Libertadores

Como Cuca blindou o elenco e revitalizou a sua carreira levando o Santos à final da Libertadores

Nenhum clube do futebol brasileiro oferece condições normais de temperatura e pressão aos seus treinadores, alguns deles não oferecem sequer três semanas, mas o Santos abusou um pouco nesta temporada: dívidas, salários atrasados, jogadores entrando na Justiça para ir embora e impeachment do presidente, tudo em meio a uma pandemia que pressionou ainda mais as contas, tirou a torcida das arquibancadas, causou desfalques por infecção e deixou todos preocupados com si, com a família, com amigos e entes queridos. Mesmo acostumados a lidar com imprevistos, poucos treinadores saberiam driblar tantas dificuldades para chegar à final da Libertadores. Poucos também são tão experientes quanto Cuca.

Cuca carrega uma mistura rara ao futebol brasileiro: rodagem e táticas facilmente aplicáveis que, se não são o suprassumo do que há de mais moderno sobre a grama, também não são obsoletas e ainda funcionam. A habilidade mais importante à realidade que encontrou na Vila Belmiro foi a gestão de pessoas. Pois é. Após duas décadas de uma carreira que tantas vezes teve rusgas e problemas de relacionamento vindo a público, mesmo quando o time vencia, como no Palmeiras campeão brasileiro de 2016, tudo que sai dos bastidores ou dos jogadores do Santos em relação a Cuca é positivo. A história nos informa que a harmonia talvez não dure muito tempo. Mas o relevante por enquanto é que certamente durará até sábado.

Seu principal mérito nesta terceira passagem pelo Santos não foi a maneira como organizou rapidamente os encaixes defensivos, o equilíbrio que encontrou no meio-campo, as descobertas de jovens como Sandry e Lucas Braga ou tirar o melhor futebol de Marinho e Yeferson Soteldo: foi ter conseguido blindar o elenco das interferências externas. Fazer com que todos se comprometessem com o coletivo e com o objetivo. Foi convencer os jogadores a serem um time e atuarem como um, enquanto executava funções que iam além da descrição do seu emprego.

“Depois que ele chegou ao Santos, virou praticamente nosso presidente. Ele entrou, mudou tudo, ajeitou a casa”, disse Marinho, em entrevista ao SporTV, pouco depois de José Carlos Peres ser afastado da presidência – o que acabaria se tornando permanente. “Temos tanta dificuldade. O clube sem dinheiro, sem contratar. A gente sem receber. O Cuca mudou muita coisa. Eu não gosto de me meter muito em política, não seria a pessoa certa para falar, mas é como falei: ele é o nosso presidente. Tinha muita coisa errada que não conseguíamos resolver. Todo mundo esperava pelo menos alguém vir falar para a gente”.

Enquanto as chaves do Santos passavam de Peres e William Thomas para Orlando Rollo e Felipe Ximenes e depois para Andrés Rueda, Cuca teve que ser a constante. E não foi simples ou fácil. “É muito desgastante”, afirmou ao UOL. “Eu quero ficar só no verde, no gramado, que é melhor. Fica muito pesado. Você não dorme. Você tem que tratar com empresário para não perder jogador, para o jogador poder jogar, e essa coisa vai te desgastando muito. Você perde um pouco do foco do campo. Isso aconteceu comigo. De repente, olhei e os resultados não estavam vindo. Eu falei: ‘Tenho que prestar mais atenção aqui’.”

Cuca conseguiu manter os jogadores engajados e concentrados apesar de não estarem recebendo salários. As pendências foram quitadas apenas nesta semana – com exceção da premiação da semifinal. A chave foi convencê-los de que, mais do que a recompensa financeira, a Libertadores representava a oportunidade de marcar e elevar as suas carreiras. “A gente não pode contratar, a gente tem dificuldade no pagamento, a gente tem dificuldade nas premiações… E a gente está jogando aberto com os jogadores”, afirmou, depois de conquistar vaga na final da Libertadores após bater o Boca Juniors por 3 a 0. “Eles não ficam de picuinha ou de cara virada por causa disso ou daquilo. Por isso, a gente está chegando: porque eles estão fazendo as coisas por amor. Em qualquer outra situação, os caras se rebelam, ficam bravos, falam ‘ah, não vamos jogar, assim não dá’. E aqui estão fazendo diferente”.

O auge de Cuca como treinador foi pelo Atlético Mineiro, campeão sul-americano em 2013. Após a decepção contra o Raja Casablanca no Mundial de Clubes, congelou seu status por dois anos, enquanto arrecadava milhões de dólares na China, e retornou ao Brasil para realizar o sonho de treinar o clube para o qual torcia na infância – o mesmo que enfrentará no próximo sábado. A identificação com a torcida do Palmeiras, e vice-versa, foi imediata. Cuca prometeu o título do Campeonato Brasileiro, aquele que o clube não conquistava há 22 anos. Aliás, alega que, ao assumir o Santos, disse aos jogadores que eles chegariam à final da Libertadores. O fato de ter acertado as duas previsões é um pouco assustador. Nenhuma delas era óbvia ou esperada.

Com Gabriel Jesus e um futebol que alternava bons momentos com outros em que era palpável o temor de deixar o caneco escapar, Cuca quebrou o jejum do Palmeiras e se consolidou como um treinador da primeira prateleira do futebol brasileiro. Era confirmado que o título pelo Galo, até pelas circunstâncias épicas em que ocorreu, não havia sido um acaso. Saiu após a conquista alegando problemas pessoais. Tinha o objetivo de “priorizar outras coisas” da sua vida, mas acatou ao chamado do Palmeiras para tentar resgatar uma temporada que saia dos trilhos com Eduardo Baptista. Foi um desastre. Parecia cansado. Suas entrevistas não continham mais aquele tom confiante. Haviam se tornado mais deprimidas e a sensação era que sua cabeça realmente estava em outro lugar.

Aquele foi um erro. Eliminado da Copa do Brasil e da Libertadores, com campanha meramente regular no Campeonato Brasileiro e um desempenho que parecia mais aquele que chegou para corrigir em 2016 – cruzamentos, cruzamentos e mais cruzamentos – do que o que levou ao título, desperdiçou parte do capital que colhera entre a apoteose sul-americana com o Atlético e o fim da fila palmeirense. A nova pausa durou pouco. Em julho de 2018, substituía Jair Ventura no Santos. E voltou a fazer um trabalho competente, embora sem tantos fogos de artifício. Foi eliminado da Libertadores pela escalação irregular de Carlos Sánchez, que gerou uma vitória por 3 a 0 ao Independiente no jogo de ida das oitavas de final que havia terminado 0 a 0 em Avellaneda, tirou o time da zona de rebaixamento e quase arrancou vaga na competição sul-americana da temporada seguinte.

O corpo, porém, cedeu. O projeto que parecia relativamente promissor foi interrompido por um problema de saúde. Anunciou que não seguiria no Santos e operou o coração. Depois de pagar o que chamou de dívida por uma primeira passagem fraca pela Vila Belmiro em 2008, não resistiu à tentação de fazer parte de mais um reencontro. Foi anunciado como novo treinador do São Paulo, em fevereiro, momento em que ainda se recuperava da intervenção cardíaca. O Tricolor topou esperar e deixou Vágner Mancini comandando o time no Campeonato Paulista. Esse tipo de situação não costuma dar certo. A guerra de narrativas que permeia a cobertura do futebol brasileiro não permite. Se o interino vai bem, como Mancini até foi, chegando à final do estadual, por que trocou? Se o interino vai mal, valeu a pena desperdiçar dois meses? A espera gera tanta expectativa que, se o treinador não chegar botando para quebrar, é imediato o questionamento: esperou tanto tempo para isso? Cuca assumiu o São Paulo no começo de abril e não chegou botando para quebrar. Nem tinha como – cinco meses antes, estava com o coração aberto em um leito cirúrgico. Pediu demissão em setembro, alegando que não conseguia mais fazer o time evoluir.

O título brasileiro com o Palmeiras havia sido a culminação de seu melhor momento como técnico. Após ele, Cuca emendou três trabalhos que variaram entre o ruim e o razoável. Nós (imprensa esportiva) gostamos de rótulos, uma das nossas falhas. Ele não era mais um treinador de primeira linha. Havia sido transferido ao grupo dos ultrapassados. Um retorno ao Santos era a melhor escolha para se reabilitar? Olhando para as condições financeiras e políticas, talvez não. Por outro lado, como admitiu ter contado ao braço direito Cuquinha, acreditou que era o lugar certo para ir porque “ia aparecer o trabalho”. É a velha analogia: se você assume o timão de um barco prestes a afundar, e ele afunda, não havia nada que pudesse ser feito; se consegue levá-lo com segurança à costa, vira herói.

Era verdade que havia buracos no casco do barco do Santos. Tanto fora de campo quanto dentro dele, onde Jesualdo Ferreira não deixou muito legado durante os 15 minutos (ou jogos) em que comandou o clube. Mas era um baita de um barco. Havia sido vice-campeão na temporada anterior com Jorge Sampaoli e contava com alguns jogadores especiais para o futebol brasileiro, como Marinho, Soteldo e Lucas Veríssimo. Se não era possível contratar, a base apresentaria soluções. A do Santos tem esse hábito, e a única coisa um pouco estranha de todo esse processo é agradecer a Deus por ter sido obrigado a utilizá-la. Como se em um contexto menos atribulado ele fosse obrigado por lei a gastar dinheiro em contratações piores que garotos como John, Sandry, Lucas Braga e Kaio Jorge. Em entrevista ao SporTV, praticamente diz que muitas vezes é isso que acontece mesmo. “Tivemos o transfer ban, não pudemos contratar e por isso eu digo que tudo que Deus faz é bom. Eu poderia não ter acertado em algumas contratações e os nossos jogadores não terem a mesma resposta desses meninos”, disse.

O coração sofreu mais uma baqueada. Cuca contraiu Covid-19 no final do ano passado. Cortou um limãozinho para colocar no gim e não sentiu o gosto. No dia seguinte, sentia-se indisposto. Recebeu remédio do médico do Santos e foi descansar. O coração passou a bater 145 vezes por minuto, o que em termos leigos significa muito mais vezes por minuto do que deveria. Foi levado ao Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, e passou aproximadamente dez dias internado, parte deles na unidade semi-intensiva. Retornou aos treinos cerca de 20 dias depois e diz que seu olfato e paladar ainda não são os mesmos de antes. “Eu estou quase bom. Tenho algumas coisas às vezes, como dor de cabeça. Não sinto gosto e cheiro ainda. Alguma coisinha ainda tem, mas pouco perto do que eu tinha”, afirmou, à Gazeta Esportiva. “Não tive medo de morrer em nenhum momento, tenho muita fé. Sabia que eu iria sair daquela situação”.

Cuca é bastante religioso. E supersticioso. Duas coisas diferentes que muitas vezes são confundidas. O torcedor do Palmeiras lembra-se da calça vinho. O do Atlético Mineiro, da camisa de Nossa Senhora que marcou a campanha de 2013 e reapareceu agora com o Santos. É difícil não ser religioso, ou supersticioso, quando o futebol apronta uma dessas: o último jogo do Santos antes da final da Libertadores foi no mesmo Mineirão em que Cuca conquistou seu maior título. Com as luzes parcialmente apagadas, depois do jogo contra o Galo e das entrevistas coletivas na última terça-feira, retornou ao gramado e se prostrou para rezar no mesmo lugar em que seus joelhos descansaram durante a disputa de pênaltis contra o Olimpia. Nada errado em pedir um pouco de ajuda divina. Recusa-se, inclusive, a caracterizar seu trabalho como um milagre. Para ele, milagre quem faz é Deus. Mas, sinceramente, ser campeão da Libertadores em um ano tão atribulado do Santos não ficaria muito longe.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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