América do Sul

Jogadores chilenos apoiam e se somam aos protestos massivos que ocorrem no país

O Chile viveu uma sexta-feira histórica. Após dias de protestos massivos, o país protagonizou a maior manifestação das últimas três décadas, desde sua redemocratização: mais de um milhão de pessoas saíram às ruas de Santiago para erguer sua voz contra o governo. Os atos, que tinham como motivação inicial aumento da passagem do metrô, abraçaram outras pautas e também se contrapõem à repressão exercida pelo estado. O presidente Sebastián Piñera, que já anunciara um pacote de medidas sociais, neste sábado prometeu a troca de seus ministros – o que não deve cessar a revolta, sob os pedidos de uma nova constituição. Pela primeira vez desde a última semana, ao menos, o toque de recolher foi suspenso. Os registros até o momento apontam para 19 mortos, mais de mil feridos e cerca de 6 mil presos.

E, mais uma vez, o futebol amplificou o barulho das manifestações. Diversos jogadores chilenos haviam se pronunciado desde o início dos atos, apoiando a população nas ruas. Nomes importantes da seleção, inclusive, utilizaram suas redes sociais para questionar o governo de Piñera. Já nesta sexta-feira, novas mensagens se proliferaram.

A mensagem mais contundente veio de Esteban Paredes, capitão do Colo-Colo, que recentemente se tornou o maior artilheiro da história do Campeonato Chileno. Na sexta, o veterano apontou que os jogadores do Cacique devem se somar às mobilizações, em um ato conjunto também com os atletas de outras equipes. O atacante já havia declarado seu apoio às demandas, colocando em xeque as ações do governo. Diante do aumento dos atos, Paredes revelou uma conversa do elenco colocolino para se unir à população nas ruas.

“A minha reflexão e do plantel é de uma pena profunda por aquilo que estamos passando no país, por tudo o que aconteceu e por todos os excessos que se produziram. A verdade é que não vemos solução ao tema. É uma pena muito grande, uma lástima. Nós estamos com o povo. Embora não compartilhemos a ideia dos incêndios e dos saques, também queremos que seja um Chile melhor, que tenha benefícios para as pessoas”, apontou El Tanque, à Rádio ADN.

Ao longo da semana, alguns membros do Colo Colo já tinham saído às ruas, como os jogadores Andrés Vilches e Carlos Carmona, assim como o técnico Mario Salas. Paredes, entretanto, falou sobre um ato coletivo: “Não apenas nós como instituição, como Colo Colo, que representa o povo, mas também as pessoas de La U, da Católica, todos pelo mesmo bem. Comentamos ontem, estivemos analisando o tema para podermos manifestarmos como equipe. Por que não? Por que não ir e apoiar toda essa gente que luta no dia a dia, que se levanta às cinco da manhã?”.

“Pensamos no assunto e creio que vamos ter uma resposta rápida para apoiar o que está acontecendo. A maioria está de acordo. Muitos de nós temos famílias que se levantam cedo e é por isso que temos que sair. Muita gente nos acompanha e poderíamos ter alguma voz, colocar nossas inquietudes. Se a gente se une à massa, é um apoio às pessoas”, complementou o centroavante, dizendo que, neste momento, ninguém pensa em futebol. Alguns de seus companheiros passaram a fazer guarda em suas vizinhanças para evitar saques. O Campeonato Chileno segue suspenso e sem data de retorno prevista.

Paredes ainda demonstrou não aprovar o posicionamento coletivo feito pelas diretorias de Colo Colo, Universidad de Chile e Universidad Católica. O atacante deixou claras as suas reticências quanto ao real interesse de seus patrões. “O comunicado foi feito para tirar algo que não faz parte do sentimento deles. Eles não sentem a realidade. A mim, me pareceu isso”, analisou o veterano. Os clubes no país são geridos por grupos empresariais, através de suas sociedades anônimas.

A nota das agremiações foi divulgada na última terça: “Colo Colo, Católica e Universidad de Chile deixam de lado sua rivalidade esportiva para fazer um chamado a todos os chilenos que buscam espaços de diálogo pacífico e de manifestação responsável de suas legítimas demandas. O exposto permitirá fazer frente à dívida social que enfrenta nossa sociedade e assim construir um melhor país para todos, respeitando os direitos de todos os cidadãos”.

Quem também se uniu nesta sexta-feira foram as torcidas organizadas dos três maiores clubes do país. Assim como já haviam feito nos dias anteriores, as barras de Colo Colo, Universidad de Chile e Universidad Católica levaram suas cores ao milhão de pessoas nas ruas e produziram faixas para enfatizar as reivindicações. Mesmo em outras cidades, torcidas rivais realizaram atos em conjunto, como as de Santiago Wanderers e Everton.

“Como parte do povo do Chile, os clubes sociais e as torcidas organizadas compartilham a indignação e nos somamos à manifestação majoritária que se expressa em todo país. Hoje, vemos com raiva e tristeza como as ruas voltam a ser terrenos dos militares. Exigimos que as tropas saiam de nossas cidades, de nossas avenidas, de nossas praças”, declarou a associação de torcidas, prometendo também lutar por mudanças no esporte, dentro de uma nova constituição. “Nossas bases sociais e nosso país em geral merecem uma alternativa a este futebol sem rumo, como uma poderosa ferramenta que contribua à rearticulação do tecido social”.

Por fim, vale destacar o gesto da Universidad de Chile a um torcedor ferido por bala durante os protestos. O elenco enviou uma camisa autografada por todos os jogadores ao jovem hospitalizado. O rapaz, estudante de engenharia, foi atingido a curta distância por uma bala de borracha atirada pela polícia e perdeu a visão do olho esquerdo. Além disso, não poderá praticar mais esportes por causa da lesão.

Abaixo, uma lista de postagens feitas por importantes jogadores chilenos em reação aos protestos massivos desta sexta:

 

Ver essa foto no Instagram

 

Chile es del pueblo ??????

Uma publicação compartilhada por Charles Aranguiz (@charles.20aranguiz) em

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo