América do Sul

Não espere mudanças na Conmebol com Figueredo

A saída de Nicolás Leoz da Conmebol é aguardada há muito tempo, mas a notícia da sua renúncia não deve trazer muitas alegrias. O anúncio de sua saída foi feito nesta quarta-feira, assim como o nome do substituto: Eugenio Figueredo. O uruguaio assume o cargo até o fim do mandato de Leoz, em 2015. No dia 30 de abril, será feita uma reunião com todos os representantes das dez federações para anunciar o novo chefe da Confederação Sul-Americana.  Mas a chegada de Figueredo ao cargo de presidente da entidade não significa uma mudança. Muito pelo contrário.

Vice-presidente da Conmebol,  Figueredo foi presidente da Asociación Uruguaya de Fútbol (AUF) de 1997 a 2006 e acusado diversas vezes de corrupção e favorecimento. Há algum tempo, é ele quem toma decisões. A mudança no comando era esperada. Segundo o La Red 21, do Uruguai, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, exigiu que Leoz renunciasse a seus cargos na Fifa, no Comitê Organizador da Copa de 2014 e na Conmebol. As razões? As investigações conduzidas internamente na Fifa por Michel García teriam apontado Leoz como um dos favorecidos em diversos escândalos, entre eles a ISL e a o recebimento de dinheiro para escolher o Catar como sede da Copa de 2022.

Seja pela saúde debilitada, seja pelas denúncias iminentes, o fato é que Leoz passou o bastão para Eugenio Figueredo. E mostramos aqui alguns dos fatos relevantes da vida do agora presidente da Conmebol.

Oposição do governo uruguaio

Em 2006, quando Figueredo renunciou ao cargo de presidente da Asociación Uruguaya de Fútbol (AUF), o governo da época deixou claro que era contra a reeleição do dirigente. Héctor Lescano, então ministro de Turismo e Esporte, afirmou que o governo não interveio na entidade de futebol. “Temos dito – porque antes dissemos pessoalmente ao senhor Figueredo – que seria saudável um passo se afastar com a finalidade de ajudar a uma saída ao futebol. Porque as mudanças são necessárias para recuperar a credibilidade perdida, com a permanência de uma figura fundamental, depois de tantos anos e com os resultados em visto, seria muito difícil de conseguir”.

O governo não interveio, mas a pressão foi grande o suficiente para fazer Eugenio Figueredo renunciar. Não à toa, claro. Ele tinha poder dentro do futebol sul-americano. Logo conseguiu entrar na Conmebol e tornar-se vice-presidente, sob a batuta de Leoz e Grandona, e seguir mandando na política de futebol uruguaio.

Desvio de dinheiro

Em 2003, Figueredo foi acusado de desvio de dinheiro por um pagamento de € 29 mil a um ex-secretário-geral da AUF, Alejandro Beisso. Como? O cheque correspondia a um dinheiro a ser pago ao Racing, clube de Montevidéu, mas foi recebido por Beisso. O clube foi acusado de fazer parte da fraude e teve o embargo de seus bens patrimoniais decretado durante a investigação.

Favorecimento na venda de direitos de TV

Figueredo é acusado de falsificação no convênio com a empresa Tenfield SA na venda de direitos de transmissão das eliminatórias de 2010. A empresa não quis admitir o pagamento mínimo de US$ 7 milhões, como foi pago pelas eliminatórias de 2002 e 2006. E ainda ganharam a prioridade para a compra dos direitos das eliminatórias para 2014, que viriam a comprar depois.

Nepotismo

Há denúncias também da contratação da empresa do filho de Eugenio Figueredo, Gabriel Figueredo, para realizar serviços dentro da AUF. A Eurosegur, empresa do filho de Figueredo, teve problemas trabalhistas, com os funcionários reclamando de salários que não são pagos, férias, licença, bônus. Os serviços da empresa prestados pela empresa à AUF eram de segurança e limpeza.

Favorecimento a alguns clubes

Em 2007, Figueredo foi acusado também de favorecer o seu clube de coração, o Huracán Buceo, com o pagamento de 2,5 mil pesos uruguaios pelo rebaixamento. Esse tipo de procedimento era comum aos clubes rebaixados até 2000, quando foi votada uma nova norma de saneamento econômico que impede esse pagamento aos clubes.

Em 2011, o vice-presidente interveio para ajudar o Peñarol na Conmebol. O atacante Juan Manuel Oliveira foi expulso em um jogo contra o Independiente, na última rodada da fase de grupos. Pelo código disciplinar, a punição seria de dois jogos, por ter sido uma agressão e, mais do que isso, com a bola parada, o que agravaria o lance. Graças a uma intervenção amiga de Eugenio Figueredo, a punição foi de apenas um jogo. Figueredo alegou que o árbitro relatou “jogo bruto” e a punição seria de uma só partida.

O “não” de Evo Morales
Eugenio Figueredo (primeiro à esquerda) com dirigentes sul-americanos e Evo Morales no centro (AP Photo/Juan Karita)
Eugenio Figueredo (primeiro à esquerda) com dirigentes sul-americanos e Evo Morales no centro (AP Photo/Juan Karita)

Outro episódio curioso de Figueredo aconteceu em 2010, em uma reunião com o governo boliviano, incluindo o presidente Evo Morales. Como representante da Conmebol, Figueredo liderou uma deleção que tinha ainda Primo Corvazo, representando a Fifa, o presidente da Federação Paraguaia de Futebol, Juan Angel Napuot, e dirigentes da Federação Boliviana. O motivo disso tudo? O governo de Evo Morales cobrava impostos atrasados da Federação Boliviana e já tinha tomado medidas como o fechamento da sede da instituição em Cochabamba, e impôs um embargo nos veículos e na conta corrente da FBF.

Os figurões do futebol foram tentar dizer ao presidente boliviano um “pero que si, pero que no” para convencê-lo que futebol é um “bem do povo” e que não é impostos são complicados, para que ele fosse compreensivo. Uma tentativa do famoso jeitinho dos picaretas. Não adiantou. Evo Morales disse: “A lei é para todos”. Pior: ainda tomaram bronca. O porta-voz da presidência, Iván Canelas, cobrou coerência da Fifa. Afinal, se a entidade que rege o futebol mundial diz que não aceita intervenções de governos no futebol, o governo boliviano queria que a Fifa também não interviesse no governo boliviano. Morales explicou que na Bolívia, não havia perdão fiscal nenhum e que as leis devem ser cumpridas. E isso incluía a Federação de Futebol Boliviana e convidou os dirigentes a se retirarem.

Mudou o presidente, nada mudou

Segundo Diego Corbalán, jornalista do jornal Crónica, Figueredo tinha não só a confiança de Leoz, mas também de Julio Grondona, outro veterano entre os dirigentes sul-americanos. E as decisões mais importantes da entidade passam por esses três nomes já há algum tempo. Isso significa que não dá para esperar que haja mudanças significativas na direção. Na verdade, não dá para esperar mudança alguma.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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