Libertadores

A antiga relação entre Athletico-PR e Flamengo: nos primórdios da Baixada, a primeira excursão dos cariocas

O Flamengo esteve em campo na partida que é considerada a inauguração da Baixada, contra o Internacional, que deu origem ao Furacão dez anos depois

* Texto publicado originalmente em julho de 2022

Athletico Paranaense e Flamengo protagonizam um duelo que ganhou peso nos últimos anos, especialmente pelos recorrentes encontros em mata-matas. Os duelos na Copa do Brasil se tornaram corriqueiros e agora surge uma final de Libertadores no caminho. Indo além dessa rixa recente, porém, há mais de um século os dois clubes compartilham momentos históricos. A inauguração da Baixada, afinal, teve o Flamengo em campo, naquela que era a primeira excursão do time para fora do Rio de Janeiro. O início de uma relação que se deu ainda com o Internacional, uma das equipes que originariam o Athletico.

O terreno da atual Arena da Baixada foi adquirido em 1912. O Internacional Foot-Ball Club, fundado em 1912, alugou pouco depois uma chácara no bairro Água Verde. Seria naquele local que, durante os meses seguintes, um estádio começaria a ser construído para a equipe. As obras se iniciaram em 1913, por iniciativa de Joaquim Américo Guimarães, presidente do Internacional – e o mesmo patrono que batizaria a praça esportiva, após seu precoce falecimento em 1917. Aquele seria o primeiro estádio do Paraná a contar com arquibancadas de madeira.

O Internacional disputou partidas na Baixada a partir de 1913. Entretanto, a inauguração oficial foi registrada em 6 de setembro de 1914. O time da casa queria um adversário de relevo e o Flamengo acabou escolhido, na primeira excursão interestadual dos cariocas. O Fla também era uma equipe relativamente jovem, com seu departamento de futebol fundado em 1912, apesar da existência do clube de regatas desde 1895. De qualquer maneira, o elenco reunia jogadores destacados na capital federal e já fazia barulho no Campeonato Carioca. Não à toa, as expectativas seriam grandes para o embate.

“Conforme noticiamos, chegaram hontem a esta capital os players cariocas do Flamengo Foot Ball Club, que à gare da Estrada de Ferro foram recebidos por diversas commissões dos clubs sportivos aqui existentes e por uma grande massa popular. Da gare os nossos hóspedes se dirigiram, em automóveis, para o Grande Hotel Moderno, sendo ahi saudados pelo sr. d.r Hugo Simas, em nome do Internacional Foot Ball Club. O sr. dr. Oswaldo Palhares respondeu as saudações, na qualidade de representante da directoria do Flamengo. Os players do Flamengo farão no groud da Água Verde dois jogos em Coritiba: um com o 1° team do Internacional, amanhã; outro com o scratch paranaense, dia 7”, descrevia a Folha da Tarde, na época.

“Não somente nos meios sportivos, mas entre a sociedade coritibana toda, corre um frêmito de enthusiasmo pelos matchs que os nossos jogadores vão disputar contra os valentes players do Flamengo, cujo jogo de conjuncto é apontado como modelar, no Brasil inteiro. Saudando os destemidos players, fazemos votos para que a sua permanência na capital paranaense seja povoada de encantos”, complementava o jornal de maior circulação no Paraná durante o período.

Mais de 3 mil torcedores estiveram nas arquibancadas da Baixada para acompanhar o duelo, um recorde para a cidade. E o Flamengo fez jus à badalação, ao golear o Internacional por impiedosos 7 a 1. O primeiro tempo teve vitória mínima dos cariocas, muito por conta da maneira como o goleiro Reffo fechava a meta dos paranaenses. Já na segunda etapa, a enxurrada de gols aconteceu, com mais seis tentos flamenguistas e apenas um dos alvinegros. Diferentes fontes, no entanto, divergem sobre os autores dos gols do Fla. O atacante Alberto Borgeth costuma ser apontado como o responsável pelo primeiro gol da história do estádio. Outros nomes como Baiano e Píndaro de Carvalho também são creditados. Já o gol de honra do Inter foi de Antonio Portes.

“Conforme fôra antecipadamente annunciado, realizou-se hontem no field da Água Verde o match-official, que com vivíssima ansiedade era esperado, entre os 1°s teams do Flamengo e do Internacional. Desde que se joga foot-ball em Coritiba, não houve uma assistência tão grande e selecta como a de domingo, que transcorreu num dia encantador. Não exageramos. As arquibancadas regurgitavam de espectadores, notadamente senhores e graciosas demoiselles, que emprestaram um aspecto bizarro e cheio de alacridade àquella festividade sportiva; e a geral, pelouse e em redor do ground estavam repletos de assistentes, prefazendo um total de três mil admiradores do bello sport bretão”, noticiava o Diário da tarde.

“À hora de 13 e 40 entrou em campo em primeiro lugar a equipe carioca, que foi recebida por uma frenética e prolongada salva de palmas e ahi cantaram um hymno de guerra saudando os paranaenses. Estes corresponderam entoando o ‘alle goals'. Os rapazes do Flamengo traziam o traje negro e vermelho. Em seguida entrou no ground o team coritibano, debaixo de acclamações da assistência. A opinião geral era de que a victoria caberia ao Flamengo, tendo em vista a superioridade dessa eleven: e assim aconteceu. O Internacional foi vencido por 7 goals a 1. É verdade que Dago e Valle, figuras destacadas do team, não jogaram. Além disso, alguns jogadores do alvinegro estavam realmente com pouca sorte. Collares, o admirável centerforward, que há dias se encontra machucado no pé direito, pouco ou nada fez”, salientava o jornal.

“Não obstante isso, conhecida como é a provada competência dos destemidos players cariocas no sport da pelota, muito aproveitaram os coritibanos em ensinamentos do Association Foot-ball. A equipe do Flamengo, sem excepção de um só jogador, portou-se na altura de um princípio, em especial menção à extraordinária parelha de backs Píndaro e Nery, justamente reputada a melhor da América do Sul. Angelo, Jucá, Arnaldo e Gallo desempenharam galhardamente as suas posições. O excelente kepper Baena fez magníficas defesas, recebendo constantes aplausos. A linha de halves estava um tanto hecterogenea, não destoando, contudo, do conjuncto”, descrevia também.

O Flamengo disputaria mais duas partidas durante aquela excursão ao Paraná. Chegou a golear a “Seleção de Curitiba” por 9 a 1 no dia seguinte, também dentro da Baixada. Já o resultado mais elástico aconteceu em Paranaguá, onde o Fla aplicou 15 a 0 para cima do Paranaguá. Arnaldo chegou a fazer cinco gols naquela ocasião. Os rubro-negros terminariam 1914 com a conquista do Campeonato Carioca, o primeiro de sua história. E que o futebol paranaense fosse inferior, o Internacional iniciaria a trajetória do Campeonato Paranaense com o primeiro título da competição, em 1915.

O Internacional permaneceu como dono da Baixada até 1924. Na ocasião, o clube se fundiu com o América e formou o Athletico Paranaense. O Furacão chegou a estudar uma mudança de sede, mas permaneceu no Água Verde. Curiosamente, a estreia dos athleticanos com o novo nome no estádio aconteceu usando, de maneira emergencial, os antigos uniformes do Internacional. Os anfitriões venceram o Universal por 4 a 2, com dois gols de Ary, além de um de Marreco e outro de Malello. A compra definitiva do terreno da antiga chácara aconteceria em 1933. Já outro marco veio em 1939, com a inauguração de arquibancadas de concreto.

O primeiro duelo entre Flamengo e Athletico Paranaense aconteceu em 1927, em Curitiba, com goleada dos cariocas por 4 a 1. As equipes voltaram a se enfrentar em 1947, até que os amistosos e jogos competitivos se tornassem mais frequentes a partir da década de 1960. Um momento memorável aconteceu nas semifinais do Brasileirão de 1983, com a classificação do Fla pelos 3 a 0 no Maracanã, mas também um famoso 2 a 0 do Furacão no Couto Pereira. Os embates se tornaram ainda mais numerosos nos anos 1990, contribuindo para que o duelo ganhasse peso. Isso até que os encontros repetidos na Copa do Brasil demarcassem a história recente, engrandecida por uma final de Libertadores.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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