Libertadores

Abel Ferreira foi o principal responsável por fazer o Palmeiras deixar o Atlético Mineiro sem ideias

"Foi uma vitória da equipe mais inteligente e mais organizada", disse Abel Ferreira depois da classificação do Palmeiras

Assim que o jogo no Mineirão terminou e o Palmeiras pôde comemorar a sua classificação à final da Libertadores pela segunda vez, Abel Ferreira estava enfurecido. Mirou a câmera e teve que ser seguro por membros da comissão técnica do Palmeiras. Parecia querer gritar com alguém. Ele explicou: o desabafo era para um vizinho chato, corneta, que o perturba na sua casa. Abel Ferreira por vezes se incomoda com as críticas — algumas, é verdade, são injustas, outras válidas também, afinal, o time tem seus problemas. Nesta semifinal diante do Atlético Mineiro, foi Abel Ferreira um dos principais responsáveis pela classificação. Tem todo o direito de sentir que deu uma resposta aos críticos, especialmente aqueles que fazem críticas injustas.

O Palmeiras de fato vinha sofrendo ofensivamente para ser um time mais perigoso. O treinador tentou diversas maneiras e a verdade é que nenhuma delas vinha funcionando. A volta de Luiz Adriano não ajudou. Deyverson teve alguns jogos bons, mas longe de ser uma solução. Diante de tantos problemas para organizar o time ofensivamente, era preciso tomar uma decisão. Abel, então, tratou de tentar potencializar o que o time tem de qualidade: sua capacidade defensiva e a velocidade que tem para contra-atacar. Dobrou a aposta e, desta vez, foi mais preciso nos dois lados do campo, mesmo tendo levado um gol, ao menos em relação ao primeiro jogo.

Weverton foi mais uma vez importante e, desta vez, na transição, não só embaixo dos paus. Ele ligou alguns contra-ataques importantes, como com Joaquin Piquerez, ainda no primeiro tempo, e com Rony, no segundo tempo, ambas chances de gol que acabaram desperdiçadas. Tentou o mesmo algumas outras vezes, sem gerar chances, mas com algum perigo.

O ataque do Palmeiras teve na velocidade a sua principal virtude: Dudu e Rony. Os dois jogadores, porém, são muito diferentes. Rony é veloz, mas é um jogador que articula pouco e não finaliza bem. Dudu é capaz de fazer isso, mas estava em um jogo abaixo do que ele pode, até apagado, errando muito. Isso, porém, não o impediu de decidir.

O que Abel Ferreira fez foi colocar Gabriel Verón no lugar de Rony, que tinha perdido algumas chances que poderiam ter gerado gols. Quando ele saiu, aos 22 minutos, Gabriel Verón teve a oportunidade e ele representou o que Abel Ferreira queria para o seu time: não desistir até o final.

A bola estava mais para o defensor, Nathan Silva, do que para ele. Mas o atacante insistiu, conseguiu ganhar disputa física, técnica, ficou com a bola e tocou para o meio. Sem goleiro, Dudu só tocou para o fundo da rede. O gol de empate que dava a classificação. Mais uma vez, Dudu foi decisivo nesta Libertadores, como tinha sido contra o São Paulo.

Dudu, do Palmeiras (Cesar Grecco / Palmeiras)

Faltava ainda muito tempo. O gol do Palmeiras saiu aos 23 minutos do segundo tempo. Havia como tentar muita coisa por parte dos mandantes. O gol do Palmeiras fez com que o Atlético Mineiro expusesse que não tinha outras ideias para vencer. A ideia era amassar o adversário na força das suas individualidades. Diante da presente, forte e barulhenta torcida do Atlético, o Palmeiras entendeu que a pressão mudava de lado. Jogou com isso e ainda conseguiu ameaçar uma ou outra vez.

Abel Ferreira conseguiu fazer o forte Atlético Mineiro ser exposto de forma que ainda não tínhamos visto muito: aos 45 minutos do segundo tempo, colocou Réver no lugar de Nacho Fernández. O zagueiro foi centroavante. Diante da completa falta de ideias do que fazer, o Galo tentou se impor na força.

Já tinha colocado Eduardo Sasha no lugar de Matías Zaracho, Jefferson Savarino no lugar de Jair, Tchê Tchê no lugar de Allan e o que vimos em campo foi longe do time que amassou muitos adversários. Foi um time que tentou forçar o jogo com Hulk e seus principais jogadores. Só que nem Nacho, nem Zaracho, nem Vargas e nem Hulk conseguiram resolver na individualidade. Coletivamente, o time tentou, jogou a bola de um lado para outro.

A classificação, portanto, tem muito de Abel Ferreira. Ele armou uma defesa feroz, que fez com que o Galo ficasse desconfortável. O time de Cuca tentou, não dá para dizer que faltou iniciativa ou vontade. Mas o time de Abel tirou do Atlético algumas das principais armas. Hulk raramente conseguiu fazer suas jogadas características – e quando conseguiu, tinha lá Weverton.

A final será outro jogo, mas classificar-se à final é um grande trunfo e um grande mérito. O Palmeiras terá a chance de uma segunda conquista seguida. Por circunstâncias, tem uma chance de conquistar a Libertadores duas vezes no mesmo ano. Isso porque a edição 2020, que foi adiada pela pandemia da Covid-19, teve a final disputada só em janeiro de 2021. A final deste ano será no dia 27 de novembro, em Montevidéu.

Abaixo, veja alguns trechos da coletiva de Abel Ferreira:

A resposta ao vizinho chato

“Sei que aconteceram umas confusões ali no final em que apontei para a câmera, mas não foi para nenhum jogador, que fique já claro, nenhum jogador do Atlético Mineiro ou seu treinador. Eu tenho lá um vizinho que mora no meu prédio que é um chato. Foi diretamente para o meu vizinho, para ele ficar calado”, disse o técnico.

“Porque quem manda em minha casa, o que se passa em minha casa, sou eu que sei, não é ele. Portanto, foi para o meu vizinho para ele, ó [faz o sinal de fechar a boca]. Tá calado. Quem trabalha dentro do CT sou eu e meus jogadores. Eu defendo os meus jogadores, são os melhores, porque são os meus. Nas vitórias e nas derrotas. Portanto, para o meu vizinho que está lá em casa, que o vejo quando está ali na portaria, xiu!”

“Para ser treinador, estudei 10 anos. Perdi muito. Muitas derrotas me fizeram um melhor treinador. Muitas derrotas. E hoje, juntamente com meus jogadores, porque não ganhamos sozinhos, já estou farto de dizer, quem quiser ouve, quem não quiser não ouve, para mim é igual, que as pessoas confundem arrogância com competência. Confundem inteligência com sorte. Porque sorte dá muito trabalho”, disse Abel, ainda desabafando.

“Renunciei estar aqui sozinho, sem estar com a minha família, que é a coisa que eu mais amo no mundo, até o dia que eu me cansar. Renunciei porque queria ganhar com meus jogadores, porque eu tenho aqui uma segunda família, e porque prometi aos meus jogadores que estaria com eles até o fim para ganhar. E o que nós vimos hoje aqui foi uma equipe com a mentalidade vencedora. Uma equipe que ‘never give up’, nunca se rende, nunca desiste”.

“Fomos a única equipe das quatro semifinalistas do ano passado que chegou aqui à semifinal. E volto a dizer: contra um grande rival, com grandes jogadores, um grande treinador, um dos melhores treinadores brasileiros, Cuca, com mais títulos, com muito mais títulos do que eu. Portanto, foi uma vitória na minha opinião da equipe mais inteligente, mais organizada e, na minha opinião, merece estar mais uma vez a disputar uma final”.

Inspirado em Mourinho

Abel Ferreira, técnico do Palmeiras (Cesar Grecco / Palmeiras)

Na coletiva de imprensa, Abel Ferreira ainda citou também o orgulho de ser português. Citou José Mourinho, o árbitro Pedro Proença, o presidente de Portugal, Cristiano Ronaldo. Todos referências em suas áreas. Ainda citou o jogo que o inspirou para preparar o jogo desta quarta-feira: no duelo entre Porto e Manchester United, de 2004. O treinador citou que o clube português empatou por 0 a 0 o jogo de ida e, na volta, empatou por 1 a 1 e conseguiu a classificação. Exatamente o que aconteceu no caso do Palmeiras.

“O verdadeiro palmeirense se vê nos momentos difíceis”

“Eu já convenci os torcedores que são torcedores do Palmeiras de coração, esses eu convenci. Por interesse, nunca os vou convencer. Nem eu, nem treinador nenhum que passar por aqui no Palmeiras. Os que gostam do Palmeiras de coração, já os convenci há muito tempo. E convence-os não só nas vitórias, convence-os nas vitórias e nas derrotas”.

“Por isso que eu disse aqui há tempos que o verdadeiro palmeirense se vê é nos momentos difíceis. E todo esse trabalho que tivemos aqui é para eles que dedico esta vitória. Para aqueles que amam o clube em todos os momentos. Para aqueles que torcem pelo clube em todos os momentos”.

“E se em algum momento o treinador, que é sócio, eu sou sócio, pago para ser sócio, além de ser treinador do Palmeiras, sou sócio. Também posso cornetar o treinador. Eu pago para cornetar o treinador. Mas amo o clube, gosto do clube. Gosto das pessoas que trabalham no clube. Amo meus jogadores. Estou aqui por eles até o fim. E os torcedores, das duas uma: ou aprendem que ser do Palmeiras é ser diferente, ou então vamos andar sempre nessas guerras”.

“Nosso adversário não pode estar dentro, nossos adversários estão fora. Estão fora de casa, não é dentro de casa, é fora. Por isso, estou aqui para defender os meus jogadores, que são os nossos jogadores, que tudo fazemos para engrandecer este clube. Não é o Abel. Foi o Abel, foi o Cuca, foram todos os treinadores que passaram pelo Palmeiras, incluindo o Abel, não foi só o Abel, incluindo o Abel, que com seus defeitos e com suas virtudes, com suas competências, com seus erros, juntamente com a sua equipe técnica, que continua a elevar o nome do clube cada vez mais alto, com uma mescla de homens, e volto aqui a repetir, podemos não ganhar nada este ano, mas uma coisa eles merecem: merecem respeito”.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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