Libertadores

A época dourada de Palmeiras x Santos: o florescer da rivalidade e o auge dos esquadrões nos anos 1960

Palmeiras e Santos farão uma decisão de Libertadores carregada de história. A começar pelo palco da final, o Maracanã, que vale lembranças fantásticas a ambas as torcidas. No entanto, a rivalidade entre alviverdes e alvinegros também recorda a concorrência de esquadrões lendários na virada dos anos 1950 para os anos 1960. O Palmeiras foi o adversário que mais ousou desafiar o Santos de Pelé. Se a coleção de taças santistas é maior, não se nega a grandeza da Academia e seus outros tantos feitos. Abaixo, reconstruímos esse passado, falando sobre as origens do clássico até passar pelo ápice durante uma década inteira.

As primeiras taças disputadas entre os gigantes

Palmeiras e Santos iniciaram sua rivalidade em 3 de outubro de 1915. Os dois clubes recém-criados se enfrentaram em amistoso, já que ambos estavam filiados à Associação Paulista de Sports Athleticos (APSA) apenas em caráter extraordinário. O Santos, com três anos desde sua fundação, acumulava resultados expressivos contra integrantes do Campeonato Paulista. Já o então Palestra Itália, com pouco mais de um ano de trajetória, se preparava para desafiar os principais adversários locais. No fim das contas, o Peixe apresentou um nível bem mais elevado e amassou os palestrinos por 7 a 0.

O amistoso foi realizado na capital, no campo do Velódromo, localizado na rua da Consolação. “Com bem numerosa assistência, composta em sua maioria de distintas senhoras e senhoritas e sportsmen da elite santista, realizou-se ontem, no ground do Velódromo, o anunciado match intermunicipal entre o Santos e o Palestra Itália. O jogo desenvolvido pela equipe visitante está acima de quaisquer elogios, quer quanto ao procedimento correto e leal de seus players, quer quanto ao training e ao modo por que jogam”, descrevia o Correio Paulistano, na época.

O clima especial no estádio também era exaltado pelo Estadão: “Poucas vezes tem estado o Velódromo tão deslumbrante como ontem; não raro são os dias em que, a despeito de grande concorrência, nota-se no field oficial da APSA o maior desalento. Ontem, porém, não foi assim. […] Foi uma festa encantadora: apesar da pouca concorrência, quem no Velódromo penetrasse ontem à tarde colhia uma agradabilíssima impressão, tal era o entusiasmo que ali reinava, devido, em grande parte, às distintas senhoritas santistas que vieram a esta capital em companhia do valente team alvinegro, as quais não regateavam aplausos aos contendores, entoando, ao mesmo tempo, interessantes hinos”.

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O Palestra Itália entrou em campo sem Lagreca e Bianchi, nomes importantes da equipe na época. Já o Santos teve elogiada atuação do back Urbano Caldeira, titular no miolo da defesa e que depois daria seu nome à Vila Belmiro. De qualquer maneira, o grande destaque do amistoso foi o atacante Ary Patusca, considerado um dos primeiros grandes ídolos do Peixe. Anotou três dos sete gols alvinegros. “O Santos é um time homogêneo, possuindo uma linha de atacantes muito ágil, pouco se preocupando do jogo pessoal, aliás tão nocivo, e dispõe de uma ótima combinação de passes”, exaltava o Correio Paulistano.

A Vila Belmiro num Santos x Palestra de 1917

O primeiro jogo oficial entre os rivais, pelo Campeonato Paulista, aconteceu em setembro de 1916. O Palestra Itália deu o troco com a vitória por 4 a 2 na Chácara da Floresta, com Severino anotando dois gols. A partir de então, os embates se tornaram anuais e com ampla hegemonia dos palestrinos. O time da colônia italiana chegou a sustentar uma invencibilidade de 12 anos no clássico. Um ano-chave à rivalidade aconteceu em 1928, o último desta série positiva do Palestra. E sua última vitória nesta sequência marcaria, também, o jogo mais importante entre os oponentes até a década de 1950. Os dois times concorriam pela taça do Paulistão de 1927 e acabaram realizando o confronto direto que valeu a definição em março de 1928.

O Santos tinha o fantástico Araken Patusca (irmão mais novo de Ary) no comando de seu ataque e fez fama por ser o primeiro time a anotar 100 gols no estadual. O Palestra Itália, contudo, possuía uma linha defensiva mais forte. O setor liderado por Bianco segurou as pontas, enquanto Heitor lideraria a fundamental vitória alviverde por 3 a 2, que garantiu o terceiro título do clube no Paulistão. Mais de 10 mil pessoas estiveram nas arquibancadas da Vila Belmiro, apesar do mau tempo, para acompanhar a partida decisiva. O encontro valia pela penúltima rodada do campeonato estadual.

O Santos abriu o placar com Siriri e viu o goleiro Athiê (seu futuro presidente Athiê Jorge Coury, que dirigiria o clube de 1945 a 1971) pegar um pênalti do alviverde Heitor. Porém, na cobrança de escanteio logo depois, Tedesco empatou. Antes do intervalo, o Peixe ainda teria um gol a seu favor negado pela arbitragem, o que gerou protestos. A virada palestrina ocorreu no segundo tempo, com Lara anotando o segundo gol e Perillo responsável pelo terceiro. Os santistas só voltariam a descontar no fim, com Camarão. Os visitantes celebravam em festa o título. Enquanto isso, os alvinegros se revoltavam com o árbitro.

Anthero Mollinaro, o responsável pelo apito, era ligado ao Palestra. Segundo a Folha da Manhã, além do gol legítimo anulado, também prejudicou o Santos ao não marcar um pênalti cometido por Bianco. Aos 20 minutos do segundo tempo, Evangelista tentou agredir o juiz e o povo invadiu o campo, com a cavalaria da polícia presente para conter a revolta. “A assistência se mostrou muito indignada, tentando, como dissemos, agredir o juiz e seguindo-o depois até a estação, onde não se cansou de vaiá-lo”, descrevia o jornal.

A partida decisiva de 1927

Ao final do Campeonato Paulista, o Palestra Itália somou 43 pontos, um a mais que o Santos. Foram 14 vitórias dos alviverdes em 16 rodadas, o mesmo número que os alvinegros, mas uma derrota a menos dos paulistanos. Aquela foi a primeira vez que os dois times ocuparam as duas primeiras colocações do estadual. A segunda não tardaria tanto, em 1935, desta vez para o primeiro título do Peixe na competição. Os santistas já haviam encerrado a freguesia no duelo em novembro de 1928, com uma vitória por 3 a 2 dentro do Parque Antárctica. A partir de então, os triunfos praianos se tornaram mais frequentes – apesar de algumas goleadas palestrinas no intervalo, incluindo os 8 a 0 de 1932, maior placar do confronto. Isso até a taça inédita chegar à Vila Belmiro três anos depois.

Diferentemente do que aconteceu em 1928, Santos e Palestra Itália se enfrentaram logo de cara no Paulistão de 1935. A vitória alvinegra no confronto aconteceu logo na primeira rodada, com empate durante o segundo turno. Recém-chegado de uma bem sucedida excursão pelo Rio Grande do Sul, o Peixe derrotou por 1 a 0 os palestrinos – que se ressentiam da saída de alguns jogadores para o futebol carioca. O gol decisivo na Vila Belmiro foi anotado aos 32 minutos, num ataque rápido armado por Moran. Raul recebeu o passe, fintou Carnera e deslocou o goleiro Aymoré Moreira antes de bater às redes.

“A Vila Belmiro hoje esteve animada de um grande entusiasmo. O Santos tinha pela frente um dos seus velhos rivais esportivos: o Palestra, numa luta que se lhe apresentava dificílima. Realmente o jogo valeu. Desde o início notou-se uma grande movimentação, quer de defesas ou de ataques. A turma local não pôde desenvolver toda a sua atividade produtiva. Contudo, esteve animada e se valeu desta qualidade como base de sua atuação”, pontuava o Correio Paulistano.  E este resultado seria essencial para o desfecho do campeonato.

O Santos faturou o troféu na última rodada. Derrotou o Corinthians por 2 a 0 para confirmar o feito inédito. Àquela altura, porém, o Palestra Itália ainda tinha chances ao lado dos corintianos. Os alviverdes se encontravam dois pontos atrás dos santistas e fecharam a campanha com a mesma distância, ao vencerem seu último compromisso, justamente um Dérbi contra o Corinthians. A conquista, porém, seria um ponto fora da curva ao Peixe. A partir daquele momento, a equipe não voltaria a frequentar as três primeiras colocações do estadual. Já o Palestra, logo rebatizado como Palmeiras em 1942, se manteria nas cabeças da competição e levaria mais taças. Até por isso, os palestrinos voltaram a desfrutar de séries hegemônicas mais longas no clássico durante a década de 1940.

O Santos voltou a fazer campanhas relevantes com certa frequência no Paulistão durante a virada dos anos 1940 para os 1950. Chegou a ser vice em 1948, em edição faturada pelo São Paulo, na qual os santistas venceram os dois embates contra o Palmeiras e encerraram um jejum no clássico que durava cinco anos. O Peixe também carimbou a faixa do Palmeiras no estadual de 1950, com uma vitória por 4 a 2, na célebre conquista que levaria os alviverdes à Copa Rio no ano seguinte. Às vésperas do embarque ao Rio de Janeiro, inclusive, os alviverdes deram o troco em grande estilo pela Taça Cidade de São Paulo: atropelaram os santistas por 6 a 2. Foi uma prova de força antes da glória conquistada no Maracanã dois meses depois.

A mãe de todos os clássicos

No início da década de 1950, Palmeiras e Santos podiam ainda não disputar os títulos entre si. No entanto, se veria uma série de grandes jogos e placares elásticos nos clássicos. O Peixe aplicou um 4 a 0 em 1952. O Palestra respondeu pouco mais de um ano depois, anotando 6 a 3 no Pacaembu, com direito a três tentos de Humberto Tozzi. Ainda em 1954, o Palmeiras chegou a ganhar por 4 a 3 pelo Torneio Rio-São Paulo. E em janeiro de 1955, haveria mais uma goleada alviverde, agora por 5 a 1.

Uma prova do equilíbrio que estaria por vir em breve aconteceria em abril de 1955, também pelo Rio-SP. Santos e Palmeiras protagonizaram um fulgurante empate por 4 a 4 no Pacaembu. Liminha, Rodrigues, Ney e Moacir marcaram os gols alviverdes. Já entre os santistas, balançaram as redes Del Vecchio, Vasconcelos e Urubatão, além de um novato Pepe, que logo marcaria seu nome no clássico. O detalhe é que os santistas ainda reclamaram de dois pênaltis não anotados pelo árbitro. Mas não teve problema: no Paulistão de 1955, foram duas vitórias praianas, ambas por 3 a 1. Del Vecchio seria decisivo ao Santos em ambos os triunfos. E o clássico do segundo turno, mesmo que a quatro rodadas do final, praticamente encaminhou o título. O Peixe foi campeão estadual, encerrando uma espera de 20 anos pela taça.

A partir de então, o Santos se tornou o time a ser batido em São Paulo. Emendaria o bicampeonato em 1956, numa época em que o Palmeiras aparecia como quarta força do Paulistão. O Peixe já era treinado pelo mítico Lula e via sua nova geração eclodir, com nomes como Pepe, Zito e Pagão. O clube também havia tirado do próprio elenco alviverde o craque Jair Rosa Pinto, um dos jogadores mais cerebrais do Brasil na época. Contava com o auxílio de Álvaro, outro armador classudo à disposição na Vila Belmiro. Já no comando do ataque, ainda imperava Del Vecchio. O atacante liderou os alvinegros em ambas as conquistas e era convocado com frequência à Seleção.

O Santos perdeu a hegemonia no Paulistão em 1957, superado pelo São Paulo de Zizinho, ficando com o vice-campeonato. Em compensação, o Peixe via nascer um novo rei: Pelé. O garoto trazido de Bauru já tinha disputado suas primeiras partidas em 1956, mas ganhou espaço realmente a partir de 1957. Logo começou a empilhar seus gols. O primeiro clássico do Rei contra o Palmeiras aconteceu em 15 de maio daquele ano, pelo Torneio Rio-São Paulo. E os alviverdes não demoraram a reconhecer o pesadelo. O garoto de 16 anos marcou dois gols, incluindo um lindo tento com uma virada no ar. Del Vecchio fechou a contagem em 3 a 0. Os palmeirenses, embora vivessem um momento de transição, também tinham ídolos em campo. Waldemar Fiúme era o representante da velha guarda. Já no ataque, começava a eclodir Mazzola, que estrearia pela Seleção um mês depois.

Pelé também não esperaria tanto para disputar seu primeiro jogo pela Seleção, em julho de 1957. E o menino rei logo aumentaria sua relevância no ataque do Santos. Naquele mesmo mês, após agredir um jornalista, Del Vecchio acabou negociado com o Verona. O prodígio que surgia nas mãos de Lula logo começaria a dominar a artilharia. Na sequência daquele ano, o Peixe pegaria o Palmeiras três vezes no Paulistão. Venceu duas e perdeu outra, com direito a uma goleada por 4 a 1 no último confronto – mesmo com os santistas atuando com dez, diante da saída precoce de Ramiro. Ficaria na boca um gosto de revanche. E, em 6 de março de 1958, os rivais se reencontraram para aquele que pode ser considerado o seu maior clássico da história. O duelo pelo Torneio Rio-São Paulo não teve peso na definição do título, mas foi a mãe de todos os confrontos, num épico de 13 gols.

Uma coleção de fotos do 7×6

“Apresenta-se dos mais promissores o cotejo entre o Santos e o Palmeiras”, era a manchete da Folha da Manhã naquele dia. “Não exageramos ao dizer que o cotejo de logo mais no Pacaembu é empolgante e dos mais promissores. Estarão em choque Santos e Palmeiras, e como se viu, o grêmio praiano ainda mantém toda a sua capacidade técnica e os recursos impressionantes que o levaram a dois títulos seguidos. Enquanto isso, o Palmeiras, já inteiramente refeito da crise que o abalou, ressurge das cinzas com um moral extraordinário. Esse moral se indica suficiente para suportar a superioridade técnica que inegavelmente se encontra numa análise entre as duas equipes. O jogo, fatalmente, será movimentado e a garra demonstrada pelo alviverde nos seus últimos compromissos terá de aparecer na maior escala possível. Tecnicamente, o Santos é o favorito, mas não se trata de um prélio no qual essa condição tomará aspecto decisivo”.

O Palmeiras andava sob desconfiança pelos maus resultados em 1957. Entretanto, o time de Oswaldo Brandão começou dando suas respostas no início do Rio-SP, ao bater Fluminense e Vasco nas duas primeiras rodadas. O treinador era elogiado pelo excelente trabalho no preparo físico dos alviverdes. E contava com uma boa espinha dorsal, que alinhava Valdemar Carabina na zaga, Waldemar Fiúme no meio e Mazzola em excelente fase no ataque. Ainda assim, o Santos de Lula carregava o favoritismo pelo talento abundante em seu ataque. Dalmo e Zito seguravam as pontas mais atrás. Mas nada comparado ao quinteto ofensivo formado por Dorval, Jair, Pagão, Pelé e Pepe.

As expectativas não se provaram exageradas. O Santos venceu um épico por 7 a 6, numa noite em que o Palmeiras surpreendeu por seu poder de reação. Afinal, a fatura parecia liquidada no Pacaembu desde o primeiro tempo. O Peixe enfiou 5 a 2 na etapa inicial. Por incrível que pareça, os alviverdes equilibraram a primeira meia hora. Urias abriu o placar à equipe, antes que os santistas virassem com Pelé e Pagão, mas Nardo recolocou os palmeirenses em igualdade. O problema seria segurar os alvinegros na reta final da primeira etapa. Dorval, Pepe e Pagão anotaram os novos gols. No intervalo, o goleiro palestrino Edgar começou a chorar e Brandão colocaria o reserva Vítor para o segundo tempo. O Santos, por sua vez, já tinha pagado o bicho durante a pausa.

A acomodação do Santos permitiu uma reviravolta inimaginável do Palmeiras. Foram quatro gols seguidos dos palestrinos, que conseguiram a virada na etapa complementar. Os gols saíram num intervalo de 16 minutos, entre os 18 e os 34. Paulinho, Mazzola, Caraballo e Ivan anotaram à equipe de Oswaldo Brandão. O Peixe, todavia, não se entregaria. E o nome da noite seria um ponta esquerda de 23 anos, famoso por suas pancadas de canhota: Pepe, o Canhão da Vila. Quando as esperanças pareciam se esvair aos santistas, o craque foi lá e anotou os dois últimos gols, retomando a dianteira no placar e garantindo um triunfo eternamente celebrado.

O empate do Santos, em seu sexto gol, teria a participação de Dorval. O veterano cobrou um escanteio e Pepe emendou a cabeçada às redes. O relógio marcava 40 minutos e o Peixe cresceu rumo à virada, confirmada pouco depois. A partir de um ataque pela direita, Dorval recebeu de Pelé e cruzou. Pepe completou para as redes, decretando o triunfo. Segundo os relatos da época, quatro torcedores faleceram de ataque cardíaco durante o jogo – dois nas arquibancadas e dois ouvindo rádio. Aquela edição do Rio-SP seria conquistada pelo Vasco, com o Santos terminando na sétima colocação e o Palmeiras em oitavo – em formato encurtado para a preparação à Copa de 1958. Contudo, a história daquele jogaço ficou para sempre.

A capa da Gazeta Esportiva

No dia seguinte, A Gazeta Esportiva exaltava: “Sensacional pelo que apresentou no terreno futebolístico propriamente dito; eletrizante pelas alternativas que acusou em seu marcador e estupendo pela movimentação que evidenciou durante todo o seu transcurso, foram inegavelmente os grandes predicados do embate travado entre as equipes de Palmeiras e Santos. Cinquenta mil pessoas ou mais, das quais 43.068 pagaram ingressos, vibraram intensamente com o espetáculo que tiveram ensejo de assistir, porque efetivamente foi empolgante destes que marcam época na história do nosso futebol. Tão bom foi o espetáculo que os próprios palmeirenses castigados tremendamente com a vitória que o Santos cavou com esforço e dedicação, à saída não lamentavam tanto o resultado em si, mas a forma como ele se precipitou”. O próprio Palmeiras resolveu pagar o bicho aos seus jogadores, em reconhecimento ao esforço.

Já o Correio Paulistano comentava: “O jogo foi excelente porque movimentado, disputado palmo a palmo. Todos os jogadores em campo suaram a camisa, jogaram com vontade férrea e não houve senão indisciplina a lamentar. Além dessa qualidade, que nos tempos atuais é difícil de se fazer sentir, destaca-se o elevado número de tentos marcados. Que maravilha de futebol! São treze gols que emocionaram o bom público, aquele que torcendo ou não, gosta do bom futebol que lhe foi dado a assistir, fazendo lembrar os velhos tempos, aqueles em que se jogava para marcar gols e não nos sistemas horríveis e feitos da defesa fechada que se inventaram de moderno para garantir o empate ou a vitória. Futebol assim agrada e atrai público, aumentando as rendas”.

Anos depois, Pepe relembrou sua atuação de gala ao Estadão: “Foi o maior clássico entre Santos e Palmeiras. Terminou 7 a 6 para o Santos e eu fiz três gols. O técnico do Palmeiras era Oswaldo Brandão, que resolveu colocar o Valdemar Carabina, um zagueiro alto e forte, na direita para me marcar. Fiz um salseiro pela esquerda. O Santos ainda não era o time que o mundo inteiro iria aplaudir, mas o Palmeiras respeitava a gente. O jogo foi no meio do Rio-São Paulo e não decidiu nada, mas é inesquecível por tudo o que aconteceu. O curioso é que depois daquela partida tão emocionante perdemos as seis seguintes”.

O Supercampeonato abre a bonança dos anos 1960

Pelé, Pepe e Zito foram campeões do mundo com a seleção brasileira em 1958, assim como Mazzola. E se o Santos mantinha seus astros, recusando propostas até do Real Madrid por Pelé, o Palmeiras aproveitou a oportunidade para vender Mazzola ao Milan. Com o dinheiro, os alviverdes investiram ainda mais num elenco que se fortalecia desde aquele 7 a 6. O destaque ficava por conta de Julinho Botelho, excepcional ponta direita repatriado da Fiorentina, após faturar o Scudetto em 1956. Também chegaram ao ataque Chinesinho e Ênio Andrade, ambos trazidos do futebol gaúcho. Mais atrás, se somavam o volante Zequinha e o lateral Geraldo Scotto. No gol, Aníbal virou o novo titular, mas Valdir também foi comprado na mesma época. A Academia tomava forma nas mãos de Brandão.

O reencontro de Santos e Palmeiras em 1958, depois da Copa do Mundo, acabou abaixo das expectativas. As equipes se enfrentaram dois meses após o título da Seleção, com vitória magra do Peixe por 1 a 0 – gol de pênalti anotado por Hélio. No segundo turno, um pouco mais de gols, com novo triunfo santista por 2 a 1. Jair e Pelé assinalaram os gols alvinegros, com Julinho descontando e os alviverdes vendendo caro o resultado. Aquele triunfo recolocou o time de Lula no topo da tabela. Depois de dois anos, o Santos recuperou a taça do Paulistão em 1958. O time terminou com 64 pontos, quatro a mais que o São Paulo. Brutais mesmo foram os números ofensivos do time que anotou 143 gols em 38 partidas, com 58 só de Pelé. O Palmeiras, quarto colocado pelo quarto ano seguido, se acertava.

A transformação do Palmeiras como o principal rival do Santos aconteceu em 1959. O primeiro indício veio no Rio-SP de 1959. Os alvinegros levaram o troféu, mas com derrota no duelo diante dos alviverdes. Na Vila Belmiro, os santistas não fizeram uma boa partida sem Pelé, por mais que tenham contado com um gol de Coutinho, que estreava no clássico aos 15 anos. Os palestrinos venceram por 2 a 1, com tentos de Geraldo Scotto e também do atacante Romeiro – outra novidade do mercado. Trazido do America do Rio, o novato seria outro nome fundamental à Academia, sobretudo por sua história contra os rivais. Outro a estrear no Palestra pouco depois seria Djalma Santos, já uma lenda da Portuguesa e campeão do mundo com a Seleção, que tornava o esquadrão ainda mais temível.

A promessa de que o Palmeiras poderia peitar o Santos no Campeonato Paulista de 1959 se cumpriria. E os rivais protagonizaram dois jogos épicos durante a competição. O primeiro embate aconteceu na Vila Belmiro e deu o título simbólico do primeiro turno aos alvinegros, com uma sonora goleada por 7 a 3. Pelé destruiu os rivais com três gols e Pepe anotou mais dois. “Os que esperavam ver na luta entre o Santos e o Palmeiras, ambos disputando a liderança do certame, um combate acirrado, equilibrado e emocionante, tiveram que se contentar apenas com uma primorosa exibição do conjunto local, cuja superioridade técnica esmagou completamente o onze visitante ainda no curso da primeira fase”, ressaltava a Folha.

O reencontro aconteceu quase dois meses depois, no meio do segundo turno. O Palmeiras deu o troco com juros, goleando por 5 a 1 dentro do Parque Antárctica. Julinho e Américo anotaram dois cada, enquanto Romeiro completou a contagem. O Peixe, que descontou com Pelé, ainda teve Dalmo expulso. “O Palmeiras transformou-se não só no assunto do momento, como também na sensação do campeonato, uma vez que, pelos compromissos que lhe restam, se encontra mais próximo do título que seu companheiro de liderança. O triunfo alviverde na tarde de ontem foi amplo, completo e insofismável, não dando margem a qualquer restrição. O alviverde, acertando sua mais primorosa exibição dos últimos tempos, dominou inteiramente seu antagonista, desorientando-o em seu setor defensivo e manietando-o completamente no que se refere à ofensiva”, analisou a Folha.

A festa do Palmeiras no Supercampeonato

Naquele momento, Palmeiras e Santos dividiam a liderança com pontuações idênticas. Seguiriam disputando a ponta cabeça a cabeça, até a última rodada. No final, com a igualdade no torneio de pontos corridos, o regulamento mandava que jogassem duas partidas de desempate. Fariam isso até mais uma vez, para que o campeão se consagrasse no chamado Supercampeonato. Agora, com a taça em novas mãos.

Os dois times realizaram o primeiro duelo em 5 de janeiro. Enquanto o Palmeiras vinha completo, o Santos precisou se virar sem Jair e Pagão no ataque, com o jovem Coutinho ganhando espaço mais uma vez. Conforme o Correio Paulistano, não havia favoritismo: “Se de um lado há o Santos mais técnico, do outro surge o Palmeiras mais regular, mais firme, rendendo o máximo”. E o equilíbrio prevaleceu no empate por 1 a 1. Pelé abriu o placar no primeiro tempo, aproveitando um passe de Coutinho, mas Zequinha empatou pouco depois. A melhor chance de vitória seria dos palmeirenses, com Romeiro carimbando a trave. Assim, a definição ficaria ao já previsto segundo encontro. Ou deveria.

Dois dias depois, os rivais voltaram a se pegar no Pacaembu. De novo ficaram no empate, agora por 2 a 2. Apesar do controle alviverde durante o primeiro tempo, o Peixe abriu o placar de pênalti, com Pepe, e foi para o intervalo com a vantagem. No início do segundo tempo, os palmeirenses conseguiram dar sua resposta em poucos minutos. Romeiro fez a jogada que provocou o gol contra de Getúlio e Chinesinho decretou a virada. No entanto, o Santos partiu para a pressão no final e conseguiria mais um pênalti aos 38. Pepe foi derrubado na área por Djalma Santos e novamente venceu Valdir na cobrança. O clássico ainda acabaria com uma confusão entre os times.

As igualdades forçavam um terceiro jogo no Pacaembu, a Superfinal. O Santos escalou Pagão e Jair, mas ambos não estavam em suas melhores condições. Assim, o Peixe dependeu ainda mais de Pelé e o futebol espetacular do garoto colocou os alvinegros em vantagem. Disparou e finalizou com categoria para vencer Valdir. Os santistas seguiram melhores nos minutos seguintes, até que o Palmeiras pressionasse. O goleiro Laércio salvava os praianos repetidas vezes, até que Julinho aparecesse para o empate pouco antes do intervalo. Em jogada iniciada por Chinesinho, Romeiro chutou e a bola rebateu, sobrando limpa para Julinho fuzilar.

O lance que mudaria o jogo aconteceu logo no início da segunda etapa. O Palmeiras ganhou uma falta nos arredores da área. Romeiro assumiu a cobrança e soltou um tirambaço. Uma bomba que passou por cima da barreira e acabou no barbante santista, no ângulo de Laércio. A partir de então, o Palmeiras ganhou confiança e administrou o resultado. O time de Oswaldo Brandão apresentava um preparo físico superior e mantinha a segurança na defesa, mesmo quando Pelé tentava aprontar. O zagueiro Aldemar realizava uma ótima marcação sobre o Rei. Além disso, o placar poderia ter sido maior, caso os paulistanos não esbarrassem na trave. O apito final consumou a vitória por 2 a 1, que dava aos alviverdes o título paulista e encerrava o jejum de nove anos do clube na competição.

O famoso gol de Romeiro

“O Pacaembu, então, explodiu num foguetório tremendo, num delírio como raramente se vê. O público fazia um carnaval na arquibancada. Torcedores invadiam a cancha e carregavam os jogadores em triunfo. Aficionados arrancaram a camisa de Julinho em vibração, para guardar como souvenir. Tentaram arrancar também a de Romeiro, porém o ponteiro fugiu, conseguindo penetrar no vestiário. Também Osvaldo Brandão foi carregado em triunfo. Todo o delírio se justificava, porque o Palmeiras é um dos mais queridos clubes de São Paulo”, descreveu o carioca Jornal dos Sports, no dia seguinte.

Já o Correio Paulistano estampava elogios à nova Academia: “Depois de nove anos de espera, na fila, o Palmeiras reconquistou uma primazia que já foi sua em outras épocas. Pode usar, novamente, o galardão de campeão paulista de futebol. E sua conquista teve méritos incontestáveis, principalmente pela performance que a equipe cumpriu nessa série decisiva contra o Santos. Jogou melhor futebol, esteve mais próximo do triunfo nas duas primeiras partidas e terminou por confirmar sua superioridade na terceira. Vale acrescentar que, nos três cotejos, os comandados de Brandão saíram de um placar adverso, com seus adversários inaugurando o marcador. Mostraram fibra de campeão, raça de campeão, sangue de campeão”. Outro detalhe era a crítica à diretoria santista, por ter armado uma excursão antes do Paulista e não ter garantido descanso aos jogadores alvinegros.

A manchete do Correio Paulistano

As fronteiras se ampliam

O Santos recuperou o Campeonato Paulista em 1960. Lula perdeu Jair, mas incorporou reforços como Mauro e Mengálvio. E desta vez, o Palmeiras esteve distante de competir com os rivais. Perdeu os dois clássicos e acabou a campanha na quarta colocação. No primeiro turno, o Peixe ganhou no Parque Antárctica por 3 a 1, com dois de Aírton e um de Pelé. Já no segundo turno, a vitória por 2 a 1 na Vila Belmiro consumou o título alvinegro, quando os palmeirenses sequer tinham chances. Zito abriu a contagem, Chinesinho empatou e Pelé (sempre ele) anotou o gol que carimbou a conquista santista – a quarta num intervalo de seis campeonatos. O esquadrão se reafirmava após as críticas pela derrota na Superfinal.

Ao Palmeiras, caberia erguer a cabeça na Taça Brasil de 1960. A competição era realizada em paralelo com o Paulistão e os alviverdes eliminaram o Fluminense na semifinal. Já a decisão aconteceu diante do Fortaleza, na virada do ano. Na visita ao Presidente Vargas, Romeiro e Humberto Tozzi definiram a vitória por 3 a 1. Nada comparado ao massacre de 28 de dezembro de 1960, no Pacaembu: 8 a 2 para a Academia. Chinesinho e Osvaldo Héctor Cruz anotaram dois cada. Zequinha, Romeiro, Julinho e Humberto completaram a contagem. Pela primeira vez, os alviverdes eram campeões nacionais e ainda ganhariam o direito de disputar a Libertadores em 1961.

Oswaldo Brandão deixou o Palmeiras logo depois e Armando Renganeschi assumiu o comando da Academia. O time sonhou com a Libertadores. O esquadrão palestrino eliminou Independiente de Avellaneda (treinado pelo próprio Brandão) e Independiente Santa Fe, sucumbindo na decisão a um fortíssimo Peñarol, que se sagrou bicampeão continental. E o ano de 1961 teria vacas magras ao Palmeiras. O Santos voltou a reinar no Campeonato Paulista e, não só isso, também tomou a coroa na Taça Brasil. O primeiro título alvinegro aconteceu no estadual, que tinha os alviverdes como principais perseguidores. Nem mesmo a chegada de Vavá ao ataque alviverde parou o Peixe. Dorval e o novato Lima definiram a vitória santista do primeiro turno, por 2 a 1. No segundo, o Verdão deu o troco com o triunfo por 3 a 2 e até tentou reabrir o campeonato, mas os santistas acabaram erguendo o troféu com uma rodada de antecedência.

Já na Taça Brasil, a chance de um novo clássico foi interrompida pelo America. O clube carioca surpreendeu o Palmeiras e deixou a Academia pelo caminho nas quartas de final. O Santos, entretanto, não temeu os rubros. Goleou por 6 a 2 no primeiro duelo das semifinais e consumou a classificação mesmo com a derrota por 1 a 0 na volta. Assim, o Peixe pôde viver a revanche na decisão contra o Bahia, campeão em 1959 contra os paulistas. Depois do empate por 1 a 1 na Fonte Nova, o Santos goleou por 5 a 1 na Vila Belmiro. Pelé anotou três, Coutinho fez mais dois e o time também garantiu a participação inédita na Libertadores, para 1962. Os alvinegros passaram por Cerro Porteño, Deportivo Municipal e Universidad Católica. Na decisão, ganharam o direito de desafiar o poderoso Peñarol. Os brasileiros negariam o tricampeonato carbonero, com o triunfo eternizado no jogo extra em Buenos Aires. Pelé faria dois naquele embate no Monumental, dominando a América.

Pelé contra o Boca, em 1963

A partir de então, Santos e Palmeiras se distanciaram um pouco. O Peixe levou o Mundial em 1962, em cima do Benfica. Também manteria a hegemonia no Paulistão e na Taça Brasil – com o bicampeonato nacional em cima do Botafogo. E vale ressaltar que os santistas venceram os dois clássicos contra os alviverdes no estadual, já contando com o reforço de Gylmar na meta, após ser escanteado pelo Corinthians. Ganharam por 4 a 2 no Parque Antárctica e por 3 a 0 na Vila Belmiro, este às vésperas de confirmarem a nova conquista. Os palmeirenses encerraram a campanha no quarto lugar, 20 pontos atrás dos alvinegros, muito distantes de qualquer ameaça. Até por isso, precisariam se mexer para o ano seguinte.

O Santos repetiu quase as mesmas conquistas em 1963. A Libertadores veio com goleada sobre o Botafogo na semifinal, antes das incontestáveis vitórias nas duas partidas contra o Boca Juniors na decisão. O bicampeonato mundial seria celebrado no Maracanã, com a vitória no jogo-desempate contra o Milan, após um triunfo para cada lado. A Taça Brasil, mesmo que realizada apenas em janeiro de 1964, teve nova goleada na finalíssima contra o Bahia. Ainda levaram de lambuja o Torneio Rio-São Paulo de 1963. Só faltou mesmo o tetra no Paulistão. Quem foi capaz de encerrar a sequência? O Palmeiras, claro.

Havia uma transição no Palmeiras. A equipe ainda contava com estrelas dos títulos anteriores – como Valdir, Djalma Santos, Valdemar Carabina, Zequinha, Julinho e Gildo. Porém, começavam a se juntar novos protagonistas. Nomes como Djalma Dias, Servílio e Tupãzinho chegaram como reforços em 1963. Também vale mencionar Ademar Pantera, atacante trazido da Prudentina e que teria uma predileção por marcar no clássico. Mais importante, havia a afirmação de Ademir da Guia na armação. O jovem trazido pelo Bangu em 1961 disputou as primeiras partidas no ano seguinte, mas se ausentou de ambos os duelos contra o Santos. Só começaria a protagonizar também essa história a partir de 1963.

Pelo Rio-SP, o Santos venceu o clássico por 3 a 0, com dois gols de Coutinho. O equilíbrio se tornou maior no primeiro turno do Paulistão, com o empate por 1 a 1 na Vila Belmiro. Já em novembro de 1963, o Palmeiras conquistou sua primeira vitória no confronto em quase dois anos. A equipe já era dirigida por Sylvio Pirillo, que comandaria a arrancada no segundo turno do estadual. Os palmeirenses venceram 11 partidas consecutivas na reta final para confirmar a taça, depois de um início de campanha irregular. Diante da ausência do contundido Pelé no Parque Antárctica, o triunfo por 1 a 0 seria fundamental à guinada alviverde. Vavá deu o passe e Ademir definiu com categoria, rompendo a meta de Gylmar, que fazia uma atuação espetacular. No fim, o Palmeiras fechou a campanha com 50 pontos, 14 a mais que o Santos, na terceira colocação.

Os jogos pela Taça Brasil

O Santos buscaria se reerguer em 1964. O tricampeonato na Libertadores não veio, com o time eliminado nas semifinais pelo Independiente, em duelos nos quais os argentinos foram beneficiados pela arbitragem. No Rio-SP, o Peixe dividiu o troféu com o Botafogo por falta de datas. As maiores conquistas acabaram reservas ao segundo semestre, com a recuperação no Campeonato Paulista e o tetra na Taça Brasil. Em ambas as caminhadas, o Palmeiras se tornou vítima dos alvinegros.

O ano positivo ao Santos no clássico começou com a vitória por 2 a 1 no Torneio Rio-São Paulo. No primeiro turno do Paulista, pela primeira vez dentro do Morumbi, deu Peixe de novo. Pelé e Coutinho definiram outro triunfo por 2 a 1. E o primeiro choque na Taça Brasil veio logo depois. O Peixe eliminou o Atlético Mineiro nas quartas de final, antes de pegar o Palmeiras na semifinal, com os alviverdes automaticamente classificados após o título paulista de 1963. Os alvinegros não se intimidaram com os desafiantes, emendando a terceira vitória consecutiva no confronto, agora por 3 a 2.

Apesar do placar apertado, o Santos foi superior na partida. Coutinho anotou o primeiro e Pepe ampliou. O Canhão da Vila vinha em atuação inspirada, dando um baile em Djalma Santos pela ponta esquerda. Antes do intervalo, Gildo descontou aos paulistanos, mas o Peixe faria o terceiro logo no início da etapa final, com Pelé. Ademir da Guia (acompanhado na meia-cancha pelo eterno parceiro Dudu a partir daquele ano) fecharia a conta. No fim, o empate poderia ter vindo aos alviverdes, mas Ademar desperdiçou uma cobrança de pênalti, carimbando a trave. “A igualdade no marcador viria a representar uma injustiça para o Santos, considerando seu maior volume de jogo ofensivo, o superior desempenho tático e, sobretudo, a alta categoria que, mais uma vez, mostrou em expressivo grau a sua equipe”, analisou o jornal A Tribuna.

Três dias depois, Santos e Palmeiras voltaram a se encarar, desta vez pelo Paulistão. Aquela partida marcaria a estreia de Filpo Núñez à frente do time alviverde. Os palestrinos estavam sem treinador desde setembro, quando Sylvio Pirillo foi demitido, e eram dirigidos por uma junta encabeçada pelo preparador físico Mario Travaglini. Porém, o Verdão conseguiu tirar o comandante argentino da Portuguesa e ganhou ânimo para dar o troco, com a vitória por 3 a 2 dentro da Vila Belmiro. Tupãzinho anotou dois e Ademar Pantera também deixou o seu pelos visitantes, enquanto Coutinho descontou com dois tentos para os santistas. O resultado, pelo menos, não era tão prejudicial ao Peixe – que mantinha a liderança e via os palmeirenses na quarta colocação.

O duelo para valer era pela Taça Brasil, que guardaria um troco e tanto do Santos no Pacaembu: 4 a 0 no placar. Foram só mais três dias de descanso em relação à partida anterior, mas os alvinegros surgiram revigorados para uma grande atuação, sobretudo no segundo tempo. Depois de 45 minutos iniciais sem gols, o passeio começou na segunda etapa. Pepe anotou dois e deu assistência, se tornando o principal destaque. Coutinho e Peixinho completaram o marcador, enquanto Ferrari ainda foi expulso do outro lado. “O Santos fez alarde na segunda parte do encontro de ontem contra o Palmeiras, que lutou muito, mas que na realidade se fez notar mais pelo espírito de luta, ficando aquém de suas últimas jornadas. A credencial do clube de Vila Belmiro como representante paulista na Taça Brasil lhe cabe perfeitamente, como ficou demonstrado na peleja do Pacaembu”, pontuou A Tribuna.

No meio de dezembro, o Santos consumou o título no Paulistão. Terminou três pontos à frente do Palmeiras, que cresceria naquela reta final. Logo depois, o Peixe confirmaria o tetra na Taça Brasil. A nova final aconteceu diante do Flamengo, com goleada por 4 a 1 no Pacaembu, incluindo uma tripleta de Pelé. O empate por 0 a 0 no Maracanã permitiu que os alvinegros comemorassem mais um ano de domínio no país. Teriam mais uma Libertadores no seu calendário para 1965.

Uma situação curiosa aconteceu no ano seguinte, aliás. Após superar Universidad de Chile e Universitario na fase de grupos da Libertadores, o Santos chegou a mais uma semifinal. O Peixe se reencontrou com o Peñarol e faria uma disputa férrea com os uruguaios. No Brasil, o Peixe ganhou por 5 a 4. A resposta aurinegra aconteceu no Centenario, com a vitória por 3 a 2. A igualdade forçava uma terceira partida em campo neutro, marcada para Buenos Aires. Porém, o jogo acabou marcado para 31 de março, mesmo dia em que aconteceria o clássico contra o Palmeiras pelo Rio-SP. Resultado: um mistão encarou os alviverdes, enquanto o esquadrão lidava com os carboneros.

No fim das contas, o dia guardou duas derrotas ao Santos. José Sasía definiu a vitória do Peñarol por 2 a 1 já na prorrogação, eliminando outra vez os alvinegros naquela fase. E o expressinho treinado pelo antigo ídolo Antoninho acabou amassado pelo Palmeiras, com placar de 7 a 1 para a Academia de Filpo Núñez. Ademar Pantera fez três, Servílio contribuiu com outros dois, enquanto Rinaldo e Tupãzinho completaram a contagem. Aquela seria uma campanha ainda mais marcante para os palmeirenses, que chegaram ao título do Rio-SP. Bem cotado, o clube seria convidado para representar a seleção brasileira na inauguração do Mineirão, em setembro de 1965. Ganhou do Uruguai por 3 a 0.

Duas semanas depois daquela partida histórica, o Palmeiras visitou a Vila Belmiro pelo Paulistão. Os alviverdes justificaram o momento com a vitória por 1 a 0, garantida por Ademar Pantera logo nos primeiros minutos. A partir de então, o bom trabalho defensivo dos alviverdes bastou. A derrota não tirou o Peixe da liderança do estadual. E serviu de motivação para o reencontro em novembro, de novo pelas semifinais da Taça Brasil. Desta vez, foi o Palmeiras que tirou o Grêmio para ganhar o direito de desafiar os tetracampeões.

O Santos encaminhou a classificação no primeiro jogo, dentro do Pacaembu, ao ganhar por 4 a 2. Ademar de novo anotou um gol precoce, mas a virada saiu no primeiro tempo, com tentos de Toninho Guerreiro e Abel. Na segunda etapa, Rinaldo empatou. Contudo, a noite era mesmo de Toninho. Frequente no time desde a temporada anterior, o atacante assinalou outros dois tentos para fechar o placar. Vale mencionar ainda que o Santos de 1965 teria incorporações relevantes ao seu sistema defensivo, com nomes de Copa do Mundo. O veterano Orlando Peçanha chegou do Boca Juniors para acompanhar Mauro no miolo de zaga. Já na lateral direita, começava a voar um jovem chamado Carlos Alberto Torres, contratado junto ao Fluminense.

Na volta pela Taça Brasil, o Santos jogou com o regulamento. Empatou por 1 a 1 e se deu por satisfeito. Pelé anotou o gol no início do primeiro tempo e Ademar, novamente, igualou ao Palmeiras na etapa final. Ficou nisso, com a quinta final consecutiva ao Peixe. “Toda a defesa santista cumpriu excelente atuação, realizando Gylmar três defesas de vulto que confirmam a sua boa forma atual. Muito firmes os dois laterais e precisos nas antecipações os centrais Mauro e Orlando. No meio de campo, Lima e Mengálvio apareceram bem no primeiro tempo, surgindo no período final mais como homens de destruição. A ofensiva contou com Pelé mais agressivo no primeiro tempo e o reaparecimento aceitável de Coutinho, sem condições, porém, de suportar os 90 minutos. Dorval falhou bastante e Pepe conseguiu alguns lances de expressão apenas na fase de abertura”, analisou A Tribuna.

O Santos fecharia 1965 com um dezembro vitorioso. O penta na Taça Brasil saiu no início do mês, com vitórias por 5 a 1 e 1 a 0 em cima do Vasco. Além disso, o título do Paulista estava confirmado quando o Peixe encerrou a campanha diante do Palmeiras. Dias depois da conquista nacional, Lula ainda escalou seus astros, mas a ressaca parece ter pegado forte sobre os alvinegros. O Verdão goleou por impiedosos 5 a 0. O time, agora dirigido por Mário Travaglini, encaminhou o passeio logo no primeiro tempo. Dario marcou o primeiro, Dudu ampliou e Servílio fechou a conta antes do intervalo. Já no segundo tempo, Dario e Servílio repetiriam a dose. Durante toda a campanha, as únicas derrotas santistas foram justamente as duas diante dos alviverdes.

“Cumpre salientar que o quadro palmeirense teve méritos integrais, não só para a vitória, líquida e indiscutível, como também para estender a tal vulto o escore. Foi sempre melhor o quadro, quanto à vibração, classe e sobretudo o aspecto tático, daí resultando em sua melhor apresentação no campeonato”, era o comentário d’A Tribuna, no dia seguinte. O Santos fechou a campanha com 53 pontos, quatro a mais que o Palmeiras, de novo vice-campeão. Apesar dos lamentos na Taça Brasil, os alviverdes tinham um motivo para se orgulhar com a goleada e para dar a volta por cima nos anos seguintes.

Mais encontros nacionais, mais troféus

A partir do final da década de 1960, Palmeiras e Santos veriam outras equipes dispostas a dividir o protagonismo. Prova disso veio na Taça Brasil de 1966. Os alviverdes caíram nas quartas de final, diante do Náutico. O Peixe despacharia os pernambucanos nas semifinais, mas acabariam deixando escapar o hexa. Méritos totais do Cruzeiro de Tostão, Dirceu Lopes, Piazza, Raul e outras feras. A goleada por 6 a 2 no Mineirão marcaria a implosão do reinado alvinegro na competição. Depois, os celestes ainda ganhariam por 3 a 2 no Pacaembu, onde levantaram o troféu.

O título do Rio-SP de 1966 também não foi o mais honroso ao Santos, dividido com outras três equipes por falta de datas, às vésperas da longa preparação à Copa do Mundo. Restava o Paulistão e ali também houve uma troca de guarda, com o Palmeiras recuperando a taça. Foi um ano bem difícil ao Peixe, especialmente pelas seguidas lesões e ausências de Pelé. O Rei não estava na vitória por 3 a 2 no clássico do Rio-SP e também não atuaria no primeiro compromisso do Paulistão, em que prevaleceu o empate por 2 a 2 no Parque Antárctica. Dario e Ademar Pantera fizeram aos alviverdes, enquanto Dorval e Lima foram responsáveis pelos tentos alvinegros. Naquele momento, os palmeirenses já lideravam o estadual.

O confronto do segundo turno serviu para dar a impressão de que o Santos ainda estava no páreo. O Peixe venceu o Palmeiras por 2 a 0 na Vila Belmiro, com gol de Dorval e Toninho. O Verdão ainda tinha uma relativa folga na liderança, mas os tropeços recentes (incluindo a eliminação na Taça Brasil) pressionavam o técnico Manuel Fleitas Solich. O paraguaio acabou perdendo o emprego depois do clássico e, na reta final do Paulistão, Mário Travaglini liderou os palestrinos ao título. O time fechou a campanha com uma vantagem de quatro pontos, com o Santos apenas em terceiro. Era a nova consagração de Valdir, Djalma Santos, Djalma Dias, Zequinha, Dudu, Ademir da Guia, Ademar Pantera, Servílio e outros símbolos do clube – alguns deles, já em seus últimos dias de Academia.

A conquista do Paulistão em 1966 seria uma prévia de uma das temporadas mais imponentes da história do Palmeiras. O time levou Taça Brasil e o recém-criado Robertão em 1967. O novo torneio nacional surgiu de uma ampliação do Rio-São Paulo e o Verdão derrotaria o Santos na primeira fase, durante sua caminhada. O time treinado por Aymoré Moreira incluía alguns novos destaques. E um deles logo daria as caras: César Maluco, inicialmente emprestado junto ao Flamengo. O atacante foi autor dos dois gols no triunfo por 2 a 1 dentro do Pacaembu, mesmo saindo contundido ao final. Buglê descontou a um Santos que se renovava, cada vez mais se apoiando em nomes como Joel Camargo e Edu.  Naquele momento, Lula já havia deixado o comando do time após 12 anos, substituído pelo ídolo Antoninho.

“Porque armou um jogo para vencer e não para esmagar o adversário, o Palmeiras derrotou o Santos por 2 a 1. Seu jogo equilibrado, veloz, dinâmico e ritmado, resguardado por uma defesa quase perfeita, foi nitidamente superior ao dos santistas, insistente nas ações cadenciadas”, analisava a Folha. Aquela vitória aconteceu na primeira fase, na qual o Peixe sucumbiu. O Palmeiras avançaria ao quadrangular final, levando o troféu inédito ao superar Corinthians, Internacional e Grêmio. E o melhor é que os alviverdes seguiam com a Taça Brasil na mira. Derrotaram o Grêmio na semifinal, antes do título consumado sobre o Náutico.

O Palmeiras campeão brasileiro em 1967

Ao Santos, seu consolo veio com o décimo título do Paulistão em 1967. Desta vez, o Palmeiras ficou apenas na quarta colocação e o Peixe teve concorrência principal do São Paulo. Os clássicos com os alviverdes valeram pontos importantes aos santistas. Depois do empate por 1 a 1 na Vila Belmiro, o Peixe ganhou moral com os 4 a 1 dentro do Parque Antárctica. Tupãzinho fez o primeiro tento do duelo, mas o recém-chegado Silva Batuta comandaria a reação com dois gols. Toninho e Pelé fechariam a conta. Entre as novidades alvinegras naquela ocasião, Ramos Delgado fez uma de suas melhores partidas desde que veio da Argentina e o meio-campo também começava a desfrutar do dinamismo de Clodoaldo. Quase dois meses depois, o título seria selado pelos praianos.

Em 1968, o calendário do futebol brasileiro se inverteria. O Santos voltou a dominar o cenário, agora levando o Paulistão no primeiro semestre e o Robertão no segundo. O Peixe venceria os dois clássicos contra o Palmeiras válidos pelo estadual. Anotou 1 a 0 na Vila, gol de Douglas, e complementou com o triunfo por 3 a 1 no Parque Antárctica. Aquele segundo embate, de quebra, serviu para confirmar o bicampeonato. “A história se repete. Tal como nos outros anos, houve muito barulho em torno desse título que, no fim, acaba sempre na Vila. É o Jovem Santos 68, uma equipe nova que ainda joga aquele velho futebol-arte que o mundo inteiro conhece. A vitória de ontem traz o bi antecipado”, destacava A Tribuna.

Depois do primeiro tempo mais equilibrado, o Palmeiras abriu o placar logo no início da etapa complementar, com China. A partir de então, o Santos cresceu. Edu empatou com um chute forte, que o goleiro Maidana aceitou. Já o melhor ficaria a Pelé, com a virada aos 14. O Rei anotou um tento espetacular, capaz de arrancar do meio-campo e passar por três marcadores, antes de bater no canto. Por fim, coube a Toninho fechar a conta e desatar a festa dos visitantes. Era a consagração de um renovado Peixe, que mantinha Pelé na liderança, mas via a aparição de uma geração modificada – de Cláudio, Rildo, Joel, Lima, Ramos Delgado, Edu, Clodoaldo, Carlos Alberto e Manoel Maria.

Nos vestiários, Pelé era o mais exultante. À Folha, falava em tom de desabafo: “Diziam que o Santos estava no fim. Falavam que eu próprio não tinha mais o futebol de antes. Parece até que chegaram a me chamar de palhaço, chamando o Santos de circo. Mas as coisas se decidem é no campo, não com palavras. E a decisão foi a favor do Santos, porque nosso time foi realmente o melhor. É uma satisfação muito grande poder provar, em números, a grande fase que atravessa nosso time”.

A capa de A Tribuna em 1968

A prova irrefutável de que o Santos voltou com tudo em 1968 veio no Robertão. O time fez uma campanha sólida na fase de classificação e avançou na liderança do Grupo B. No embate contra o Palmeiras, os rivais ficaram no 0 a 0. O reencontro de alvinegros e alviverdes aconteceu no quadrangular final, ao lado de Inter e Vasco. Os dois paulistas venceram na primeira rodada, antes do clássico no Morumbi. O time de Antoninho daria um grande passo com o placar de 3 a 0. Edu, Toninho Guerreiro e Abel fizeram os gols que praticamente definiram a competição a favor dos santistas.

“Impressionante a categoria do Santos. Entregou-se ao jogo do adversário, sem forçar o ritmo da partida, mas deixando nítida impressão de superioridade nas manobras e toques de bola. A razão do fato foi que os santistas atuaram sempre em sentido ofensivo, enquanto que o Palmeiras tornava seu jogo mais lento pela dispersão em lances laterais”, ressaltava a Folha. Com o placar o Santos dependia apenas de um empate contra o Vasco na rodada final para confirmar a conquista inédita. Fez bem mais do que isso, com os 2 a 1 no Maracanã tornando incontestável a campanha, com 100% de aproveitamento na fase final.

Já o amargor do Palmeiras se ampliava, após já ter perdido a final da Libertadores ainda em maio de 1968. Numa longa campanha em que chegaram a superar o fantasma do Peñarol na semifinal, os palestrinos deixaram a oportunidade escapar contra o Estudiantes. Após uma vitória para cada lado, os pincharratas venceram o desempate em Montevidéu e iniciaram seu tricampeonato. Foi o segundo vice da Academia, que não conseguia causar o mesmo impacto dos santistas além das fronteiras.

O reformulado Santos ainda partiu ao tricampeonato paulista no primeiro semestre de 1969. O regulamento do estadual mudou, agora com uma fase de classificação e um quadrangular final, nos moldes do Robertão. O Peixe passou na liderança do Grupo A, um ponto à frente do Palmeiras. Curiosamente, foram os alviverdes que mandaram nos clássicos da fase de classificação. O Verdão era dirigido por Filpo Núñez, com uma formação de transição entre a primeira Academia e a segunda. Eurico, Baldochi, Dudu, Ademir e César eram os pilares palestrinos na época.

No primeiro encontro, deu Palmeiras no Morumbi, por 3 a 2. César Maluco fez dois gols, mas o destaque alviverde foi Copeu. O ponta infernizou a vida de Rildo, criando as jogadas para os dois tentos do artilheiro e ainda fazendo o seu, num momento em que o Santos pressionava. O Peixe teve dois gols de Pelé, mas acabou muito dependente do Rei. Já em maio, dentro da Vila Belmiro, os alviverdes repetiram a dose com o triunfo por 1 a 0. Copeu de novo faria o tento decisivo do Palmeiras. Um detalhe é que aquele foi o primeiro clássico do garoto Leão na meta palestrina. Do lado santista, uma novidade era Djalma Dias, que trocara de cores pouco antes.

Pelé cobra falta contra o Palmeiras

Os quatro grandes passaram ao quadrangular final do Paulistão. Santos e Palmeiras venceram a primeira rodada. E, numa situação muito parecida com a que rolou no Robertão de 1968, os dois fizeram um duelo fundamental na sequência. Quando realmente estava valendo, o Peixe se impôs com o triunfo por 3 a 0. Antoninho assimilou as lições e armou um esquema mais defensivo, com destaque ao papel de Toninho Guerreiro, colando em Ademir da Guia. Assim, o Peixe manteve total segurança e construiu o placar. Pelé marcou no primeiro tempo, enquanto Toninho e Edu fecharam a contagem na segunda etapa. Edu, aliás, saiu como o melhor em campo ao atormentar os defensores alviverdes.

“Assim, perfeito na defesa e dono do meio-campo, o Santos, contando muitas vezes com apenas Edu e Pelé à frente, criou muito mais oportunidades para a marcação de tentos que o Palmeiras, mesmo quando este atacava em massa. O Santos fez três gols e perdeu outros, enquanto o Palmeiras, embora tendo a posse da bola por períodos extensos da partida, não conseguiu quase incomodar o arqueiro Cláudio”, pontuava a Folha. Na última rodada, precisando de um empate contra o São Paulo, o Santos se contentou em segurar o 0 a 0 e comemorou o tri no Paulistão.

Tanto Santos quanto Palmeiras abriram mão de disputar a última edição da Taça Brasil, vencida pelo Botafogo. O torneio válido pelo ano de 1968 não tinha datas e adentrou na temporada seguinte. Assim, os dois paulistas priorizaram suas outras competições. E foi no segundo semestre que o Palmeiras se recuperou, voltando a erguer uma taça nacional. Pela segunda vez, os alviverdes celebraram o Robertão, em seu quarto título brasileiro. Depois de uma campanha mais equilibrada na fase de grupos, a equipe jogou no limite no quadrangular final, mas ainda assim se consagrou mais uma vez.

O Palmeiras x Santos do Robertão de 1969 também foi o último da rica história entre os clubes na década de 1960. Os palmeirenses levaram a melhor, com um time que ganhava ainda mais a cara de sua segunda Academia. Rubens Minelli era o treinador naquele momento. Entre os jogadores mais novos despontavam o zagueiro Luís Pereira, uma das maiores lendas alviverdes, e o atacante Edu Bala. Ambos fariam a diferença na coleção de troféus erguidos também no início dos anos 1970. Acompanhariam Ademir, Dudu, César, Leão e Zeca rumo a uma nova era de ouro. Outros como Leivinha e Nei chegariam a partir de 1971. Naquele desfecho em 1969, o Palmeiras derrotou o Santos por 2 a 1 na fase de classificação. César Maluco balançou as redes duas vezes, enquanto Pelé marcou o do Santos.

O Santos faria uma campanha modesta no Robertão de 1969, na quinta colocação de seu grupo. O orgulho dos alvinegros por aquela campanha foi outro: em 19 de novembro, contra o Vasco, Pelé anotou o milésimo gol de sua carreira. Uma façanha singular, da qual os rivais não podem se vangloriar. O Palmeiras, por sua vez, buscou o troféu no quadrangular final. Numa disputa apertada contra Cruzeiro, Corinthians e Botafogo, a vitória por 3 a 1 sobre os cariocas garantiu o prêmio graças ao saldo de gols. A grandeza do que fazia aquele grupo de atletas se reafirmava mais uma vez em plano nacional.

Os anos finais do auge

A hegemonia de Santos e Palmeiras no Campeonato Paulista se encerrou em 1970. O São Paulo colocaria ponto final em seu jejum de 13 anos para ser bicampeão estadual também em 1971. A taça nacional igualmente viu novos donos. O Fluminense chegaria ao topo no Robertão de 1970 (ficando à frente exatamente dos alviverdes no quadrangular final) e o Atlético Mineiro cantaria de galo no ano seguinte, durante a primeira edição do reformulado Brasileirão. Santistas e palmeirenses viveriam uma seca de dois anos até rara para aquele período – apesar do gosto alvinegro por ainda ver a eternização de Pelé na Copa de 1970. Carlos Alberto, Clodoaldo, Joel e Edu eram os outros representantes do clube na campanha, enquanto Leão e Baldochi serviam de bandeiras palestrinas.

O clássico seria repleto de empates em 1970. O jogo mais simbólico aconteceu pelo Paulistão, semanas depois do título mundial da Seleção. O Peixe venceu por 2 a 0, gols de Manoel Maria e Edu (este, num chute cheio de efeito que morreu no ângulo de Leão), mas a partida foi considerada tecnicamente fraca. Em 1971, o Palmeiras levaria duas vitórias no Paulistão, embora o primeiro triunfo no novo Brasileirão tenha sido santista, gol de Mazinho para o placar de 1 a 0. A partir de 1972, as distâncias aumentariam entre os rivais. Oswaldo Brandão estava de volta para conduzir sua nova academia no Palestra Itália.

O Palmeiras conquistou o Campeonato Paulista de 1972 com muitas sobras. Ganhou, inclusive, os dois clássicos contra o Santos válidos pela competição. Os alviverdes também levariam o Brasileirão no segundo semestre, eliminando o Internacional na semifinal e faturando a decisão para cima do Botafogo. Ao Santos, eliminado na segunda fase, restou o gosto de provocar uma das raras derrotas palestrinas na campanha. O triunfo por 1 a 0 no Pacaembu teria mais um gol de Pelé em sua contagem no clássico.

O último título do Rei no Paulistão seria o de 1973. Foi a famosa taça dividida com a Portuguesa, porque Armando Marques errou a contagem da disputa por pênaltis na final. Com 26 tentos, Pelé foi artilheiro do Paulistão pela 11ª e última oportunidade. Já o treinador era outro velho conhecido, o antigo Canhão da Vila que virava Seu Pepe. O Palmeiras, naquela competição, ganhou o clássico no Morumbi por 1 a 0, num lindo gol de falta de Ademir da Guia. E os alviverdes ririam mais alto ao final de 1973, com o bicampeonato no Brasileirão. Durante a fase de classificação, foram dois empates contra os santistas, que não chegaram ao quadrangular final. Por lá, a Academia mandou na disputa que reunia Cruzeiro, Internacional e São Paulo. A festa do time de Brandão aconteceu exatamente diante dos tricolores.

Por fim, o ano de 1974 seria de despedida. Pelé disputaria sua última temporada pelo Santos. A última campanha completa do Rei aconteceu no Brasileirão, em que o time conseguiu pela primeira vez alcançar o quadrangular final, mas não alcançou o Vasco. Uma das últimas grandes atuações do craque, é claro, viria no clássico contra o Palmeiras. Ainda sob as ordens de Pepe, o Peixe atropelou por 4 a 0. O Rei foi o dono do duelo no Pacaembu. Fez seu gol, deu assistência para outro e um rebote do goleiro em sua cobrança de falta ainda gerou mais um tento. Brecha, Fernandinho e Nenê também balançaram as redes.

O curioso é que existia o temor que aquele fosse o último jogo de Pelé. O Rei havia discutido com os dirigentes do Santos sua vontade de pendurar as chuteiras. Muitas vezes, o camisa 10 declarara que era de seu desejo um jogo final sem muito alarde. Porém, não seria aquela goleada. “Não vou deixar o futebol sem a aprovação da diretoria do Santos. Eu não faria isso, mas gostaria de abandonar antes do Mundial de 1974”, falou o gênio, à Folha. O adeus ocorreu meses depois, em outubro de 1974, após o duelo contra a Ponte Preta pelo Paulistão.

O Palmeiras levou o Campeonato Paulista de 1974. No último clássico com Pelé em campo, prevaleceu o empate por 0 a 0. Os alviverdes ganharam o jogo do segundo turno por 2 a 0. O adversário na decisão daquele ano, de qualquer forma, seria o Corinthians. E um ponto final também logo viria à Academia e a Ademir da Guia, em 1976. O time treinado agora pelo ídolo Dudu levou a taça estadual de novo, com a ameaça principal do XV de Piracicaba. O Santos sequer avançou à fase final do estadual. Seria o começo do jejum alviverde que perdurou por 17 anos. Seria o meio do caminho na reinvenção alvinegra sem Pelé, até a conquista dos Meninos da Vila no Paulistão de 1978.

Depois disso, o clássico entre Palmeiras x Santos teve distintos momentos. Acompanhou altos e baixos dos times, engrandeceu novos ídolos, valeu outras taças. Depois de uma final eletrizante na Copa do Brasil de 2015, agora definirá o novo campeão da Libertadores. O que nunca se perdeu, porém, foi o passado riquíssimo sempre carregado por alviverdes e alvinegros. E, apesar da importância da ocasião no Maracanã, é difícil de imaginar que em algum momento os inimigos íntimos poderão equiparar os ares lendários vividos ao longo dos anos 1960.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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