Libertadores

A goleada foi ainda mais saborosa ao Santos por ter a marca dos Meninos da Vila, sobretudo pelas partidaças de Sandry e Kaio Jorge

O santista viveu uma noite para se orgulhar. E o orgulho não se limita à goleada por 4 a 1 sobre o Grêmio ou à classificação para as semifinais da Libertadores. A satisfação do torcedor do Santos está na maneira como o time se portou, na energia e na concentração oferecidos desde os primeiros segundos. Está na forma como a equipe, mesmo contando com diversas grandes atuações individuais, também se encaixou coletivamente. E está, principalmente, na identidade do clube impressa no resultado. Afinal, esta será uma vitória lembrada não apenas pela intensidade ou pelo plano de jogo: será uma vitória dos Meninos da Vila, entre os gols decisivos de Kaio Jorge e o bolão de Sandry imperando no meio-campo, entre outros destaques.

Em qualquer torcida, o garoto da base que mostrar personalidade entre os profissionais vai ser tratado como xodó. No Santos, ainda assim, essa relação se supera. É a segurança de que o trabalho de base tem qualidade e que os talentos não surgem por acaso. É o conhecimento sobre a história de um clube cuja a maioria absoluta dos grandes ídolos se compõe por pratas da casa. É a consciência de que o caminho mais seguro para o sucesso do Peixe, dentro de suas limitações, vai ser lançando os meninos. Não irá surgir um novo Neymar a cada geração. Não irão despontar apenas craques, de carreiras meteóricas. Independentemente disso, muitos podem dar conta do recado e honrar a camisa. Melhor ainda quando, tão jovens, assumem a responsabilidade da maneira como aconteceu na Vila Belmiro – nas quartas de final da Libertadores, contra um rival tão badalado quanto o Grêmio.

Sandry é quem mais tem encantado os santistas nas últimas semanas. E com razão, diante da personalidade apresentada pelo volante de apenas 18 anos. O meio-campista possui apenas quatro partidas como titular do Peixe. Pegando os jogos em que saiu do banco, não passa de 18 aparições com a camisa alvinegra. Ainda assim, virou uma das principais figuras na classificação diante do Grêmio. O garoto já tinha feito uma partidaça na Arena, com muita maturidade. Sandry não possui tanta estatura, com 1,70 m, mas compensa com potência e muita sede para os combates. O meio-campista mostrou-se inteligente no posicionamento e preciso nos desarmes. Acima disso, ofereceu uma saída de bola limpa no empate em Porto Alegre, com muita tranquilidade nas ações ofensivas.

Nesta quarta-feira, Sandry se superou. Uma das principais razões da goleada foi a maneira como comandou a faixa central. Se Alisson já fez um bom trabalho na marcação ao seu lado, o Menino da Vila ofereceu ainda mais para controlar a cabeça de área e acelerar o jogo do Santos. Não à toa, teria participação direta também no resultado. O segundo gol nasceu a partir de um contra-ataque armado por Sandry, dando um ótimo passe a Lucas Braga antes de Marinho definir. O terceiro surgiu num escanteio gerado pelo camisa 18, em pancada de canhota que Vanderlei espalmou para fora. E ainda estaria envolvido no quarto tento, em meio ao bombardeio até que Laércio marcasse. Além de seu domínio no centro do campo, com muita vibração, seria decisivo.

A estrela da noite, ainda assim, foi Kaio Jorge. Como Sandry, o atacante participou da conquista do Mundial Sub-17 com a seleção brasileira em 2019. Sairia da competição como um dos principais destaques, somando cinco gols, inclusive nas emocionantes viradas contra França e México na reta final. O desempenho serviu para que o garoto ganhasse mais atenção na equipe principal do Peixe e virasse um nome frequente nos jogos do clube. A escassez de gols e a maneira como atuava tornaram-se questionamentos sobre o que o centroavante poderia produzir. Contra o Grêmio, ele resolveu.

A bem da verdade, Kaio Jorge tinha anotado dois gols importantes na fase de grupos da Libertadores. Porém, nada comparado ao impacto que teve nestas quartas de final. O empate em Porto Alegre já estava em sua conta. Faria ainda melhor na Vila. O centroavante ganhou o primeiro gol na unha, tão cedo, e também apareceu na área para marcar o terceiro. Além dos gols, fez muito ao se movimentar e dar opções de jogada não só nas finalizações. Mais importante, pressionou demais e forçou os erros dos gaúchos, tão relevantes ao triunfo. Tem talento e também margem de crescimento, em uma posição na qual os cacoetes e o aprimoramento exigem mais tempo de cancha. Aos 18 anos, Kaio Jorge indica como pode acelerar etapas e se tornar mais confiável a cada partida. Estava iluminado na Vila, mas não parece ser apenas um golpe de sorte.

Outros tantos fizeram ótimas exibições contra o Grêmio. Outros meninos da Vila, com menção especial ao goleiro John, que tomou a posição e fez duas defesas milagrosas para tornar a goleada possível. De um elenco que parecia inferior à exigência da Libertadores, o Peixe se mostra um time superior pelos encaixes e pela maneira como muitos desses “desconhecidos” correspondem. A fonte de talento continua jorrando nas categorias de base e há ainda outros que pedem passagem, podendo ser úteis na reta final do ano – como Marcos Leonardo, substituto de Kaio Jorge nos minutos finais desta quarta, ou Ivonei, mais frequente nas partidas do Brasileirão. Muito melhor que gastar uma fortuna com medalhões é confiar nos meninos e criar um ambiente propício à transição.

Cuca nem sempre aproveitou da melhor maneira a base do Santos, mas até pelas circunstâncias (entre a crise do clube e os seguidos desfalques) se viu obrigado a utilizar mais as promessas. Depois da vitória, o treinador exaltou o trabalho feito pelos pratas da casa. Se as grandes goleadas fazem parte das melhores histórias do Peixe em seu passado, o resultado na Vila Belmiro entrou para essas memórias. E com a marca do DNA, de meninos que entregaram tanto agora e alimentam as esperanças de fazerem ainda mais no futuro. É o ciclo que motiva a paixão dos santistas pelo clube.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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