Libertadores

A felicidade dos garotos é um rosto muito mais simpático para o Palmeiras do aquele que o clube vinha assumindo

Trabalhar bem a base envolve duas etapas: formar bons jogadores e integrá-los ao time principal. O Palmeiras fez bem a primeira, mesmo quando se recusava a fazer a segunda, mergulhado nas dezenas de contratações do seu ex-diretor de futebol. Sem Alexandre Mattos, e em um ano de contas mais apertadas, foi obrigado a dar espaço à garotada que vinha pedindo passagem. Neste sábado, quem marcou o gol foi Breno Lopes, quem deu a assistência foi Rony, quem defendeu tudo ao longo da campanha foi Weverton, mas são eles o rosto do título da Libertadores.

A alegria da garotada do Palmeiras foi captada pelas câmeras da ESPN Brasil em uma entrevista de Eduardo de Menezes. Patrick de Paula com o microfone brincando de repórter e metendo a mala com um óculos escuros. Danilo falando palavrão. Gabriel Menino se juntando ao grupo e todos dando tapa na cabeça do vovô Jaílson, de 39 anos. Antes de posar para a imagem definitiva, chamaram os outros garotos que também fizeram parte da campanha – ou um dia farão de outras.

E esses rostos são muito mais simpáticos do que a imagem que o Palmeiras cultivou nos últimos anos.

Sim, parte é política. E quem votou em Jair Bolsonaro não se importou quando ele levantou a taça do Campeonato Brasileiro. Quem não votou e rejeita o atual presidente da República ficou enojado em ver seu clube associado a uma figura que exaltou torturadores, exala autoritarismo e desrespeita direitos humanos e de minorias. Não ajuda que ele se declare palmeirense, embora vista a camisa de qualquer clube que passar pela frente, de acordo com a conveniência do momento.

Por associação, também tem dificuldades em lidar com o protagonismo de Felipe Melo, capitão da equipe e declarado apoiador de Bolsonaro, forçando a barra para ser ídolo desde seu primeiro dia pelo clube e que teve participação meramente marginal na conquista da Libertadores. E para não deixar nenhuma dúvida, em nome da transparência, eu, como torcedor, faço parte do segundo grupo.

Mas vai além da política de Brasília. Inevitavelmente um time que fica forte acaba gerando antipatia de outras torcidas, mas o Palmeiras também afastou o seu próprio apaixonado. A higienização das arquibancadas foi acelerada desde a inauguração do Allianz Parque. Ingressos ficaram mais caros, a menos que fosse pago o plano de sócio-torcedor para ter acesso aos mais baratos ou a descontos.

A torcida encontrou nos arredores do estádio uma alternativa, mas a festa na Rua Palestra Itália com a Caraíbas não durou muito tempo. O cerco ao Allianz Parque recebeu o apoio do então presidente Paulo Nobre, citando uma gangue de bolivianos (?) que batia carteiras em meio à aglomeração. Se Nobre teve mérito na reorganização das contas, também foi um dos entusiastas de muitas dessas medidas, como a da torcida única, que acabou virando regra nos clássicos do futebol paulista e chegou a se estender a um jogo contra o Flamengo.

Entrando em um âmbito mais técnico, o Palmeiras também se tornou o estereótipo do novo rico, o clube que contratava, contratava, contratava, nem sempre com uma linha coerente de pensamento, atirando dinheiro a todos os problemas que apareciam pela frente. Fazia mais isso quando não era o dinheiro dele, mas o de Leila Pereira, da patrocinadora Crefisa, outra figura que não inspira muita simpatia. A visão de seu investimento no Palmeiras varia entre um doping financeiro e a compra de apoio político para um dia se tornar presidente do clube.

Nem tudo isso é necessariamente errado. Há pessoas razoáveis que podem, por exemplo, defender um ingresso mais caro pelo alto custo que o futebol tem atualmente. E quase nada é exclusividade do Palmeiras. Há outros clubes com mecenas. Outros clubes que se aproximaram de Bolsonaro ou favoreceram estrelas caras à garotada da base. Mas, juntando tudo ao mesmo tempo em que se consolidava como um dos clubes mais fortes do Brasil, o Palmeiras passou uma imagem de empáfia e arrogância.

Não quer dizer também que uma temporada com garotos como Patrick de Paula, da Taça das Favelas ao Mundial de Clubes, como protagonistas significa que  o passado está corrigido e que daqui para frente tudo será diferente. Neste sábado mesmo, o Palmeiras havia preparado um irresponsável trio elétrico que certamente atrairá muitas pessoas em meio a uma pandemia, cancelado depois da repercussão negativa ao se lembrarem do “protocolo sanitário”.

Mas os votos são para que, daqui para frente, quando tiver uma decisão a tomar, escolha o caminho representado pelo sorriso de seus garotos que iluminou o Maracanã.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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