Libertadores

Abel Ferreira se coloca como um dos maiores da história do Palmeiras em uma conquista que tem suas digitais

Com um time sempre bem preparado para enfrentar o adversário, Abel Ferreira fez do seu Palmeiras um bicampeão da América com todos os méritos

O futebol é, antes de tudo, um jogo. Vencer é sempre o objetivo de qualquer esporte, ainda mais no nível mais alto. Para chegar lá, há várias maneiras. Abel Ferreira sabe bem disso. Entende que é preciso lidar com as ameaças do seu adversário para que suas qualidades se sobressaiam. Foi assim que conseguiu, mais uma vez, levar o seu time a um jogo grande e fazer com que ele vencesse sendo melhor em campo. Desta vez, no momento mais importante da temporada. A vitória por 2 a 1 sobre o Flamengo, em Montevidéu, teve digitais do seu treinador. A conquista da Libertadores 2021 terá a marca de Abel Ferreira, do início ao fim.

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Já na semifinal, Abel Ferreira foi o grande nome daquele jogo estratégico diante do Atlético Mineiro, em Belo Horizonte. O treinador por vezes recebeu críticas pesadas o acusando de um estilo de jogo muito defensivo, que criava pouco com a qualidade do elenco que tinha em mãos. Houve momentos que de fato o Palmeiras tinha dificuldades em criar jogadas, mas a cobrança, até de parte da torcida, soava exagerada para um time que conseguia, na maioria das vezes, ser competitivo. Mas vieram atuações ruins e derrotas doloridas.

Uma oscilação presente em uma maratona de jogos, que emendou uma temporada na outra, 2020 com 2021, e fez com que o português acabasse com um feito que dificilmente será repetido: conquistar a Libertadores duas vezes no mesmo ano. Afinal, a edição 2020 só teve a sua final em 2021. Como qualquer clube em uma temporada longa, a o time teve problemas e passou a encontrar barreiras para o seu jogo. Abel Ferreira é um técnico inquieto, tentou mexer no time algumas vezes, em jogadores e ficou por vezes nervoso demais, tomando cartões e até sendo expulso.

A busca pelo equilíbrio não foi simples e era preciso retomar a força que tinha mostrado antes. A má fase de alguns jogadores, que deixaram de ser titulares, também pesou, como Luiz Adriano, especialmente, no ataque. Sem uma opção de referência, o técnico deu chance a Deyverson e acabou fechando o time com Dudu e Rony como seus principais atacantes. E isso tudo enquanto a pressão era grande por causa de resultados que tinham sua importância.

Depois das glórias com a Libertadores e a Copa do Brasil de 2020 (já jogadas em 2021), vieram as derrotas também. A perda da Supercopa do Brasil para este mesmo Flamengo, da Recopa Sul-Americana para o Defensa y Justicia, a eliminação para o CRB na Copa do Brasil. As críticas direcionadas ao treinador cobravam mais futebol. Até em vitórias, quando elas vinham de modo apertado contra adversários mais fracos.

Há críticas relevantes no meio de todas essas e até o questionamento pela falta de minutos de alguns jogadores, como Gustavo Scarpa, que se tornaria titular na reta final e com uma grande atuação na final, mesmo jogando na ala esquerda, mas também havia um excesso porque se cobra espetáculo em um país que massacra seus jogadores. O próprio rival do Palmeiras na final da Libertadores, o Flamengo, sentiu isso.

O desenrolar do jogo contra o Flamengo teve Abel Ferreira como protagonista. Foi ele que decidiu voltar ao esquema de três zagueiros, que utilizou em boa parte da campanha da Libertadores, mas não vinha sendo usado nos últimos jogos. Ele recuou Joaquín Piquerez para ser o terceiro zagueiro pelo lado esquerdo, colocando Mayke no lugar do suspenso Marcos Rocha na direita. A alteração não foi por acaso. Rocha é, por vezes, quem faz esse papel de terceiro zagueiro pelo lado direito. Foi uma estratégia pensada.

“Sim, porque o time do Flamengo do lado direito desce mais, o [Mauricio] Isla desce mais. Então, o professor decidiu me espetar mais, porque o Filipe Luís fica um pouco mais preso. E graças a Deus deu certo. O professor Abel tem grande parte dessa vitória, ele é um cara que estuda muito, nos ajuda muito dentro de campo, entramos em campo sabendo o que vamos fazer, e deu tudo certo. Agora é festejar, porque é muito difícil ser campeão”, disse Mayke, em entrevista à Trivela depois do jogo.

Abel é por vezes acusado de pensar demais no adversário e por vezes descaracterizar seu próprio time. O excesso de preocupação com os adversários por vezes é visto como um excesso de cautela, fruto de ser um treinador mais defensivo. Não é necessariamente isso. Embora Abel Ferreira seja da escola de José Mourinho, que com o tempo ganhou notoriedade por armar defesas, há muitos técnicos que acabam por vezes se preocupando demais com o adversário e até cometendo erros por isso. Um deles é Pep Guardiola, de uma característica bem diferente de Abel, mas com este ponto em comum.

A crítica é válida, mas por vezes há um reducionismo nela, ao menos no caso de Abel Ferreira. Pensar demais no adversário não é estratégia de quem só quer se defender. Saber como seu adversário vai jogar e prever os cenários é algo que todo técnico deveria fazer. Foi justamente o que diferenciou Abel de Renato Portaluppi na final. O técnico do Palmeiras parecia preparado para diversos cenários da partida. O do Flamengo parecia estar pronto apenas para tentar impor seu jeito de jogar, sem se preocupar em como fazer se o adversário não te deixasse jogar como gosta. Não conseguiu jogar do jeito que gosta e acusa o rival de tentar só destruir.

Não foi o que aconteceu. O Palmeiras dificultou o jogo do Flamengo para facilitar o seu e foi assim que nasceu o primeiro gol, em uma jogada construída e que teve participação de Gustavo Gómez no lançamento, Mayke no cruzamento e Raphael Veiga colocando a bola na rede. Uma jogada que nasceu da estratégia pensada em aproveitar os problemas do adversário para buscar vencer.

Abel sabia que a descida do lateral direito do Flamengo era perigosa e armou o time para impedir isso. Fez várias vezes esse tipo de adaptação no seu time. Há técnicos que querem a “trocação”, como se diz na linguagem do MMA, mas nem todo lutador, ou time, vai permitir esse tipo de jogo. Só é bom para quem é muito mais forte. Quando não é o caso, é melhor tentar estratégias que ataquem os pontos fracos do rival. Atacar de peito aberto contra o Flamengo é uma loucura, ainda mais com os jogadores ofensivos que os rubro-negros têm. Qualquer adversário sabe disso. O Flamengo tinha menos velocidade pelo lado direito, Mayke atacou ali. Scarpa estava como ala para conter Isla e poder chegar ao ataque, buscando o espaço deixado por ele. Danilo e Zé Rafael formaram um meio que dava pouco espaço.

Os técnicos estudam os adversários e Renato certamente fez isso com o Palmeiras. O problema é que não conseguiu executar isso em nenhum momento. Pareceu ter sido surpreendido e não soube como ler os problemas do Palmeiras para atacar. O segundo gol do Palmeiras nasce de uma falha individual de Andreas Pereira, mas também porque o técnico mandou pressionar em todos os passes para trás, como o próprio Deyverson contou na coletiva. Michael poderia ter capitalizado em um dos raros momentos que Arrascaeta conseguiu ter espaço para criar e lançou o atacante, que contou com a falha de Joaquín Piquerez, mas chutou fora.

O que ficou claro é que Abel Ferreira sabia o que estava fazendo e por que estava fazendo. Pareceu preparado para mudar o time quando fosse necessário, como foi com a entrada deo próprio Deyverson. O jogo aéreo do Flamengo tem sofrido e, já com seus atacantes desgastados, ele tirou um cansado Raphael Veiga e coloca Deyverson, inteiro, para incomodar. Ele incomodou, tomou a bola e fez o gol. Mas o time estava preparado para tentar o gol de outra forma, se fosse necessário.

Em um futebol que vive de urgência e impaciência, ao mesmo tempo que dá pouco tempo para treinar, o que Abel Ferreira fez é espetacular. Ele conseguiu montar um time consistente e competitivo, que é capaz de competir com os melhores times do país – e do continente – de forma a vencê-los. Já tinha feito isso com o River Plate, na temporada passada, fez com o Atlético Mineiro e contra o Flamengo. Três dos melhores times do continente. Não por acaso acaba campeão.

É raro um campeão ganhar por acaso, mas até pode acontecer. Mas duas vezes é impossível. E Abel Ferreira não só ganhou duas Libertadores, como na segunda deixou as suas digitais na conquista, entrando para a galeria dos grandes treinadores da história do Palmeiras. Se coloca entre os maiores da história e deixa uma marca que será lembrada para sempre. Os palmeirenses que viram, onde que que fosse, o jogo contra o Flamengo, lembrarão com carinho. Independente do que aconteça daqui para frente, terão para sempre Abel Ferreira em seus corações.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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