Libertadores

Arrascaeta experimentará uma final de Libertadores especial, pelo que representa ao Flamengo e pelo que já viveu no Centenário

Retornando de lesão, Arrascaeta certamente terá uma motivação extra por tudo aquilo que o Centenário representa em seu imaginário

O Estádio Centenário é território sagrado para o futebol, no geral, mas algumas equipes em particular têm suas glórias para contar na mítica cancha uruguaia. O Flamengo trata Montevidéu como a terra prometida de sua primeira Libertadores, quando o esquadrão de Zico e companhia desentalou o Cobreloa da garganta para conquistar a América pela primeira vez. Quarenta anos e quatro dias depois, o Fla retorna ao Centenário buscando um novo elo com essa história, agora podendo somar sua terceira taça após a epopeia em Lima. E um jogador do quadro flamenguista se sentirá em casa no Centenário. Giorgian De Arrascaeta frequenta o gigante de concreto desde cedo, visitando-o muitas vezes como torcedor, jogador de clube e jogador de seleção. Será o anfitrião rubro-negro, numa tarde em que os torcedores confiam em seu retorno para liderar a reconquista.

O Centenário certamente fazia parte do imaginário de Arrascaeta enquanto crescia em Nuevo Berlín, um povoado de 2,5 mil habitantes na fronteira do Uruguai. O menino deu seus primeiros passos em gramados longe de qualquer gigantismo sugerido pelo estádio: atuava no pequeno Pescadores Unidos, em tempos nos quais apostava com o pai que cada gol valeria uma mesada mais gorda. Permaneceu por lá até os 15 anos, ajudando o pai a trabalhar na padaria do vilarejo. Então, se mudou à capital, ao ser aprovado num teste pelo Defensor, dono de uma das categorias de base mais prolíficas do Uruguai.

O Centenário virou cenário para Arrascaeta em Montevidéu e logo se tornaria um destino corriqueiro enquanto se profissionalizava no Defensor. Antes de jogar por lá, ele também se deu o direito de vivenciar as arquibancadas como fanático. Torcedor do Peñarol, assistia aos jogos dos aurinegros no estádio, até que a ascensão com os violetas gerasse outros compromissos para os finais de semana.

O Estádio Luis Franzini, cancha simpática do Defensor, abrigava o trabalho do dia a dia para Arrascaeta. Ainda assim, a chance de enfrentar os grandes colocava o jovem na rota do mítico estádio da Copa de 1930 à medida que se firmava na carreira. E ele também poderia chamar o gigante de sua casa em 2014, quando os violetas protagonizaram sua grande campanha na Libertadores. Na reta decisiva daquela edição, os violetas jogaram no Centenário contra o Atlético Nacional e despacharam um forte time dos colombianos nas quartas de final. Os anfitriões só não tiveram a mesma sorte contra o Nacional de Assunção, com a vitória por 1 a 0 que se tornou insuficiente para alcançarem a inédita decisão. O gol surgiu de uma jogada de Arrasca.

O impacto de Arrascaeta naquela Libertadores abriria portas pouco depois. Inclusive, do próprio Centenário, com suas primeiras aparições pela seleção depois da Copa do Mundo de 2014. A primeira atuação do meia no estádio com a camisa celeste foi já vestindo a 10, num amistoso contra a Guatemala, no fim de 2014. Saiu do banco e até marcou um dos gols na goleada dos charruas por 5 a 1. De tempos em tempos, o meia voltaria ao Centenário, com a presença cativa nas convocações de Óscar Tabárez a partir de então.

Arrascaeta também conheceu outros templos do futebol. O Mineirão serviu de palco frequente na passagem pelo Cruzeiro. Já a imensidão do Maracanã deixou de impressionar quando o camisa 14 assinou com o Flamengo e passou a contar com toda a massa rubro-negra a seu favor. O meia não demorou a cair nas graças da torcida, não apenas por sua qualidade técnica, mas também pela personalidade e pelo gosto de decidir. A quem estava acostumado com o Centenário, mais nenhum campo intimidava para fazer valer seu talento.

Arrascaeta, em ação pelo Flamengo (Foto: Getty Images / One Football)

E essa virtude de Arrascaeta, de contribuir em momentos grandes, ficaria evidente na final da Libertadores de 2019. O camisa 14 foi um dos responsáveis por reerguer o Flamengo no segundo tempo em Lima e faria a diferença, no lance do gol que iniciou a reviravolta contra o River Plate. Bruno Henrique tem grande parte na jogadaça, mas Arrascaeta também possui seus méritos pela maneira como percebeu a possibilidade de se infiltrar e foi raçudo no passe para o meio da área. Gabigol, então, terminaria de fazer o serviço.

Arrascaeta brilhou com uma frequência notável nesses três anos pelo Flamengo, decisivo também no bicampeonato do Brasileirão – ao lado de Gérson, um dos únicos a receber a Bola de Prata em ambas as campanhas. Os duelos contra o Palmeiras, aliás, oferecem ótimas lembranças ao camisa 14. Arrasca simplesmente acabou com os alviverdes no Brasileiro de 2019, sobretudo nos 3 a 0 do Maracanã, embora também tenha contribuído com gol e assistência nos 3 a 1 do Allianz Parque. Em 2020, acabaria liderando a garotada no épico empate do time esfacelado na visita a São Paulo, antes de participar da vitória no segundo turno em Brasília. E outro momento inesquecível veio no jogaço da Supercopa do Brasil de 2020, de novo com protagonismo do armador. Ser regular em tão alto nível é para poucos, e tamanha força não costuma faltar para o uruguaio.

Já no início de 2021, Arrascaeta viveu seu momento mais desgastado pelos rubro-negros, com o litígio encabeçado por seu empresário (o ex-jogador Daniel Fonseca) em relação às porcentagens de seu contrato. Foi justamente neste momento que o camisa 14 se provou mais imprescindível ao Fla, sobretudo na fase de grupos da atual Libertadores. Se a classificação veio com segurança num grupo difícil, os dois gols e quatro assistências do meia correspondem bem à tranquilidade adquirida pela equipe.

O desempenho de Arrascaeta na Libertadores de 2021 é ainda melhor do que em 2019. Basta ver a maneira como o meia participou decisivamente de diferentes partidas. Sua fase de grupos foi fantástica, passando em branco em gols ou assistências apenas em uma rodada – não à toa, quando o 0 a 0 prevaleceu contra o Vélez, já no último compromisso. Nas oitavas e nas quartas, o uruguaio ajudaria a destroçar Defensa y Justicia e Olimpia. Só não foi tão preponderante contra o Barcelona de Guayaquil na semifinal, quando a lesão impediu que disputasse o primeiro jogo, apesar da participação no Maracanã.

O Flamengo percebeu ainda melhor a importância de Arrascaeta quando não pôde contar com ele, diante dos problemas físicos no último mês. O meia possui uma capacidade ímpar na criação e isso faltou a um time previsível quando encarou adversários mais fechados. Sua presença poderia ser valiosa para atenuar algumas das críticas que rondam a equipe de Renato Gaúcho, especialmente na semifinal da Copa do Brasil. Seja arranjando um chute repentino ou descolando um grande passe, o uruguaio é capaz de mudar os rumos de um jogo num estalo – tal qual seus 34 gols e 47 assistências pelo Fla indicam.

E não foi só o Flamengo que lamentou a ausência recente de Arrascaeta. O meia também se tornou um jogador imprescindível ao Uruguai nesse momento difícil. Quando está em campo, o armador é quem melhor oferece um senso de organização ao time de Óscar Tabárez. Algumas das melhores atuações nas Eliminatórias tiveram sua participação ativa. Já as limitações diante de seu desfalque causaram rodadas claudicantes em outubro e novembro. As quatro derrotas recentes da Celeste ocorreram sem Arrascaeta e, ainda que não dê para falar que o time ganharia com a mera presença de Arrasca, dá para acreditar que o trabalho ofensivo melhoraria com o reforço do camisa 10.

Já o Flamengo sabe que não contará com Arrascaeta 100% para enfrentar o Palmeiras. Sua forma mais recente pede certa cautela na hora de exigir. Mas não dá para imaginar os rubro-negros numa final de Libertadores sem um de seus craques. Especialmente numa partida que se desenha mais fechada para o Fla se impor no campo de ataque, com a ótima marcação palmeirense, ter o camisa 14 como uma carta na manga é essencial. A tendência é que o próprio jogo peça pela entrada de Arrasca, seja desde os primeiros minutos ou mesmo do banco de reservas. É indispensável.

E o fator motivação ainda pode pesar a favor de Arrascaeta. Levantar a taça da Libertadores mais uma vez, diante de seus compatriotas no Estádio Centenário, certamente dará um impulso ao meia. “Com certeza tanto para mim quanto para Piquerez, é um prestígio muito grande, uma honra viver esses momentos de ansiedade, loucura e todo entorno que gera até a chegada desta final. Vai estar toda nossa família, amigos… O Uruguai merecia ter um espetáculo desta magnitude. Jogar em um estádio tão importante como o Centenário certamente será especial para todos os uruguaios”, comentaria, em entrevista ao Globo Esporte.

“O Centenário é uma das coisas místicas que temos no Uruguai e nos marca. Tem muitos anos, o Uruguai já conquistou coisas importantes, os principais campeonatos já tiveram finais disputadas lá, e uma final de Libertadores certamente vai ser uma das coisas mais importantes e marcantes deste estádio tão grande. Tomara que esteja lotado. Acredito que o ambiente vai ser muito legal com duas torcidas, com uruguaios, um espetáculo que temos que aproveitar. Sabemos que tudo evolui, as coisas mudam, mas há a mística destes estádios. São alguns retoques, mas a mística continua”, complementaria. “É marcante porque desde novinho assistia a jogos do Peñarol, time que eu torço, e via toda essa torcida pensando em estar lá para sentir um dia. É algo magnífico”.

Os atalhos do estádio histórico Arrascaeta conhece melhor do que qualquer um na final. Também tem consciência de como é viver o jogo das arquibancadas, como milhares de rubro-negros farão. O meia pode juntar essa experiência com os caminhos que geralmente encurta rumo às redes. É nisso que a torcida do Flamengo confia, sabendo que o meia ainda retorna, mas que mesmo em recuperação pode desequilibrar.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo