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Libertadores começa depois da Conmebol viver o caos, na política, na TV e na Justiça

Castelos de cartas, esquemas que perduraram por anos e privilégios, a dirigentes e empresas, foram derrubados de uma vez só pelas investigações do FBI à corrupção do futebol mundial. A Fifa foi o epicentro das atenções, mas uma das entidades mais afetadas foi a Conmebol, que dá o pontapé inicial à fase de grupos da Libertadores de 2016 depois de ter sido devastada por um turbilhão político nos últimos seis meses.

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Os últimos três presidentes da Conmebol estão presos: Nicolás Leoz, no Paraguai, Juan Angel Napout, em Nova York, e Eugenio Figueiredo, no Uruguai. Mais um punhado de homens influentes na confederação, antigos secretários-gerais e vice-presidente, também estão envolvidos ou atrás das grades, assim como dirigentes de todas as federações nacionais do continente.

A Conmebol escolheu, no começo do ano, qual seria o quinto homem a ocupar a cadeira da presidência desde 2013, já que o uruguaio Wilmar Valdez assumiu o comando interinamente por alguns meses depois da saída de Napout. O retrato de uma entidade frágil, ainda mais depois que Figueiredo admitiu, em depoimento ao Ministério Público do Uruguai, que recebia US$ 50 mil mensais de empresas de marketing esportivo para favorecê-las nas negociações de direitos de transmissão.

Segundo o relatório da promotoria, Figueiredo disse que recebia propina desde 1993, quando integrou o Comitê Executivo da Conmebol, e que também recebia US$ 40 mil de salário – cada presidente de federação levava US$ 20 mil. Esses valores nunca constaram nos balanços da entidade. “(Figueiredo) Expressamente reconhece que tal modo de atuar se traduzia em prejuízo a clubes e jogadores profissionais”, escreveu, de acordo com o Globo Esporte.

A prática era simples: os dirigentes recebiam propinas de empresas como Traffic e Torneo y Competencias, cujos principais executivos, J. Hawilla e Alejandro Burzaco, foram um dos primeiros alvos das investigações. Com esse dinheiro, as agências buscavam garantir a preferência nas negociações de direitos de televisão. Entram as leis do mercado: sem concorrência, o preço não é tão alto quanto poderia ser. Os clubes perdem dinheiro em nome de interesses individuais.

Os direitos de transmissão sempre foram da Fox – outras emissoras, como SporTV e Globo tinham que conversar com ela para poder passar o torneio – e ninguém sabe direito exatamente quanto a empresa de Rupert Murdoch paga pela principal competição do continente. Foi por isso que a Fox Sports chegou ao Brasil já com a exclusividade da Libertadores. Antes, como não tinha canal para transmiti-la, ela sublicenciava os direitos à emissora da Globosat.

No final do ano passado, a Conmebol anunciou que rompeu contratos com a T & T, empresa que tem participação da Traffic, com a Torneo y Competencias e com a Fox referentes às transmissões de 2019 até 2022. A Globo até entrou com um processo porque já tinha um acordo firmado. A entidade sul-americana prometeu que fará licitação aberta e com concorrência para os direitos de TV desse período, o que pode – finalmente – melhorar os repasses financeiros aos clubes.

Isso é muito necessário. Mesmo com todo esse dinheiro mudando de mãos, a premiação que a entidade paga aos clubes que disputam a Libertadores é ridícula. Subiu de US$ 5,3 milhões para um máximo de US$ 7,7 milhões na atual temporada, ao clube que disputar a primeira fase e depois for campeão, o que equivale a R$ 31 milhões, ou menos do que qualquer Bate Borisov recebe somente para participar da fase de grupos da Champions League.

O prêmio de participação aumentou consideravelmente, embora ainda esteja longe do ideal, depois da pressão de alguns clubes, entre eles, o Corinthians. Andrés Sánchez, mesmo oficialmente afastado do futebol do clube, não perde uma única oportunidade de acenar com um boicote à Libertadores, caso as condições financeiras não melhorem. Chegou a dizer que o Corinthians “paga para jogar” – o que não é verdade, tendo em vista o tamanho do faturamento com bilheteria nos jogos da Libertadores.

Nesse contexto ruim para a Conmebol, surge uma concorrente. Uma empresa de marketing esportivo chamada MP & Silva começou a conversar com equipes, entre elas o próprio Corinthians, Flamengo, São Paulo, Boca Juniors e River Plate, para formular uma espécie de Champions League das Américas. Teria 64 clubes, os melhores do continente, e pagaria até US$ 30 milhões para quem fosse campeão. Quatro vezes mais que a Libertadores hoje em dia.

Argentina
Torcida argentina (Foto: AP)
Torcida argentina (Foto: AP)

Com esse vácuo para os direitos de transmissão da Libertadores, quem pode ficar de olho para arrancar uma boquinha são as emissoras argentinas, que tiveram seus interesses ressuscitados por Mauricio Macri. Desde 2009, os direitos do Campeonato Argentino pertencem ao Estado, mas o novo presidente, um fã do estado mínimo, está fortalecendo as licitações para que canais de televisão aberta comprem os direitos do futebol do país.

Em janeiro, fechou um acordo de 180 milhões de pesos pelas partidas de Boca Juniors, River Plate, Racing e Independiente como Canal 13 e a Telefé, dos grupos Clarín e Telefônica. O San Lorenzo será dividido entre o Canal 9, o América e a TV Pública porque não conseguiu cobrir as propostas. Todas as outras partidas passam na emissora estatal. Uma nova licitação será realizada no meio do ano, para o campeonato de 2016/17.  O governo deve abrir mão dos direitos da Copa da Argentina (menos semifinal e final) e da segunda divisão. O canal à cabo TyC Sports, também do Clarín, é o principal interessado.

As semifinais e a final da Libertadores, quando são disputadas por equipes argentinas, também pertencem ao Governo, e Macri teria dificuldades se voltasse atrás na promessa de campanha de manter o futebol de graça para todos, mas, dentro desse contexto de tenta diminuir o gasto do Estado com o futebol (na última renegociação, abateu 500 milhões de pesos do que deveria pagar aos clubes), pode também renegociar esses direitos com as emissoras.

O que é certo é que a Conmebol nunca esteve tão enfraquecida diante dos clubes, ainda mais depois da declaração de Figueiredo ao Ministério Público uruguaio, admitindo ter prejudicado os clubes. Foi a senha. Os influentes do continente – brasileiros e argentinos – precisam aproveitar o momento para conseguir transformar a Libertadores em um torneio rentável e interessante também comercial. Porque, dentro de campo, ele já é sensacional.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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