o Cerro Porteño era treinado pelo experiente Jair Pereira. A legião brasileira ainda contava com o artilheiro Gauchinho e o veterano Paulo Roberto, este saindo do banco. Jorge Luis Campos e Guido Alvarenga eram referências da seleção paraguaia, enquanto Diego Gavilán despontava com os azulgranas. O problema era lidar com os desfalques de Delio Toledo e Mauro Caballero, convocados para um amistoso da equipe nacional exatamente naquela semana.

O Palmeiras passou por cima do Cerro Porteño dentro do Defensores del Chaco. O time de Felipão goleou por 5 a 2, e de virada. O primeiro gol azulgrana saiu aos 13 minutos, num pênalti convertido por Alvarenga. O empate palmeirense quase veio com o próprio Arce, que tentou um gol olímpico e acertou o travessão. O tento demoraria um pouco mais, até surgir aos 39, num cruzamento caprichoso de Júnior para a testada de Júnior Baiano. Aliás, o jogo aéreo alviverde funcionou muito bem naquela noite – contudo, se valendo mais das jogadas pelo lado esquerdo do que da participação de Arce pela direita.

A goleada do Palmeiras se ampliou na segunda etapa. Cléber fez o segundo depois de um escanteio cobrado por Alex, que também deu a assistência na cabeçada de Evair para o terceiro. A contribuição de Arce veio no quarto gol, levantando a bola para a testada fulminante de Júnior Baiano. O Cerro Porteño voltaria a descontar aos 31, igualmente no jogo aéreo, com a participação de Campos na conclusão. Porém, havia tempo para os palmeirenses fecharem a conta. Oséas, que tinha saído do banco, tabelou com Jackson e tentou duas vezes até vencer o goleiro Danilo Aceval.

Na sequência da Libertadores, o Palmeiras venceu o Olimpia em Assunção, antes de empatar com os alvinegros em São Paulo e perder para o Corinthians. Já o Cerro Porteño chegou a tomar de 8 a 2 contra o Corinthians, mas bateu os corintianos em Assunção e empatou no novo clássico diante do Olimpia. Assim, na rodada final, palmeirenses e azulgranas chegaram com a mesma pontuação. A igualdade beneficiava os alviverdes no Parque Antárctica, mas a derrota poderia custar a eliminação. Arce novamente estava escalado, num time que também contava com Marcos substituindo o lesionado Velloso. Já o Ciclón, agora dirigido por Carlos Báez, contava com os retornos de Caballero e Toledo.

O Palmeiras venceu o Cerro Porteño de novo, mas outra vez dependeu da virada, numa vitória apertada por 2 a 1. Os alviverdes tiveram gol anulado e bola no travessão durante o primeiro tempo, sem brilhar. Quando a equipe aumentava a pressão em busca do tento, Gauchinho fez grande jogada individual e abriu o placar aos três minutos da segunda etapa. As dificuldades eram evidentes e Felipão logo tornou o time mais ofensivo, com Evair no lugar de César Sampaio. Não demorou a surtir efeito.

O empate se concretizou dois minutos depois da troca, aos 14, numa cobrança de escanteio. Arce cruzou, Cléber ajeitou e Júnior Baiano escorou na pequena área. Já aos 18, a reviravolta estava completa com o segundo gol alviverde, agora numa cobrança de falta. Arce faria valer a Lei do Ex, numa bola ajeitada por Zinho para a sapatada do paraguaio da intermediária. Com a visão encoberta, o goleiro Aceval nada pôde fazer. E as esperanças do Cerro Porteño desapareceram de vez aos 23, quando Richard Gómez foi expulso. Com a vantagem numérica, os palmeirenses poderiam ter feito mais, mas desperdiçaram boas chances.

O resultado valeu a classificação do Palmeiras, na segunda posição do grupo. A equipe cresceria nos mata-matas e selaria a inesquecível conquista poucos meses depois. E o Cerro voltou a aparecer pelo caminho nos anos seguintes, com retrospecto favorável aos palmeirenses no confronto. São quatro vitórias e duas derrotas em dez partidas, com duelos também nas fases de grupos de 2001, 2005 e 2006. O momento mais importante veio nas oitavas de final de 2018, com a classificação alviverde garantida nos 2 a 0 de Assunção, apesar da derrota por 1 a 0 no Allianz Parque. Quatro anos depois, o Ciclón encontra um Palmeiras dominante no cenário continental. A seu favor, o maior trunfo é mesmo contar com a experiência de Arce, quem tanto viveu e triunfou dos dois lados.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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