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Há 25 anos, 120 mil tricolores viveram sua noite transformadora de Libertadores no Morumbi

A noite de 17 de junho de 1992 merece a reverência de todo e qualquer torcedor do São Paulo. A grandeza do clube, que os tricolores tanto gostam de exclamar, atingiu um novo patamar naquela ocasião. Após a vitória por 1 a 0 no tempo normal, o time de Telê Santana conquistou a Libertadores pela primeira vez, nos pênaltis. Bateu o Newell’s Old Boys de Marcelo Bielsa por 3 a 2, eternizando Zetti como um dos maiores goleiros de sua história. O ídolo voou no canto esquerdo para buscar a cobrança de Gamboa, decidindo a final no Morumbi abarrotado. O público que lotou as arquibancadas e a geral, aliás, é um elemento fundamental para compreender a importância daquele título no imaginário são-paulino. A multidão quantificou o desejo continental e permanece até hoje como exemplo maior da paixão.

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Ao longo de sua campanha na Libertadores de 1992, o São Paulo não levou públicos tão impressionantes ao Morumbi. Pelo contrário, a empolgação era contida, sem passar dos 22,5 mil pagantes por jogo até as semifinais – algo compreensível, em tempos nos quais o torneio continental era um mero adorno no calendário dos clubes, considerado menos importante que os estaduais e os nacionais. Assim, os tricolores só captaram o tamanho da oportunidade às vésperas da decisão. Apesar da derrota na ida, ninguém queria perder a ocasião. A chance de ver o time erguendo uma taça que não vinha ao Brasil desde 1983, ainda inédita aos paulistanos.

Segundo os registros da Conmebol, pela primeira vez um jogo de Libertadores superou os 100 mil pagantes. Ao todo, 105.185 torcedores empolgados gastaram os seus cruzeiros com os ingressos da decisão. A arrecadação, inclusive, quebrou o recorde do futebol brasileiro na época. E isso porque o número de presentes foi ainda maior. Extraoficialmente, são estimados 120 mil almas no Morumbi durante aquela noite – no que seria o maior público da história da competição continental. Dados que se tornam secundários quando se nota a explosão que ocorreu nas arquibancadas durante a conquista são-paulina.

A massa tricolor pôde se abraçar e completar a simbiose aos 21 minutos do segundo tempo, quando Raí converteu o pênalti sofrido por Macedo, dando o troco pela derrota em Rosário. Na disputa por pênaltis, quem estava na geral não conseguiu ver o Newell’s desperdiçar três de suas cinco cobranças, inclusive a derradeira, na qual Zetti voou para rebater o chute de Gamboa. Mas todos igualmente comemoraram a façanha, com uma invasão de campo gigantesca que marcou a história do Morumbi.

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Os tricolores fizeram de tudo para levar uma lembrança da conquista. Pegaram as redes, as bandeirinhas de escanteio, centenas de tufos de grama e até mesmo um dos bancos de reservas. Obviamente, não deixaram de poupar os seus ídolos, entre abraços e agradecimentos, buscando também uma peça qualquer do uniforme. Uma relíquia que servisse para atestar a presença na noite em que o São Paulo descobriu a América. Uma prova concreta que fizesse muitos são-paulinos acreditarem que todo aquele sonho era mesmo real.

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“Milhares de geraldinos invadem o campo. Comandam com os braços o pessoal preso lá em cima [nas arquibancadas]. Uns poucos levam cassetadas da polícia, mas ‘tudo bem’. Catam uns pedaços da grama para levar de lembrança. Um crioulo estende a bandeira, deita sobre ela, cruza as pernas e acende o cigarro. ‘Apaguem a luz que eu quero dormir’, brinca. Faz 13 graus e um ‘geraldino’ grita: ‘Foda somos nós, que lotamos essa merda'”, relata Mário Magalhães, em nota da Folha de S. Paulo publicada na época.

Por causa da multidão no campo, a cerimônia de premiação atrasou. Raí subiu em um pequeno pódio à margem para receber a taça, e a volta olímpica mal pôde acontecer, no mar de gente que tomava todos os cantos. Mesmo a saída dos jogadores aos vestiários foi demorada, entre os torcedores enlouquecidos que depois de um tempo deixariam o Morumbi, mas partiriam a outros pontos para a comemoração, invadindo também a Avenida Paulista e o Vale do Anhangabaú. Se alguém duvidava da importância da Libertadores, ela se expressava em forma de euforia. Nas lágrimas de Telê, pela glória que escapou durante anos.

Um ano depois, o São Paulo voltaria a faturar a Libertadores, goleando a Universidad Católica no jogo de ida em casa. E faria a sua terceira final consecutiva em 1994, apesar da derrota para o Vélez Sarsfield. Ou ainda completaria o seu tri em 2005, superando o Atlético Paranaense. Todavia, nunca mais o Morumbi provocaria uma erupção de pessoas na competição continental como a ocorrida na noite inédita. A noite inesquecível de todos os são-paulinos, mesmo aqueles que não a viveram. Afinal, eles sabem que o 17 de junho forjou muito do que se entende sobre o espírito tricolor.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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