Libertadores

A atuação gigante em Montevidéu consolida ainda mais Gustavo Gómez como um zagueiro histórico ao Palmeiras

Gustavo Gómez participou da construção do primeiro gol e teve uma senhora atuação no miolo da zaga

Uma fatiada na bola e uma rodovia se abria pelo lado do campo no Centenário. A construção do primeiro gol do Palmeiras na decisão da Libertadores contou com a disparada de Mayke e a infiltração de Raphael Veiga, mas também precisou da qualidade de Gustavo Gómez. O zagueiro percebeu o espaço e mandou um lançamento cirúrgico, digno de armador, num dos lances primordiais ao tricampeonato continental dos alviverdes. A importância do paraguaio em Montevidéu, porém, não se restringe àquele passe perfeito. A conquista palmeirense também dependeu de uma atuação muito sólida do capitão no miolo da zaga, seja para organizar o sistema ou para travar diversos lances de perigo. Uma noite inesquecível ao camisa 15, que dimensiona um pouco mais a grandeza que o consolida como um dos melhores beques da história palmeirense.

Quando Gustavo Gómez chegou ao Palmeiras em 2018, talvez nem todo mundo tenha se dado conta do bom negócio feito pelo clube na época. O zagueiro não se firmou no Milan e nem era conhecido de muita gente durante sua ascensão no Lanús e no Libertad, mas sabidamente tinha potencial para se colocar entre os melhores da posição no continente. Olhando em perspectiva, a contribuição às glórias sai ainda melhor que a encomenda. A série de conquistas do paraguaio fala por si. Soma duas Libertadores no currículo, além de Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil e Campeonato Paulista. Gómez foi imprescindível na maioria absoluta destas campanhas, com grandes atuações e uma firmeza que se expressa em campo.

O Palmeiras muitas vezes sente quando não tem Gustavo Gómez, e isso acontece com frequência por conta dos compromissos com a seleção paraguaia. Em contrapartida, também há aqueles jogos em que a preponderância do zagueiro se escancara. As finais da Libertadores servem de exemplo. Contra o Santos no Maracanã, Gómez seria uma das peças principais no sistema intransponível, ainda que a falta de qualidade técnica do jogo em si tenha contribuído ao serviço completo. A máxima “defesa que ninguém passa” seria seguida à risca para a reconquista continental depois de 21 anos. Já em Montevidéu, no Centenário, a capacidade do beque se tornou ainda mais valiosa.

É bom dizer que Gustavo Gómez não se limita apenas às suas tarefas defensivas. Não à toa, representa uma ameaça constante no jogo aéreo e também oferece qualidade na construção. Isso transpareceu com seu lançamento magistral para Mayke, logo aos seis minutos, dando a vantagem precoce ao Palmeiras. Se a jogada pareceu especialmente desenhada por Abel Ferreira, pela maneira como os palmeirenses foram escalados, também é necessário aquele que acione a engrenagem para que ela funcione. O passe do paraguaio fez exatamente isso.

Na saída do estádio, inclusive, Gustavo Gómez confirmou que era uma jogada pensada de antemão e que funcionou logo cedo: “Jogamos com dois alas. Quando surge o passe, nós já temos que jogar lá no fundo. Graças a Deus o passe saiu bem e gerou o primeiro gol”.

E se a cereja do bolo veio no começo, o restante do primeiro tempo de Gustavo Gómez seguiu perfeito. Taticamente, o Palmeiras tomou conta do jogo nos 45 minutos iniciais. Fechou os espaços, neutralizou a criação de um Flamengo lento, explorou os contra-ataques. No papel de guardar a área e apertar os destaques adversários, o capitão foi gigantesco. Era onipresente no miolo da zaga e correspondia à solidez, também numa senhora atuação de Danilo para fechar a cabeça de área. Mesmo quando os atacantes rubro-negros conseguiam finalizar, não tinham muito tempo ou espaço para realizar as melhores jogadas.

O segundo tempo se abriu, contra um Flamengo mais criativo e um Palmeiras que sentia o desgaste. Gustavo Gómez acabava mais exposto. Conseguiu travar Gabigol numa arrancada em que o atacante parecia livre, embora também não tenha sido suficiente para tapar o buraco que permitiu o gol de empate dos rubro-negros. Nada que diminuísse sua importância em campo, numa decisão que dependeu da resiliência dos alviverdes. Tal liderança do paraguaio, seja pela voz ativa ou pelo exemplo de sempre chegar em cima, acabava despontando como um motivo de confiança num momento em que os palmeirenses sentiam o baque.

E quando a sorte sorriu para Deyverson, permitindo o segundo gol logo no início da prorrogação, o restante da noite necessitaria da precisão de Gustavo Gómez pelo alto. O Flamengo não apresentava muitos recursos, mas os cruzamentos eram das poucas coisas que os rubro-negros tentavam. Fica difícil conseguir uma brecha, quando há um zagueiro adversário que lê tão bem as jogadas e prepondera de cabeça. Os 30 minutos finais terminariam de consagrar o paraguaio. Pode não ficar com o prêmio de melhor em campo ou sair com a pecha de herói, mas a torcida palestrina sabe que boa parte da alma dessa equipe campeã continental duas vezes seguidas reside na camisa 15. A força competitiva do time de Abel Ferreira está bastante atrelada ao seu capitão, um dos maiores símbolos desse sucesso consecutivo registrado no Allianz Parque.

Questionado se fez a maior partida de sua carreira, Gómez enfatizou que se satisfaz com a certeza de dar seu máximo: “Eu me preparo para cada jogo. Hoje foi um jogo especial. Agora que acabou, estou tranquilo porque deixei tudo em campo. A gente pode jogar bem ou mal, mas da minha parte nunca vai faltar isso, de deixar tudo e se entregar. Sair do campo cansado é um sinal bom de que você deixou tudo”. Neste sábado, tamanho empenho ficou bem claro.

Se tantas vezes a Libertadores celebrou personagens que se caracterizam pela garra e pela entrega defensiva, Gustavo Gómez também pode integrar essa história de caudilhos eternizados no torneio. A braçadeira de capitão e a atuação enorme num estádio mítico como o Centenário talvez até auxiliem a aura ao redor do paraguaio. Mas, por aquilo que ele mostrou em campo nesses 120 minutos, merece tamanha consideração. Já são duas taças como protagonista, e no centro da fotografia dos campeões, com a taça nas mãos.

Conquistar duas Libertadores de maneira consecutiva eleva vários jogadores a posições privilegiadas na lista de maiores ídolos do Palmeiras. Gustavo Gómez já tinha peso para se reivindicar entre os principais zagueiros da história alviverde e essa final serve de atestado de sua importância. Daqueles atletas que marcam época, ainda que os louros também se dividam com outros gigantes do atual elenco, como Weverton. E a obra do beque de 28 anos permanece inacabada, já que poderá fazer ainda mais com a camisa alviverde. Enquanto essa segurança de Gustavo Gómez prevalecer, as chances dos palmeirenses de enfileirarem novos títulos permanecem consideráveis.

* Colaborou Bruno Bonsanti, direto de Montevidéu

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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