Libertadores

As lembranças de um grande sonho rubro-negro: A campanha do Athletico-PR até a final da Libertadores 2005

O Furacão cresceu nos mata-matas e fez uma campanha marcante em sua terceira participação na Libertadores

A final da Libertadores não é um terreno novo para o Athletico Paranaense. O desfecho daquela história não é o mais saboroso para o Furacão, mas a campanha de 2005 embalou sonhos rubro-negros e também traz doces lembranças de um período frutífero ao clube. Depois da conquista do Campeonato Brasileiro em 2001 e de um bicampeonato que não veio por pouco em 2004, o Athletico conseguiu sua primeira marca profunda nos torneios continentais, com a caminhada até a final diante do São Paulo. Os sucessos ainda se expandiriam anos depois, com as duas taças da Copa Sul-Americana, mas a Libertadores de 2005 serve de cartão de visitas internacional aos athleticanos e prova concreta de que o clube poderia ambicionar o topo da América. Uma jornada que continua inclusive com um representante em comum em 2022, graças ao inexorável Fernandinho.

A Libertadores de 2005 soa como parte de um processo para o Athletico Paranaense, desde que o clube se restabeleceu na Série A do Brasileirão na segunda metade dos anos 1990. O desenvolvimento dos rubro-negros aconteceu a olhos vistos, não apenas por boas campanhas nos mata-matas do Brasileiro, mas também pela melhora das estruturas. A Arena da Baixada se tornava o estádio mais moderno do país, o CT do Caju garantia igualmente uma das melhores acomodações dos clubes brasileiros. E os sucessos se refletiam em campo, concomitantemente inaugurando a história dos rubro-negros nas competições continentais.

As fronteiras se abriram para o Athletico em 1999, na única edição da chamada Seletiva para a Libertadores. Com o aumento de vagas no torneio continental, a CBF criou um mata-mata com os eliminados do Brasileirão para classificar uma equipe ao certame. Com uma equipe cheia de jovens, o Furacão avançou fase a fase até carimbar pela primeira vez seu passaporte à Libertadores, garantido na edição de 2000. O time arrebentou na fase de grupos, com 16 pontos numa chave de adversários tradicionais como Nacional de Montevidéu, Alianza Lima e Emelec. Vadão tinha nas mãos uma equipe de jovens como Lucas Severino, Kléber Pereira, Adriano Gabiru, Kelly e Kléberson, que ganharam a companhia de reforços tarimbados como Luís Carlos Goiano e Silas. A caminhada, porém, se encerrou nas oitavas. O Atlético Mineiro ganhou em Belo Horizonte, o Furacão se deu melhor em Curitiba e nos pênaltis o Galo acabou avançando.

(IVAN GARCIA/AFP via Getty Images/One Football)

Não demoraria para o Athletico Paranaense erguer a cabeça e voltar à Libertadores. Isso aconteceu, afinal, de uma maneira retumbante: com a conquista do Brasileirão de 2001. Alguns destaques da Seletiva fizeram as malas, mas a venda recorde de Lucas Severino até foi importante para garantir novos reforços e tornar aquela base de 2000 mais competitiva para o ano seguinte. Geninho seria o responsável por uma equipe imponente, que deixou bastante claros seus méritos naquela caminhada que culminou na decisão vencida contra o São Caetano. Entretanto, o retorno à Libertadores de 2002 passou longe das expectativas, com a eliminação dos rubro-negros na lanterna do grupo que trazia América de Cali, Bolívar e Olmedo. O Athletico venceu apenas uma partida, enquanto tomou um 5 a 0 na visita a Cali e ainda fez um maluco 5 a 5 na altitude de La Paz.

O Athletico Paranaense teria campanhas de meio de tabela no Campeonato Brasileiro em 2002 e também em 2003. A equipe realmente emplacou no torneio de pontos corridos em 2004, quando se tornou a principal concorrente do Santos na longa jornada de 46 rodadas. O Furacão ainda levou um tempo para engrenar, num início de competição em que só teve uma vitória nas primeiras cinco rodadas. Entretanto, uma sequência invicta de 18 rodadas botou o time no topo da tabela em meados do segundo turno. Em seu 33° compromisso, os rubro-negros ultrapassaram o Peixe, que vinha na dianteira durante a maior parte do torneio, e pareciam ter mais fôlego para a conquista. Era uma equipe forte com o momento prodigioso de Washington Coração Valente, que empilhava gols no ataque. Ainda havia a contribuição de outra leva de ótimos jovens, como Dagoberto, Jadson e Fernandinho. Levir Culpi dizia que seu time estava “no piloto automático”.

A sequência do Athletico se quebrou com duas derrotas consecutivas, o que garantiu nova ultrapassagem do Santos. Todavia, o time se reergueu para mais uma série de vitórias que voltou a colocá-lo no topo até a antepenúltima rodada. Entretanto, a campanha se encerrou com uma decepção para os rubro-negros. O time de Levir Culpi perdeu para o Vasco em São Januário durante o penúltimo compromisso e, com isso, o Santos ficou um ponto à frente. Já na rodada final, quando os athleticanos não dependiam mais de si, sequer fizeram sua parte na Baixada. O empate por 1 a 1 com o Botafogo rendeu o vice, três pontos atrás do Peixe. O prêmio de consolação viria com a vaga na Libertadores.

A virada do ano rendeu mudanças no Athletico Paranaense. Levir Culpi deixou o comando técnico. A boa fase de Washington levou o artilheiro para o Japão, onde defendeu de início o Tokyo Verdy. Jadson se tornou uma das primeiras apostas do Shakhtar Donetsk na legião brasileira que se formava na Ucrânia. Mesmo coadjuvantes, como Marinho e Fabiano, também arrumaram as malas. Já a lista de reforços se voltava a alguns nomes com experiência internacional. O panamenho Felipe Baloy e o colombiano Vladimir Marín foram mais presentes no início da caminhada na Libertadores. Mais úteis foram as novidades no ataque. O atacante Lima vinha de uma passagem curta pelo Braga, enquanto Aloísio Chulapa estava no Rubin Kazan, após defender Saint-Étienne e Paris Saint-Germain com certo sucesso. Do mercado brasileiro ainda desembarcavam apostas como Jancarlos (Fluminense), Durval (Brasiliense), André Rocha (Palmeiras) e Danilo (Ituano). Todos com marcada contribuição na Libertadores.

(IVAN GARCIA/AFP via Getty Images/One Football)

Parte dos reforços ainda se juntou no meio da campanha, mas a escalação do Athletico começava com o goleiro Diego, de ótimo nível pelo clube naqueles anos. A defesa contava com a experiência de Marcão, um dos esteios do clube e dono da braçadeira de capitão, que fazia as vezes de zagueiro ou principalmente lateral esquerdo. Tinha a companhia de vários jovens como Durval, Danilo e Baloy pela faixa central, enquanto Jancarlos garantia características mais ofensivas pelo lado direito da defesa.

A base do meio-campo tinha Cocito trancando a porta e Alan Bahia mais eficiente na construção. Fernandinho atuava solto, dono da camisa 10, enquanto Fabrício era mais um de boa técnica na criação. André Rocha, Evandro e Rodrigo Souto foram alternativas para o meio naquela Libertadores, enquanto Jorge Henrique somou parcos minutos após chegar do Náutico. Já na frente, Aloísio Chulapa e Lima formaram uma dupla de respeito principalmente na reta final, mas Dênis Marques era outro com moral no clube que ajudou nas fases iniciais. Sem o lesionado Dagoberto, Cléo e Maciel eram outras opções. No banco, o ex-zagueiro Edinho Nazareth se tornou o escolhido para o comando no início da campanha. Curiosamente, ninguém do elenco passava dos 30 anos, enquanto só Aloísio, Cocito, Marcão, Diego e Fabrício tinham 24 ou mais entre os titulares.

Durante a fase de grupos, o Athletico Paranaense pegou um grupo com suas armadilhas. O Independiente Medellín era o campeão do Apertura Colombiano, em tempos de bonança para o clube. Mauricio Molina, David González e Jaime Castrillón eram os destaques do DIM. O América de Cali precisou passar pelas preliminares e logo sentiria os impactos dos problemas econômicos, mas era o adversário de maior tradição no torneio. Os escarlatas tinham vários jogadores que logo viriam para o futebol brasileiro, três deles trazidos pelo Furacão – David Ferreira, Edwin Valencia e Julián Viáfara, além de Pablo Armero que também compunha o plantel. Já o Libertad estava em franca ascensão, num momento em que se consolidou como uma força no Paraguai. Os alvinegros mesclavam argentinos aos paraguaios, de Pablo Guiñazú a Carlos Bonet.

A largada da campanha aconteceu na Colômbia. E o Athletico ainda lamentou o empate por 2 a 2 diante do Independiente Medellín. Marcão abriu a campanha de forma brilhante, com um bombaço em cobrança de falta no meio da rua. No início do segundo tempo, Dênis Marques ampliou numa conclusão mansa durante contragolpe. O problema é que o time baixou o ritmo e permitiu o empate do DIM, com gols de Juan Diego González e Neider Morantes – este num chute de longe que o goleiro Tiago Cardoso, em seu único jogo na campanha, falhou aos 45 minutos do segundo tempo. Também não ajudou a expulsão de Vladimir Marín do lado rubro-negro pouco antes.

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O Athletico Paranaense venceu a primeira quando estreou na Arena da Baixada. Foi uma vitória magra, mas suficiente, com o triunfo por 1 a 0 sobre o Libertad. Os rubro-negros dominaram o primeiro tempo, mas o gol saiu na segunda etapa. Maciel saiu do banco no lugar de Rodrigo Souto e a aposta ofensiva se pagou, com o gol do atacante após lançamento de Alan Bahia. Não seria uma vitória tão tranquila, porém, com pressão dos paraguaios pelo empate depois disso. Já a primeira derrota aconteceu na nova viagem à Colômbia. O América de Cali emplacou 3 a 1 no Pascual Guerrero. Leonardo Mina Polo, Néstor Salazar e David Ferreira marcaram para os Diablos Rojos, enquanto Marín fez o de honra do Furacão numa linda cobrança de falta.

Quando a situação do Athletico parecia se complicar, veio a necessária reação. Começou com a vitória por 2 a 1 sobre o América de Cali na Baixada. Seria uma partida dura. Fabrício marcou o primeiro de falta aos 40, mas Jorge Banguero empatou antes do intervalo. A igualdade se arrastava, com direito a um pênalti de Fernandinho defendido por Viáfara, até que Lima se tornasse o salvador. O atacante saiu do banco e resolveu aos 44 do segundo tempo. Matou a bola no peito, brigou com a defesa e bateu no canto. Já a classificação se encaminhou na penúltima rodada, com a primeira vitória fora. O Athletico anotou 2 a 1 no Libertad dentro do Paraguai. O jogo teria uma expulsão para cada lado no primeiro tempo. No segundo, Dênis Marques fez o seu e deu o passe para Maciel ampliar. Somente no fim Ismael Blanco descontou ao Gumarelo.

Todavia, o fim da fase de grupos guardaria um golpe duro para o Athletico Paranaense. A equipe precisava apenas de um empate contra o Independiente Medellín na Arena da Baixada para selar a classificação. Conseguiu perder por 4 a 0 e a vaga só veio por uma forcinha do eliminado Libertad, que derrotou o América de Cali e salvou os rubro-negros. O desastre do Furacão se concentrou no segundo tempo. Os athleticanos jogavam no ataque e perderam boas chances no primeiro tempo, enquanto pressionavam na volta do intervalo. Uma tabela pelo meio da defesa, aos 17 minutos, deu o primeiro gol do DIM com César Valoyes. Depois disso, a porteira se abriu. Os paranaenses se desesperaram e se abriram por completo. Foram mais dois gols em contra-ataques, com Valoyes e Jorge Serna, enquanto outro lance com a defesa completamente escancarada rendeu um pênalti para David Montoya converter.

O Athletico Paranaense avançou ao lado do Independiente Medellín, ambos com apenas um ponto a mais que o América de Cali. Se os escarlatas empatassem com o Libertad, o Furacão ficava de fora exatamente pelo saldo que se tornou negativo com a goleada sofrida. O vexame teve suas consequências e o técnico Edinho foi demitido. Pesava também uma sequência de três derrotas no início do Brasileirão. Borba Filho seria o comandante interino da equipe por algumas semanas, inclusive nos dois primeiros compromissos dos mata-matas.

O Cerro Porteño era mais um adversário tradicional no caminho do Athletico Paranaense, abrindo as oitavas. A equipe de Gustavo Costas não era a mais forte do Ciclón, mas reunia jogadores de Copa do Mundo, como o goleiro Danilo Aceval, o zagueiro Pedro Sarabia e o atacante César “El Tigre” Ramírez, todos presentes em 1998, enquanto Julio dos Santos estaria em 2006. Num jogo cheio de desfalques na Baixada, o Furacão conseguiu construir a vantagem por 2 a 1. Lima mergulhou para desviar o cruzamento de Rodrigo Souto numa cabeçada certeira aos 30 minutos. O Cerro empatou também numa bola alçada, aos três do segundo tempo, com Julio dos Santos. Pelo menos a desvantagem não durou. Três minutos depois, Lima botou a bola na cabeça de Cléo, que garantiu o triunfo rubro-negro.

O Cerro Porteño conseguiu dar o troco no Defensores del Chaco. Venceu por 2 a 1 e forçou a definição por pênaltis. Julio dos Santos causou problemas logo aos seis minutos, numa bonita jogada dentro da área que abriu o placar. Pouco depois, aos nove, um cochilo da defesa permitiu que Lima empatasse. Só que os azulgranas pressionavam e retomaram a dianteira aos 38, numa infiltração de Santiago Salcedo nas costas da zaga. E o segundo tempo seria uma grande provação para o Furacão, com grandes defesas do goleiro Diego e duas bolas nas traves da equipe. Os pênaltis garantiam certo alívio. Foi quando o Athletico prevaleceu, com a vitória por 5 a 4. Todos os cobradores converteram, até que chegasse a última série. Diego salvou contra Salcedo, artilheiro da Libertadores naquele momento. O meia Evandro, então com 18 anos, anotou o gol da classificação.

O Furacão assegurou seu novo treinador pouco antes do jogo em Assunção, mas ele só estrearia depois. E o clube apostaria num nome bastante experiente para o posto: Antônio Lopes, de título continental à frente do Vasco e trabalho recente na comissão técnica da Seleção. Os rubro-negros engrenaram de fato com o Delegado e se engrandeceram na competição a partir das quartas de final, mesmo que ocupassem a lanterna no início do Brasileirão. Seria uma doce revanche contra o Santos, algoz em 2004. O Peixe tinha perdido alguns nomes desde o título nacional, sobretudo Vanderlei Luxemburgo, que já dirigia o Real Madrid. Apesar disso, o time treinado por Alexandre Gallo reunia Deivid, Ricardinho, Zé Elias, Robinho, Léo, Basílio e Tcheco. Ainda trouxera com o goleiro Henao, campeão da Libertadores com o Once Caldas um ano antes. Apesar das opções ofensivas, era uma equipe frágil defensivamente, e o Furacão aproveitou.

O duelo na Arena da Baixada rendeu um eletrizante 3 a 2 para o Athletico Paranaense, com ares heroicos. O Furacão precisou superar uma expulsão ainda no primeiro tempo para virar o placar e conseguir uma de suas maiores vitórias na história da Libertadores. A pressão inicial era dos rubro-negros, com bola na trave de Aloísio, mas o Santos anotou o primeiro aos 12 minutos. Zé Elias serviu o tento de Ricardinho, que definiu diante do goleiro Diego. O Furacão seguiu em cima e conseguiu buscar a igualdade aos 25. Jancarlos cruzou para uma cabeçada de Evandro, que encobriu Henao, adiantado sem necessidade. Quando o céu parecia clarear aos athleticanos, porém, Alan Bahia recebeu o segundo amarelo e foi expulso aos 27. O déficit impressionantemente não derrubou o ânimo dos paranaenses, que seguiram em cima e viraram aos 40. Numa falta cobrada por André Rocha, Henao bateu roupa e Marcão completou a sobra aos 40. Ainda assim, daria tempo para um novo empate santista, com Deivid sozinho na pequena área. A partida tinha ares titânicos.

A vida do Athletico parecia bem dura para o segundo tempo. Com dez homens, os rubro-negros precisavam segurar um adversário de muitos talentos. Entretanto, Antônio Lopes extraiu o melhor de seus homens. Na defesa, o Furacão bloqueou os espaços e aproveitou melhor os contra-ataques. Lima era mesmo o talismã da campanha e desempatou com o terceiro gol aos 26. Num cruzamento rasteiro de André Rocha, o atacante estava presente na área para concluir à meta aberta. O Peixe ainda tentou uma pressão na reta final. Esbarrou na muralha rubro-negra, que segurou na unha o resultado e ainda viu Robinho perder o melhor lance na pequena área. Os paranaenses ficavam a um empate da semifinal.

O Santos sacaria Henao para o jogo de volta na Vila Belmiro, com Mauro no gol. Contudo, a realização da Copa das Confederações privou o time de Robinho e Léo, ambos convocados. E o Furacão aproveitou a brecha para sublinhar seus méritos, com o triunfo por 2 a 0, o primeiro do clube no estádio santista. Os alvinegros até iniciaram a partida no abafa, mas Diego vivia uma fase inspirada e salvaria no gol. O ímpeto dos paulistas arrefeceu e os paranaenses abriram a contagem logo aos 16. Era a noite de Aloísio. O atacante aproveitou uma bola espirrada para deixar Zé Elias no chão e bater no canto de Mauro. O Peixe tentou buscar o prejuízo e Gallo botou o time para frente, mas a pontaria não estava afiada e o árbitro Carlos Eugênio Simon também não atendeu duas reclamações de pênalti.

Na volta para o segundo tempo, o Athletico tratou de matar o jogo. Aos oito minutos, depois de uma cobrança de escanteio fechada, Aloísio deu um leve desvio e botou a bola nas redes. O Santos não deixou de tentar na parte final do duelo. Diego seguia intransponível na meta do Furacão e sustentou o resultado. Ainda quase rolaria o terceiro, num toque lindo por cobertura de Fabrício que tocou na parte externa da rede. Os athleticanos estavam entre os quatro melhores times do continente. E teriam outro embate duro na semifinal, contra o Chivas Guadalajara, algoz do Boca Juniors na fase anterior. O Rebaño Sagrado reunia destaques de diferentes gerações da seleção mexicana. Oswaldo Sánchez, Carlos Salcido e Maza Rodríguez eram opções na defesa, enquanto o ataque tinha à disposição Francisco Palencia, Omar Bravo e Oribe Peralta. O problema é que a Copa das Confederações também atrapalhava, com cinco convocados ao torneio.

A vitória mais categórica do Athletico Paranaense na Libertadores de 2005 aconteceu na ida contra o Chivas, dentro da Arena da Baixada. O Furacão ganhou por 3 a 0 sem muitos problemas. Apesar de uma defesa de Diego logo cedo, os rubro-negros foram para cima e marcaram o primeiro aos 23, numa cabeçada de Aloísio. O centroavante vivia fase inspirada naquele momento da Libertadores. Só que os athleticanos passaram por um momento de descontrole na sequência do jogo, com troca de sopapos entre Cocito e André Rocha. Diante da falta de foco, Diego impediu o empate quando o Rebaño Sagrado chegou novamente.

A tranquilidade do Athletico Paranaense só aumentou aos 44, num gol de Fernandinho. Era a redenção do meio-campista, que voltava ao time após dois meses afastado por uma fratura no tornozelo. Ele encheu o pé em cobrança de falta que passou no meio da barreira e contou com a falha também do jovem Alfredo Talavera, que substituía Oswaldo Sánchez na meta do Chivas. Já no segundo tempo, com o domínio do Athletico, Fabrício mandou um petardo do meio da rua e fechou a conta aos 34 minutos. Depois do jogo, Fernandinho era o mais festejado e não escondeu a satisfação: “Foi muito legal para mim. Não via a hora de voltar. E num momento tão importante é sempre melhor. Fico feliz por ter conseguido ajudar a fazer a felicidade da nossa torcida”.

A volta no México não era favas contadas, depois que o Chivas Guadalajara enfiou 4 a 0 no Boca Juniors durante a fase anterior. Mais importante, a equipe contava com o retorno dos cinco jogadores da seleção mexicana que disputaram a Copa das Confederações – incluindo Sánchez, Salcido e Bravo. El Tri ainda jogaria a decisão do terceiro lugar na Alemanha, mas o quinteto foi liberado para a Libertadores após a queda na semifinal. Nem isso evitou a eliminação do Rebaño Sagrado dentro de casa, diante de arquibancadas lotadas, com o empate por 2 a 2 no lendário Estádio Jalisco.

Fabrício chegou a carimbar o travessão com nove minutos e Lima perdeu grande chance em contra-ataque, mas o Chivas era mais ofensivo e marcou o primeiro aos 25. Uma troca de passes permitiu que Palencia batesse com facilidade dentro da área. Depois disso, a reta final do primeiro tempo seria de provação ao Furacão. Os mexicanos rondavam e Danilo salvaria uma batida de Omar Bravo com um carrinho na pequena área. Na volta do intervalo, Antônio Lopes reforçou a marcação, ao sacar o então ofensivo Fernandinho, dono da camisa 10, para colocar André Rocha. Cocito, por sua vez, se fincava como um terceiro zagueiro.

No segundo tempo, o Athletico travou o Chivas e empatou o jogo aos 22. Marcão se projetou na esquerda e cruzou para o iluminado Lima. Com o Rebaño Sagrado à espera de um milagre, Lima matou o jogo num avanço aberto aos 36. O atacante arrancou no mano a mano pelo campo de ataque, superou a marcação e bateu rasteiro, no contrapé de Oswaldo Sánchez. A classificação estava consumada. Foi somente depois disso que o Guadalajara conseguiu o empate que fechou o placar. O tarimbado Palencia converteu um pênalti que ainda tocou na trave antes de entrar. A final inédita, todavia, ficava com os athleticanos. Pegariam o São Paulo, após a passagem contra o River Plate na outra semifinal. Paulo Autuori era o comandante de um adversário duríssimo com Rogério Ceni, Cicinho, Lugano, Fabão, Júnior, Josué, Mineiro, Danilo, Grafite, Amoroso e Luizão.

A história daquela decisão não é o que o Athletico Paranaense mais gosta de lembrar. Principalmente pelo imbróglio que aconteceu às vésperas, com a impossibilidade de realizar o duelo na Arena da Baixada. Na época, o estádio comportava 24 mil torcedores, quando a capacidade mínima exigida pela Conmebol era de 40 mil. A diretoria rubro-negra tentou construir arquibancadas tubulares no setor lateral do estádio onde havia apenas um muro, mas a organização do torneio vetou. Sem a liberação do Couto Pereira pelo Coritiba, o jeito seria fazer as malas para Porto Alegre. O Beira-Rio ainda recebeu um bom número de rubro-negros, mas não era a pressão almejada.

O Athletico, que fazia da Baixada seu trunfo nos mata-matas, empatou a ida por 1 a 1 no Beira-Rio. O Furacão estava acuado, mas anotou o primeiro gol num avanço rápido aos 15. Fernandinho abriu com Jancarlos na direita, com o cruzamento certeiro para a cabeçada de Aloísio. No restante do primeiro tempo, caberia aos rubro-negros uma marcação forte e a sorte, quando Júnior carimbou o travessão numa cobrança de escanteio que quase virou gol olímpico. Todavia, no segundo tempo, os tricolores melhoraram suas trocas de passes. A equipe cresceu e virou a sorte, com o empate dos sete minutos. Numa falta cobrada para a área, Diego espalmou e a bola bateu em Durval, num gol contra de pura infelicidade. As chances foram abertas depois disso. Diego salvou um chute à queima-roupa de Josué, enquanto Lima tirou tinta da trave numa cabeçada. A definição ficava para o Morumbi.

Como anteviu Amoroso naqueles dias, o Morumbi terminaria chamado de Morumtri. O São Paulo se impôs sobre o Athletico com a goleada por 4 a 0 na volta. Com Fernandinho e Alan Bahia substituídos por Evandro e André Rocha, o Furacão teve uma boa chance com o placar zerado, em falta de Fabrício que deixou Rogério Ceni plantado, mas aos 17 o gol tricolor saiu num rebote concluído por Amoroso. Quando Aloísio sofreu um pênalti no final do primeiro tempo, Fabrício perdeu a chance do empate com uma cobrança na trave. E o segundo tempo teria o baile são-paulino. Fabão anotou numa cabeçada aos oito minutos. Amoroso serviu Luizão no terceiro, aos 26. O golpe final seria dado por Diego Tardelli, que saiu do banco para concluir o placar aos 44.

O amargor ficava para o Athletico Paranaense, que ainda viu Aloísio Chulapa sair ao São Paulo e virar herói no Mundial meses depois. O Furacão tinha que se concentrar no Brasileirão e, apesar do péssimo início, se recuperou para terminar numa honrosa sexta colocação. A Libertadores, todavia, permaneceria como um objetivo distante para os rubro-negros. Foram nove anos sem disputar o torneio, incluindo uma passagem pela Série B neste ínterim, até que a reconstrução se iniciasse de vez com a conquista da vaga para a competição continental em 2014. Desde então, a dimensão internacional dos paranaenses é outra. Faturaram duas vezes a Copa Sul-Americana, se habituaram a momentos de destaque na Libertadores. Agora, com a chance de uma nova final depois de 17 anos.

Como dica final, fica ainda a sugestão para o programa “Meu Time de Botão”, dos amigos Leandro Iamin e Paulo Júnior, que recobra a saga daquele Furacão:

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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