Libertadores

A missão do Santos é assegurar que sua próxima grande campanha seja resultado de um bom trabalho também fora de campo

Marinho pediu desculpas. Não precisava. Jogou mal contra o Palmeiras na final da Libertadores, mas tem crédito suficiente. Foi um dos principais responsáveis pela maravilhosa campanha do Santos, decisivo contra a LDU e contra o Boca Juniors. Acabou eleito o craque da competição. No Maracanã, “não consegui ser o Marinho”, como afirmou à Fox Sports, e o essencial ao clube é trabalhar para que ele tenha outras chances para tentar sê-lo nos maiores palcos.

“Sonhei em estar aqui, em dar o título para a nação santista. Eu me preparei muito, saí das redes sociais para me concentrar. Fico triste por não poder ter ajudado mais meus companheiros, mas lutamos até o final. Peço desculpa para toda a nação, que esperava que eu fosse o diferencial do time, mas tem dias que as coisas não acontecem. É isso. Cabeça erguida. Passamos por muita coisa. Descreditaram, mas ninguém tira da gente que somos vencedores”, afirmou.

Há uma relação de causa e consequência entre tudo que o elenco do Santos passou e o fato de muitos terem se surpreendido com a campanha na Libertadores. Em menor medida, até quando começou o Campeonato Brasileiro com uma boa sequência de resultados. Não pelo que colocava em campo. Tem Marinho e Soteldo, Lucas Veríssimo para liderar a zaga, coadjuvantes competentes como Pará e Alison, e uma base que costuma ser prolífica. Mas pelo que acontecia fora dele.

Os detalhes foram repetidos e repetidos no aquecimento para o jogo. O Santos passa por uma grave crise financeira e resolveu as pendências salariais com os jogadores apenas esta semana. Sofreu um embargo de transferências, precisou passar por uma transição de poder traumática, após o impeachment de José Carlos Peres, e trocou de técnico no meio da temporada. Nem deu muito tempo para ver o que sairia de Jesualdo Ferreira antes de convocar Cuca, que vinha de um trabalho fraco pelo São Paulo.

O novo presidente Andrés Rueda, que assumiu o poder no começo de janeiro, tem um plano para colocar a casa em ordem. Todo novo presidente tem um plano, aliás, é difícil se eleger na base do “quando chegar lá a gente vê o que faz”. O de Rueda é mais ou menos o mesmo de qualquer pessoa que assume um clube no futebol brasileiro eternamente em crise: negociar dívidas, equacionar o orçamento e ainda ter um time forte. O ponto mais específico é uma nova abordagem para a utilização de base. Rueda não quer vender os garotos antes que eles apareçam no time principal do Santos.

“Eu não consigo ver um clube que tem como missão ganhar títulos criando craques para vender. Nosso negócio é ser campeão, não vender atleta rapidamente”, afirmou, em entrevista ao Globo Esporte. Praticar as ideias costuma ser um pouco mais difícil. As receitas do Santos entre janeiro e setembro de 2020 caíram abaixo da metade em relação ao mesmo período do ano anterior, justamente por não contabilizarem uma grande venda como a de Rodrygo para o Real Madrid. Ainda não há uma expectativa razoável de retorno do público aos estádios para recuperar a bilheteria e as dívidas explodiram após os investimentos feitos para agradar Jorge Sampaoli. Estão em R$ 550 milhões, com aproximadamente metade vencendo em setembro de 2021.

Ou seja, será um desafio conciliar as duas frentes – arrumar as contas e não vender jogador para manter candidato a título. A primeira está na dianteira neste momento, com as iminentes vendas de Lucas Veríssimo, ao Benfica, e Diego Pituca, ao Kashima Antlers, que gerarão importantes US$ 8 milhões. Na ressaca do vice-campeonato, o Santos também tem muito trabalho pela frente no Campeonato Brasileiro para retornar à Libertadores. A seis rodadas do fim, está empatado em pontos com Ceará e Corinthians na briga pelo oitavo lugar, que pode ser suficiente se Palmeiras e Grêmio, finalistas da Copa do Brasil, se mantiverem entre os primeiros colocados.

Ter chegado à final da Libertadores não foi um acaso. Nem é algo que dá para almejar o tempo inteiro. Mas o Santos teve um excelente desempenho, apesar dos obstáculos, e o principal objetivo de Rueda tem que ser retirá-los para que o clube possa enfim atingir todo o seu potencial. Para que a próxima grande campanha, mesmo que não seja tão excepcional como esta última, não seja uma história de superação, mas um resultado natural de um bom trabalho de campo e de bastidores.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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