Libertadores

A história de Flamengo x Barcelona-EQU tem quase 70 anos, com o primeiro amistoso disputado em 1952

Além de dois jogos pela fase de grupos da Libertadores 2020, Flamengo e Barcelona disputaram três amistosos

Flamengo e Barcelona se pegaram na Copa Libertadores não faz muito tempo. Ainda na fase de grupos de 2020, os rubro-negros venceram os canários nos dois compromissos e encerraram a campanha dos equatorianos logo cedo. Antes disso, porém, os dois oponentes tinham se encarado apenas em amistosos. Um confronto que possui 69 anos de história, desde a primeira vez que as duas equipes se enfrentaram em Guayaquil. E deu Flamengo neste primeiro capítulo, com alguns nomes históricos em campo na ocasião.

A partir de maio de 1952, o Flamengo realizou uma turnê por diferentes países da América do Sul. A viagem começou no Peru, onde os cariocas permaneceram invictos, e contou também com alguns duelos contra os fortes times da liga pirata da Colômbia. Já última etapa da viagem a equipe passou pelo Equador, com compromissos marcados para Quito e Guayaquil. O Barcelona foi exatamente o último adversário antes que os rubro-negros rumassem de volta ao Brasil, onde ainda passariam por São Paulo antes de desembarcar no Rio de Janeiro para o início do Campeonato Carioca.

Flávio Costa era o treinador do Flamengo e contava com a base que se consagraria como tricampeã carioca a partir do ano seguinte, sob as ordens de Manuel Fleitas Solich. Lendas do clube como Joel, Dequinha, Pavão e Biguá entrariam em campo naquele jogo em Guayaquil, assim como os ídolos paraguaios García e Benítez.  Rubens, Bria e Jordan, outros destaques daquela delegação, acabaram voltando antecipadamente por estarem lesionados. A equipe também contava com o atacante Adãozinho, que não deixaria marcas tão profundas no Fla, mas era um dos grandes símbolos do Rolo Compressor do Internacional nos anos 1940 e disputou a Copa do Mundo de 1950 como reserva.

O Barcelona, por sua vez, tinha uma projeção regional naquele momento. O Campeonato Equatoriano surgiria apenas no final da década de 1950 e os Canários figuravam no Campeonato de Guayaquil, no qual mediam forças com adversários tradicionais como o Emelec, o Everest e o Valdez. Aquele ainda era o despertar dos amarelos, que davam seus primeiros passos como time profissional e também conquistavam os seus primeiros títulos. Nomes como Jorge Delgado, José Vargas, Sigifriedo Chuchuca e César Solórzano disputariam o Campeonato Sul-Americano do ano seguinte com a seleção do Equador. Fazer um amistoso contra um adversário como o Flamengo tinha seu peso dentro desse próprio desenvolvimento do Barcelona.

“O Flamengo jogará esta noite em Guayaquil, enfrentando o Barcelona, do Equador. Este será o último compromisso do team rubro-negro, que cumpriu notável campanha em gramados peruanos, sofrendo as consequências do excesso de atividades na Colômbia, para voltar a exibir-se de forma notável no Equador, apesar da altitude. O jogo desta noite, em Guayaquil, está sendo aguardado com o mais vivo interesse, embora o quadro se apresente desfalcado de alguns de seus valores, que estão contundidos”, apontava o Jornal dos Sports, na véspera do encontro.

“Pela fama de que vem precedido de invicto da República do Peru, façanha esta que jamais foi conseguida por qualquer outro grêmio estrangeiro, acrescida ainda mais pela impressão magnífica deixada no último domingo, quando esmagou o vice-campeão colombiano por 6×3, esta apresentação de despedida do Flamengo está causando extraordinária sensação nos círculos esportivos de Guayaquil”, complementava o jornal, fazendo referência à vitória por 6 a 3 sobre o Boca Juniors de Cali, em Quito.

O Barcelona conseguiu surpreender o Flamengo durante o primeiro tempo e abriu o placar no Estádio George Capwell. Porém, nada suficiente para segurar os rubro-negros na segunda etapa, quando a equipe de Flávio Costa buscou a virada por 3 a 1 e encerrou de maneira positiva sua turnê internacional.

O primeiro tempo em Guayaquil foi equilibrado, segundo os relatos da época. Apesar disso, o Barcelona conseguiu abrir o placar aos 43 minutos, com o atacante Chuchuca. O jogador tinha participado do Campeonato Sul-Americano de 1949 e, inclusive, marcou o gol de honra dos equatorianos na derrota por 9 a 1 para o Brasil de Flávio Costa. Já no segundo tempo, o Flamengo conseguiu reagir. O atacante Huguinho, que entrou no lugar de Benítez, acabou fazendo a diferença e anotou o gol de empate logo cedo. Nestor assinalou o segundo e Dequinha acabou por consolidar o resultado nos minutos finais, com um tento descrito como “magistral” pelo Jornal dos Sports. Foi um dos raros oito gols do meio-campista, em 374 aparições pelo Fla.

“Encerrando com chave de ouro a sua brilhante turnê realizada em vários países da América do Sul, o Flamengo voltou a triunfar espetacularmente na noite de ontem, impondo ao esquadrão do Barcelona o score clássico de 3 a 1”, descrevia o Jornal dos Sports. “No período complementar, naturalmente melhor orientado por Flávio Costa, o Flamengo voltou à cancha para construir a vitória. Apresentando um jogo rápido e vistoso que fazia delirar a enorme assistência presente, o Flamengo demonstrava um perfeito entendimento em todas as suas linhas, forçando um recuo para a defesa de quase todo o quadro do Barcelona”.

Flamengo e Barcelona voltariam a se enfrentar em mais dois amistosos, ambos realizados em abril de 1966. Naquele momento, os rubro-negros iniciavam uma nova excursão, que passaria por El Salvador, Guatemala, Honduras, Porto Rico e México. A equipe treinada por Armando Renganeschi não contaria com os jogadores convocados à seleção brasileira para a preparação rumo ao Mundial de 1966 – Silva Batuta, Paulo Henrique, Murilo e Ditão. Em compensação, também elencava seus destaques, como Carlinhos Violino, Evaristo de Macedo, Almir Pernambuquinho, Nelsinho Rosa e o garoto Fio Maravilha.

O Flamengo, porém, não conseguiu derrotar o Barcelona com bola rolando naquela viagem. Os Canários despontavam como uma força nas primeiras edições do Campeonato Equatoriano e chegaram ao seu terceiro título nacional em 1966. No primeiro encontro, os amarelos ganharam por 2 a 1, com Renganeschi culpando o cansaço da viagem como fator decisivo para o resultado. Uma semana depois, o duelo aconteceu pelo Torneio Quadrangular de Guayaquil, que também contou com as participações de Emelec e Corinthians. Depois do empate por 1 a 1 no tempo normal, o Fla venceu por 4 a 2 nos pênaltis – todos cobrados pelo atacante Rodrigues. No fim das contas, após o triunfo sobre os corintianos, os rubro-negros levaram o troféu amistoso. O grande destaque daquela campanha foi Fio Maravilha, que chegou a receber uma proposta do Emelec pelas ótimas atuações.

Por fim, aconteceram os dois jogos na fase de grupos da última Libertadores. Ainda que muitos remanescentes sigam nos dois times, os momentos eram bastante distintos. O Barcelona não emplacou após superar as preliminares da Libertadores e o Flamengo oscilou bastante naquele período. O primeiro duelo aconteceu ainda em março, antes da paralisação pela pandemia, com o baile por 3 a 0 do time de Jorge Jesus no Maracanã. Já na visita a Guayaquil, sob as ordens de Domènech Torrent, o Fla conseguiu o triunfo por 2 a 1 em meio ao surto de COVID-19 que atingiu a delegação. Exatamente um ano depois, o clima é diferente não apenas ao redor da equipe dirigida por Renato Gaúcho, como também no embalado Barcelona de Fabián Bustos.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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