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A repetição dos estádios pela Conmebol só reforça os argumentos contrários à final única na América do Sul

Maracanã e Centenario voltam a receber as finais continentais em 2023, numa repetição que mostra como a final única é alheia à realidade da América do Sul

Nesta quarta-feira, a Conmebol anunciou os palcos das finais continentais em 2023. E chamou atenção como, mesmo vigente há apenas cinco temporadas, a final única contempla o mais do mesmo. De novo o Estádio Centenário será palco de uma das decisões, como aconteceu em 2021. Desta vez, abrigará apenas a finalíssima da Copa Sul-Americana. Enquanto isso, o Maracanã também será repetido, tal qual na final da Libertadores de 2020. Pelo menos neste caso, há a desculpa de que o estádio carioca não abriu seus portões totalmente por causa das limitações da pandemia. Ainda assim, repetições dão novos argumentos a quem é contra a incompatível ideia de final única na América do Sul.

Desde que a Conmebol decidiu fazer suas finais em jogo único num campo neutro, estava claro como o número de estádios disponíveis seria menor do que o que ocorre na Europa. Há menos países para serem contemplados na América do Sul, menos palco de primeiro nível, mais dificuldades de deslocamento dentro do continente. Existia o receio de que, uma hora ou outra, as decisões ficariam mais concentradas nos estádios brasileiros inaugurados ou reformados durante a última década, assim como nos argentinos. Na prática, o “planejamento” da Conmebol, se é que dá para chamar assim, se nota pior que o esperado.

Tudo bem que a pandemia atravancou o caminho, com soluções paliativas e repetições de estádios. Mesmo assim, já dava para a Conmebol variar um pouco mais as suas opções se assim quisesse. Porém, está mais do que claro como as dificuldades logísticas no continente, algo prenunciado como problema desde o primeiro dia, causam entraves na realização da final única. A Conmebol está mais do que ciente disso. Um exemplo aconteceu na própria final da Libertadores passada, quando havia clarões nas arquibancadas do Monumental de Guayaquil mesmo com a presença da maior torcida do continente no estádio.

Pesa também a própria realidade do continente, de cenários bem mais instáveis. Crises são costumeiras e já provocaram algumas mudanças de palco em tão pouco tempo. O que aconteceu em 2019 é emblemático, com as trocas de Santiago por Lima na Libertadores e de Lima por Assunção na Sul-Americana. Já no último ano, existia um temor real que a situação da violência urbana em Guayaquil provocasse outra alteração às vésperas da finalíssima da Libertadores. Não ocorreu, mas não que tenha sido tudo maravilhoso.

Além do mais, é evidente como a final única não pegou totalmente. Os torcedores do Flamengo não se esquecerão da peregrinação a Lima ou a Guayaquil, assim como as torcidas do Palmeiras e do Athletico Paranaense levarão Montevidéu com muito carinho no peito. O jogo único até concentra mais as emoções e proporcionou um bom número de finais épicas. Mesmo assim, parece uma justificativa muito pequena para que os estádios acabem parcialmente vazios. A decisão da Sul-Americana, em especial, acaba com públicos muito abaixo do razoável. A maioria absoluta dos torcedores, pasmem, não tem como gastar milhares de reais num só final de semana. Mas não que a confederação queira abrir mão do valor exorbitante nos ingressos.

O Centenário e o Maracanã viram “tiros certos” para a Conmebol. Montevidéu e Rio de Janeiro possuem excelentes estruturas, seja em relação ao transporte de quem vem de fora ou à rede hoteleira. Os estádios estão entre os melhores e também entre os maiores da América do Sul. São destinos turísticos, que podem motivar mais os viajantes a comprarem a passagem. Além disso, são dois países menos suscetíveis a crises que coloquem em xeque as decisões neste momento. Duas bolas de segurança para a Conmebol, mesmo que as memórias do Centenário com uma parcela enorme das arquibancadas vazias numa final de Sul-Americana sejam bastante frescas.

Mas até quando a Conmebol vai ficar com essa opção por escolhas limitadas? Será que a Copa Sul-Americana precisa mesmo de um estádio tão grande como o Centenário? Qual vai ser o real tamanho do leque da entidade? Causa estranhamento que sequer Buenos Aires tenha sido cogitada agora, especialmente depois da reforma do Monumental de Núñez. E o apelo ao Brasil é óbvio, não apenas por questões econômicas, mas também pela preponderância dos times do país no torneio continental.

O tiro no pé que a final única representa ganha mais um capítulo, com essa falta de variedade. Mas não é isso que vai fazer a Conmebol mudar de ideia, ao menos por enquanto. Os fracassos precisarão ser cada vez mais mais retumbantes para que finalmente a entidade reconheça o erro. Por enquanto, preponderam os interesses econômicos, sobretudo pelos acordos televisivos ao redor da final única. Quando o produto sequer consegue entregar um estádio abarrotado, contudo, a desvalorização é óbvia. Isso se a solução não for mandar o jogo para Miami, algo que sempre pareceu ser a real intenção da Conmebol, mas ainda falta coragem de fazer.

A decisão em dois jogos não gera tantas expectativas ao público geral quanto a final única, assim como é um produto mais difícil de empacotar para o mercado dos outros continentes. No entanto, a impressão é que a identidade sul-americana segue ignorada com a sucessão de erros da Conmebol no tema. A própria entidade não sabe valorizar os seus estádios lotados como marca ao restante do mundo, bem como as festas das torcidas locais que tornam a competição mais atrativa. Neste momento, a entidade insiste no que é duvidoso, mesmo com suas bolas de segurança. E torce para que uma final brasileira na Libertadores ou a presença de argentinos e uruguaios na Sul-Americana possam maquiar os problemas, como já aconteceu outras vezes nos últimos quatro anos – mas nem sempre.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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