Arias demorou a estourar, mas não a virar ídolo no Racing, e a noite no Maracanã ficará na memória da torcida
Numa noite em que as falhas do Flamengo estiveram mais expostas no Maracanã, o Racing concentrou seus méritos pela classificação num grande personagem. Gabriel Arias é um dos melhores goleiros do futebol argentino há algum tempo e, nesta terça-feira, adicionou uma noite inesquecível de Libertadores à idolatria que recebe em Avellaneda. O chileno, além de reverter o heroísmo de Willian Arão em lamento, adiou bastante a reação rubro-negra durante os 90 minutos. O camisa 1 recebe o devido destaque pela classificação às quartas de final e permite que os racinguistas sonhem, em busca da semifinal que não vem ao clube desde 1997.
Nascido no norte da Patagônia argentina, Arias mudou-se a Buenos Aires para tentar a carreira no futebol. E o primeiro clube que abriu as portas ao goleiro foi o Independiente, maior rival do Racing. Porém, a carreira do arqueiro não progrediria com o Rojo. Sua estreia como profissional aconteceu no Olimpo de Bahía Blanca, em 2007. Foram cinco anos com os aurinegros, quase sempre esquentando o banco. Depois disso, se juntaria ao Defensa y Justicia. Ficaria seis temporadas por lá, virando titular a partir de 2015 e chegando a usar a braçadeira de capitão.
A maior sequência de Arias no Defensa y Justicia aconteceu no Campeonato Argentino de 2015, sob as ordens de Ariel Holán. O goleiro também desfrutaria da confiança de Sebastián Beccacece durante a primeira passagem do treinador pelo clube. Inclusive, era o camisa 1 quando os auriverdes disputaram a sua primeira competição continental em 2017, a Copa Sul-Americana. Arias tinha sido algoz de Rogério Ceni já naquela ocasião, quando nem precisou ser realmente decisivo, diante de uma atuação insuficiente do São Paulo.
Arias deixou o Defensa y Justicia em janeiro de 2018, numa jogada de empresários. O goleiro seria cortejado pela Universidad Católica, mas assinou por empréstimo com a Unión La Calera, para auxiliar o clube no retorno à primeira divisão chilena. E a transferência seria importante à sua própria visibilidade. Neto de chilenos, Arias já tinha sido especulado à seleção local nos tempos de Jorge Sampaoli. Destaque no novo clube, ganharia a convocação inédita à Roja em maio de 2018, através de Reinaldo Rueda.
Em alta, Gabriel Arias virou solução ao Racing em julho de 2018. Os albicelestes fizeram dinheiro com a venda de Juan Musso à Udinese e investiram no chileno para tomar conta de sua meta. Foi um pedido do próprio Eduardo Coudet, que via nele as qualidades necessárias, entre a segurança dentro da área e a capacidade de antecipar as jogadas. Às vésperas de completar 31 anos, o arqueiro finalmente chegaria a um clube de ponta. Não desperdiçou a oportunidade.
Arias virou um nome decisivo no Racing de Eduardo Coudet durante a Superliga 2018/19. Mesmo sofrendo uma fratura na mão, o goleiro disputou 18 das 25 rodadas do campeonato. Colecionou grandes defesas, tomou apenas 12 gols e passou metade dos jogos sem ser vazado. Inclusive, permaneceu com a meta invicta durante 625 minutos, segunda maior marca da história do clube. E, para cair nas graças da torcida, ainda foi o melhor da equipe na vitória por 3 a 1 sobre o Independiente. Com apenas uma derrota sofrida dentro de campo, seria protagonista do título racinguista, com o time registrando também a melhor defesa da liga.
Arias seguiria com moral, titular na seleção chilena durante a Copa América de 2019, apesar das críticas sofridas durante a campanha até as semifinais. Claudio Bravo retomou a posição na Roja depois disso, mas o chileno manteve seu lugar intocável no Racing. Tanto é que seguiu como uma das principais peças do time na Superliga 2019/20. Manteria a posição, até o reencontro com Beccacece em Avellaneda neste ano, visando especialmente a Libertadores.
Esta é a primeira edição completa de Arias no torneio continental, já que disputou apenas as oitavas em 2018, eliminado pelo River Plate. E o duelo contra o Flamengo serviu para amplificar as virtudes do camisa 1. O arqueiro não seria muito exigido no Cilindro. Todavia, seria ele a retardar o gol rubro-negro no Maracanã. Durante o primeiro tempo, o camisa 1 saiu bem do gol para fechar o ângulo dos adversários, chegando a parar Vitinho no mano a mano. Já na segunda etapa, quando o placar ainda estava zerado, pegou um chute desviado de Vitinho e evitou o tento carioca. Depois, com a Academia à frente no marcador, o goleiro operaria duas ótimas defesas em cabeçadas de Bruno Henrique e Willian Arão, contendo a pressão dos adversários – por mais que, nos acréscimos, o próprio Arão o vencesse.
A disputa por pênaltis, de qualquer forma, concedeu uma chance ainda maior para Arias se consagrar. E ele faria a diferença. O goleiro tocou a cobrança de Gerson, mas não conseguiu a defesa. Seu destino estaria traçado para se cruzar outra vez com Arão. E o camisa 1 se confirmaria como o herói da noite. Não foi uma boa cobrança do volante, mas o chileno fez sua parte ao rebater o arremate. Com a precisão dos batedores racinguistas, a classificação caía no colo do herói de luvas.
Ter um grande goleiro faz a diferença na Copa Libertadores. Os últimos argentinos que levaram a taça contaram com arqueiros decisivos – Sebastián Torrico, Marcelo Barovero e Franco Armani, para ficar apenas nos campeões desta década. Aos 33 anos, Arias indica experiência e qualidade para liderar a campanha do Racing às fases mais agudas da competição. O camisa 1 pode não ter uma carreira tão extensa em alto nível e até demorou a estourar. Ainda assim, aproveita o momento, para deleite dos torcedores racinguistas.



