Libertadores

A final da Libertadores em Montevidéu: um clima de Copa do Mundo em alviverde e rubro-negro

A rivalidade e as provocações deram as caras no Centenário, mas também com respeito entre as torcidas

*Direto de Montevidéu

A acolhedora cidade de Montevidéu foi palco de três grandes confrontos continentais. O mais aguardado deles, no último sábado. Palmeiras e Flamengo entraram em campo – no lendário Estádio Centenário, casa da seleção uruguaia –  para disputar não somente a Libertadores da América e a honraria da Glória Eterna, mas para fazer valer as histórias de suas camisas, a força de seu torcedor – que peregrinou ao Uruguai, mesmo com todos os obstáculos – e equiparar a força dos trabalhos.

Durante a semana que precedeu o confronto, a cada minuto que passava, notava-se na presença de mais e mais brasileiros, fossem paulistas ou fossem cariocas (ou de qualquer outro canto do país), que a decisão aproximava-se. Tanto o aeroporto de Carrasco quanto o terminal rodoviário foram tomados por brasileiros, que, com seus testes RT-PCR devidamente negativados e suas declarações juramentadas, ingressaram no país vizinho em busca da realização um sonho: ver, de perto, o clube do coração erguer a taça mais importante do continente. 

A véspera mostrava um clima semelhante ao de Copa do Mundo. Camisas de cores diferentes, sotaques nada parecidos, disputa para ver quem gritava mais alto pelo seu clube, mas algo em comum: o amor pelo futebol. Assim, Montevidéu, que já é uma cidade que respira futebol por natureza, pôde vivenciar a grandeza das torcidas de Palmeiras e Flamengo. Os mantos do alviverde e do rubro-negro se aliavam aos carboneros do Peñarol e aos tricolores do Nacional, onde, tranquilamente, viam-se torcedores das quatro equipes confraternizando em harmonia em bares e no Parque Batlle, que abriga o Centenário.

No sábado da decisão, o dia quente e seco da capital uruguaia e o sol, mesmo que, por vezes, entre nuvens, propiciou aos torcedores uma tarde com cara de futebol e com atmosfera de final de campeonato. Ao redor do estádio, avisos para cuidados com a hidratação e com o protetor solar. A hidratação certamente o pessoal cuidou: muita água, gelo e cerveja. 

(Foto: Giancarlo Santorum/Trivela)

Diversos torcedores presentes em Montevidéu não seguiram o caminho para os portões do Estádio Centenário. Com o ingresso mais barato custando 200 dólares, o equivalente a mais de mil reais (ou um salário mínimo brasileiro), palmeirenses e flamenguistas optaram por participar do clima pré e pós-jogo ao redor do palco da final. Durante a partida, foi possível ver torcedores de ambas equipes espalhados por restaurantes e bares, buscando meios para assistir tudo pela tela da TV ou até mesmo pelo celular.

Em um bar localizado a pouco mais de 200 metros da linha de isolamento feita para ingressar no estádio, torcedores se instalaram para assistir a partida. Neste local, apenas dois torcedores do Palmeiras encontravam-se no espaço, grande parte da torcida presente era rubro-negra. O bar estava lotado, quem chegou com antecedência garantiu seu lugar dentro do recinto e quem deixou para chegar poucos minutos antes da partida precisou assistir ao jogo através das janelas do restaurante.

Muitos uruguaios que passavam por ali, também pararam para assistir a final juntamente com os brasileiros. Muitos nativos até se arriscaram a aprender cânticos do Flamengo, para apoiar os torcedores rubro-negros. Com esse entrosamento, o clima era amigável e ao mesmo tempo tenso, por conta de um fator muito importante: o delay do estádio. Como o local era próximo ao Centenário, as vozes expressivas e o frisson de quem estava assistindo a tudo de perto ecoava até o bar, deixando os torcedores aflitos e ansiosos pelo que poderia, ou não, acontecer. 

Já dentro do estádio, o nervosismo tomou conta das arquibancadas históricas do Centenário, mas, principalmente, tomava conta de Igor Lago, flamenguista que pediu a palmeirense Aline Vinco em casamento. No pré-jogo, a equipe da Conmebol mostrou o casal no telão do estádio e, logo após, Igor ficou frente a frente com Aline e anunciou: “Um minuto de silêncio, porque vou pedir uma palmeirense em casamento.” A torcida palestrina gritava “não aceita” enquanto o pedido foi realizado. O amor venceu essa partida, e a palmeirense e o flamenguista fizeram do Centenário um marco histórico para a vida do casal e ainda mais para Aline, que saiu o tricampeã do estádio.

(Foto: Giancarlo Santorum/Trivela)

Após o pedido de casamento, os torcedores do Palmeiras gritavam “Porco, Porco”, e os do Flamengo rebatiam com “Vamos, Flamengo!”, dando cada vez mais cara à decisão continental. Antes da bola rolar, Anitta subiu ao palco para um show de abertura. Enquanto alguns acompanhavam a cantora carioca, outros seguiam puxando músicas de seus clubes. 

Quando o argentino Néstor Pitana deu início ao jogo, o Estádio Centenário mostrou o porquê é tão lendário. Transformou-se em um caldeirão de Libertadores. De ambos os lados. Em menor número, a torcida alviverde se impôs. Fez valer a viagem e não economizou voz para empurrar o Palmeiras. Quando Raphael Veiga abriu o marcador, logo aos cinco minutos, aí sim que a torcida alviverde tomou conta. Do outro lado, os rubro-negros tentavam ensaiar uma reação, tanto no campo quanto na arquibancada, mas sem muito sucesso. Em momentos de perigo, a torcida inflamava, mas logo era abafada pelos palmeirenses.

Quando Gabigol empatou, na metade do segundo tempo, o lado do Flamengo cresceu, ecoando pelo Centenário e pelas ruas ao redor, dada a quantidade de flamenguistas espalhados pelos restaurantes e bares. Nos momentos de tensão entre o gol rubro-negro e o final da partida, os brasileiros presentes em Montevidéu empurraram suas equipes até a prorrogação. Por fim, aos cinco minutos do tempo extra, Deyverson, o Deyvin, o herói improvável, aproveitou uma falha de Andreas Pereira e marcou, colocando seu nome na história da Glória Eterna e o Palmeiras no topo da América pela terceira vez em sua história. 

Por orientação da Conmebol, a torcida da equipe que perdeu saiu primeiro. Portanto, as ruas foram, rapidamente, sendo preenchidas de vermelho e preto. Embora a maioria dos semblantes fosse triste e fechada, viam-se alguns rostos que até sorriam, desfrutando o momento, mesmo que com derrota dentro de campo. 

(Foto: Giancarlo Santorum/Trivela)

Assim como no futebol, o movimento dos arredores do Centenário mudou em um intervalo de apenas quinze minutos. Entre o término da partida e a saída dos flamenguistas, o bar que servia de concentração aos torcedores do Flamengo foi o espaço escolhido por mais rubro-negros para debater sobre o jogo. Enquanto continuavam a hidratação a base de água, gelo e cerveja, os torcedores observavam com atenção os resumos da partida pela televisão e questionavam a permanência de Renato Gaúcho no Flamengo, que teve a sua demissão anunciada na segunda. Mesmo sem o sonho de levar a taça da Libertadores para a casa, os flamenguistas continuaram aproveitando a capital uruguaia, fazendo com que os lugares turísticos e as pessoas acolhedoras de Montevidéu amenizassem a dor da derrota.

A parte interna do Centenário era somente alegria. ¡Festa y festa! Jogadores e torcida celebravam o tricampeonato em perfeita harmonia, num casamento que somente quem já vivenciou um título de Libertadores dentro do estádio sabe. Não há igual. Alguns, ousaram escalar a grade e pular para o campo, conseguindo tirar fotos com os atletas e abraçá-los. Logo foram retirados, mas a festa não parou. Os jogadores e comissão, assim que receberam a taça e as medalhas, levaram-nas à arquibancada tomada pelos palmeirenses. Nem a rede do Estádio Centenário foi poupada. Aos poucos, cada atleta e membro da comissão e staff do Palmeiras cortava um pedaço da rede para recordar essa noite histórica.  

Nas ruas, passado o festejo dentro do estádio, iniciou-se a movimentação dos torcedores do Palmeiras – porém, em harmonia com os do Flamengo que ainda estavam ao redor do estádio. Via-se diversos grupos de palmeirenses e flamenguistas debatendo sobre o jogo, seus erros e acertos. Obviamente, havia provocação e muita empolgação alviverde, é do jogo, mas nada além.  O Uruguai, que tão bem recebeu os brasileiros, também foi presenteado com uma final com clima amigável e respeitoso, sem violência, mas com rivalidade e bom futebol. A glória eterna, todavia, acabará mesmo recontada pelo lado alviverde.

(Foto: Giancarlo Santorum/Trivela)

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Giancarlo Santorum

Giancarlo Santorum é jornalista e fotógrafo. Acostumado a cobrir jogos do futebol gaúcho, também escreve sobre o Borussia Dortmund no @loucospelobvboficial. Além disso, tem um carinho especial por sua coleção de camisas - algumas delas históricas. Acompanha in loco as finais continentais de 2021 em Montevidéu, através do apoio da KTO Brasil.

Talyssa Machado

Talyssa Machado é jornalista e também trabalha com edição de vídeo. Desde pequena, ama o futebol e tudo aquilo que proporciona ao povo. Coleciona camisas de equipes femininas e seleções africanas. Acompanha in loco as finais continentais de 2021 em Montevidéu, através do apoio da KTO Brasil.

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