Libertadores

Em anos nos quais faziam história, Grêmio e River protagonizaram jogaços pela Supercopa de 95

Em meados dos anos 1990, Grêmio e River Plate representavam forças incontestáveis na Copa Libertadores. O time de Luiz Felipe Scolari foi o primeiro entre os dois a se sagrar bicampeão continental, em 1995. Os clubes poderiam até mesmo ter se enfrentado na decisão, não fosse o Atlético Nacional de René Higuita, que barrou os millonarios nas semifinais. O time de Ramón Díaz, entretanto, não demorou a dar a volta por cima. Em 1996, foi a sua vez de celebrar o bicampeonato sul-americano, batendo outro colombiano na final, o América de Cali. Coincidentemente, os alvirrubros haviam sido os algozes do Tricolor Gaúcho na semifinal daquele ano. Seria um confronto titânico, que certamente entraria para a história da competição.

No entanto, Grêmio e River Plate se cruzaram naqueles anos áureos. Não pela Libertadores, mas pela Supercopa, torneio que reunia os antigos campeões continentais. As partidas, válidas pelas pelas quartas de final do certame em 1995, contaram com dois jogos grandiosos, como havia de ser. Sobraram gols, craques e emoções, com a classificação terminando nas mãos dos argentinos, triunfando apenas nos pênaltis. Duelos que, de certa maneira, serviram de preparação aos gremistas rumo ao Mundial – no qual acabaram derrotados pelo Ajax.

A história do confronto entre Grêmio e River começa em 1971, pela Taça do Atlântico, um torneio amistoso que também contou com a presença do Nacional de Montevidéu. Também disputaram jogos amigáveis em 1972 e 1980, até a história realmente esquentar a partir de 1988. Naquela virada da década, os duelos pela Supercopa se tornaram constantes. Os millonarios haviam eliminado os brasileiros em 1988 e 1991, enquanto os tricolores se deram melhor contra os argentinos em 1989. O tira-teima não poderia ocorrer em melhor momento, em outubro de 1995, meses depois que o timaço de Felipão havia se consagrado na Libertadores.

A ida aconteceu no Olímpico. O Grêmio escalava o time que os torcedores sabiam de cor, apenas com a ausência do capitão Adílson. De resto, todos os ídolos estavam lá: Danrlei, Arce, Rivarola, Roger, Goiano, Dinho, Arílson, Carlos Miguel, Jardel e Paulo Nunes. O esquadrão intimidava, mas também precisava respeitar o River Plate de Ramón Díaz. Os millonarios eram fantásticos principalmente do meio para frente, onde apareciam ícones do porte de Almeyda, Gallardo, Ortega e Francescoli.

O Grêmio abriu o placar no final do primeiro tempo. Dinho deu um passe na medida e Jardel recebeu na área. Conseguiu se livrar da marcação na força e, de frente para o goleiro Joaquín Irigoytia, bateu por entre as pernas do adversário. Nem deu para comemorar muito. Um minuto depois, Francescoli cobrou uma falta magistral na gaveta de Danrlei, que voou e não alcançou nada. Ao menos a torcida no Olímpico teria motivos para se alegrar na segunda etapa. Dinho fez uma jogadaça e, depois de enfileirar a marcação, carimbou a trave. Por sorte, Carlos Miguel estava esperto no rebote e completou, definindo a vitória por 2 a 1.

O reencontro no Monumental aconteceu uma semana depois – e com outros dois compromissos gremistas neste intervalo, encarando Sport e Internacional, o que contribuiu ao desgaste do time. Apesar disso, Felipão mantinha a confiança em seu grupo, com as ausências apenas de Adílson e Arce. Já o River Plate manteve seu potente setor ofensivo e colheria os frutos, numa noite movimentada no Monumental de Núñez. Tanto é que, ainda no primeiro tempo, os millonarios abriram dois gols de vantagem. O primeiro saiu a partir de uma falta cobrada por Gallardo. Celso Ayala subiu livre na área e não perdoou. Depois, Danrlei voltaria a sofrer com as cobranças de falta de Francescoli. Parecia até replay do que ocorreu no Olímpico: bola no ângulo do arqueiro tricolor, que voou em vão.

A reação do Grêmio começou no segundo tempo. Arílson dominou na entrada da área e bateu no cantinho. Já o empate se deu aos 21 minutos. Boa trama entre Arílson e Paulo Nunes. O atacante chegou à lateral da área e cruzou, contando com a infelicidade de Ayala, que mandou contra o patrimônio. Mas os portenhos confiavam em um tal de Francescoli. Aos 29 do segundo tempo, a lenda millonaria apareceu novamente e definiu a vitória por 3 a 2, num lance de oportunismo. Até poderia ter assinalado mais um, em várias tentativas, mas o placar já era suficiente para levar o confronto aos pênaltis – em tempos nos quais os gols fora de casa não serviam como desempate. Pior para os brasileiros, que amargaram a derrota por 4 a 2.

Na marca da cal, brilhou o goleiro Irigoytia. Ele pegou duas cobranças gremistas, espalmando os chutes de Goiano e Emerson – este, que havia saído do banco no segundo tempo. Enquanto isso, os anfitriões converteram todos os seus chutes, com Francescoli, Gallardo, Ortega e Hernán Díaz. O clube de Núñez passou às semifinais da Libertadores, mas não resistiria ao Independiente, que terminou com a taça daquela edição. Algo melhor viria em 1996, com o amadurecimento da equipe e a reconquista da Libertadores, sob a batuta de Francescoli.

Na virada do século, Grêmio e River Plate voltaram a jogar, desta vez pela Copa Mercosul. Os argentinos venceram os dois compromissos na fase de grupos em 1998 e os brasileiros se deram melhor nas duas vezes também pela fase inicial em 2001. Já em 2002, o duelo mais importante até então. Os gigantes se pegaram pelas oitavas da Libertadores, com a imposição do Tricolor Gaúcho. Contra um River que tinha Ortega, Cavenaghi e D’Alessandro, a equipe de Tite ganhou de virada no Monumental por 2 a 1, com tentos de Tinga e Gilberto. Já no reencontro em Porto Alegre, os gremistas sobraram: 4 a 0 no placar, com Rodrigo Mendes, Luizão, Zinho e Luis Mário balançando as redes. A equipe ainda tinha outros nomes importantes, como Mauro Galvão, Anderson Lima, Roger e Polga. Aquele time tirou o Nacional de Montevidéu nas quartas, antes de cair para o Olimpia nas semifinais.

Agora, 16 anos depois, River Plate e Grêmio se reencontram em condições parecidas àquelas que não aconteceram pela Libertadores em 1995 e 1996: campeões continentais recentes, repletos de jogadores notáveis, comandados por técnicos idolatrados. Prontos para mais jogos inesquecíveis.

Vale conferir também o especial preparado pelo amigo Caio Brandão, do Futebol Portenho, relembrando outros elementos em comum entre River e Grêmio.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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