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Tem muito da Bolívia de 94 nessa campanha do Bolívar na Libertadores

Tem um sentimento de Déjà vu a classificação histórica e inédita do Bolívar às semifinais da Libertadores neste formato. Uma sensação de 20 anos atrás… Um sotaque norte-americano! Não é coincidência.

Em 1994 a seleção boliviana conseguiu um de seus maiores feitos ao se classificar para a Copa do Mundo nos Estados Unidos. La Verde já havia disputado os Mundiais de 1930 e 1950, mas em ambos foi convidada pela organização. Por isso, ir à Copa “dentro de campo” foi um marco, ainda mais porque naquele torneio a Bolívia conseguiu fazer seu primeiro ponto na história da competição ao empatar por 0 a 0 com a Coreia do Sul . A “conquista” veio nos pés de Etcheverry, Cristaldo e companhia, mas com o planejamento e execução de três figuras que estão no Bolívar 2014: Xabier Azkargorta, Guido Loayza e Marcelo Claure.

Guido Loayza é o presidente do clube de La Paz e era o presidente da Federação Boliviana de Futebol em 1994. Ao lado dele, estava Marcelo Claure, que trabalhava com o setor de marketing da seleção. Hoje, Claure, um bem sucedido empresário boliviano com carreira nos Estados Unidos, é o presidente da Bolívar Administración, Inversiones y Servicios Asociados, a empresa que efetivamente administra o clube. Claure e Loayza estão juntos desde 2008 à frente de La Academia, e de lá pra cá têm feito diversas tentativas para modernizar o clube e sair do lugar comum. Isso pode ser observado nos investimentos feitos na estrutura e no perfil dos treinadores que têm sido contratados.

Em 2009 o clube apostou no argentino naturalizado boliviano Gustavo Quinteros, que levou o time ao título do Apertura e pouco depois chegou à seleção nacional. Em 2011 o também argentino Ángel Guillermo Hoyos foi contratado após uma passagem exitosa pelo Barcelona B, onde trabalhou com Messi. Com Hoyos, La Academia venceu um torneio e chegou às oitavas de final da Libertadores demonstrando um futebol envolvente e com diversas jogadas ensaiadas fora do comum, como uma barreira própria nas cobranças de falta a favor, por exemplo. No biênio 2012-13 o espanhol Miguel Ángel Portugal trouxe mais do futebol europeu para a realidade boliviana e também convenceu atletas da própria Espanha a atuar no país. Foram os casos do meia Capdevilla e do atacante Callejón (irmão do jogador do Napoli), ambos formados na base do Real Madrid.

Em 2014 a aposta inicial em Maurício Soria não dava resultados e o dono do Bolívar, Marcelo Claure, decidiu reunir de novo a equipe que 20 anos antes havia colocado a seleção boliviana na Copa do Mundo. Em poucos dias ele convenceu o treinador espanhol Xabier Azkargorta a abandonar a seleção da Bolívia para treinar o clube. Vale lembrar que o técnico ficou de 2005 a 2012 sem treinar time algum (apenas desempenhando funções administrativas, entre elas a de embaixador do Real Madrid na América do Sul), e que a chegada à seleção e depois ao Bolívar foi bastante contestada.

Azkargorta, no entanto, sabia muito bem o que estava fazendo e embora em La Verde não tenha conseguido grandes feitos, foi capaz de mudar completamente o Bolívar dentro da Libertadores. Com ele o time adquiriu uma consistência invejável. Já são nove jogos sem derrota, seja jogando na altitude de La Paz ou ao nível do mar. As atuações não são fantásticas, o futebol não é vistoso, mas o técnico conseguiu formar um time compacto, aplicado e que vibra muito nas partidas, algo que só a figura de um dos treinadores mais exitosos da história do futebol seria capaz de aportar.

A chegada às semifinais da Copa Libertadores 2014 foi comemorada como um título, mas o clube obviamente quer ir além. E como tem sido praxe desde 2008 a administração pensa em soluções pouco comuns. Lembram daquela ideia de Beckham jogar com a camisa do Bolívar? Ela está de volta. Claure já disse que existe a possibilidade do Spice Boy atuar depois da Copa do Mundo com a camisa de La Academia. Por quê? Porque o empresário boliviano é amigo pessoal do inglês e tem ajudado o ex-jogador com consultoria para ele montar um clube e se tornar dirigente.

Quem sabe? Fato é que o Bolívar já mostrou que é muito, mas muito mais que altitude. É um dos times mais organizados da Copa Libertadores da América. Um time que sabe como jogar. Que não aposta apenas em bola aérea e desespero…. Que tenta achar soluções para problemas que os demais enfrentam com ideias antigas.

Foto de Anderson Santos

Anderson Santos

Membro do Na Bancada, professor da Unidade Educacional Santana do Ipanema da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), doutorando em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019).

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