América do Sul

Golaço valeu contrato na elite paraguaia a atacante amador que perdeu visão de um olho na infância

Mario Enrique Ricardo Centurión tem 28 anos. Não enxerga em um dos seus olhos. Defendia o Cristóbal Colón, da terceira divisão paraguaia, que abriga equipes amadoras. Para complementar a renda, ajuda a família a transportar verduras do mercado em Assunção a Julián Augusto Salvídar, cidade a 30 kms ao sul da capital. Na última terça-feira, a sua vida mudou. Em uma partida da Copa do Paraguai, contra o Cerro Porteño, Ricardo, atacante e capitão, fez um gol para a antologia, um candidato ao Prêmio Puskás. Viralizou na internet e se tornou a principal notícia dos jornais paraguaios. A repercussão valeu a pena: um contrato de dois anos com o Sol de América, da primeira divisão.

O Cerro Porteño vencia por 1 a 0, aos 20 minutos do primeiro tempo, quando Ricardo dominou na intermediária, deu um chapéu no adversário e, sem deixar a bola cair no chão, emendou um chutaço, no ângulo do goleiro. Conseguiu empatar a partida para o Cristóbal Colón, mas o Cerro acabou vencendo por 3 a 1. O gol foi tão bonito que torcedores já fazem campanha para que seja considerado pelo prêmio da Fifa, o que não é absurdo, considerando que Wendell Lira não apenas foi indicado como venceu com um tento marcado pelo Goianésia, no Campeonato Goiano.


Quando era criança, Ricardo brincava com um amigo que raspou o seu olho esquerdo com um lápis. Foi levado ao hospital, onde os médicos apenas taparam o ferimento. Alguns dias depois, havia perdido metade da sua visão. “A verdade é que lido bem com isso. Com o tempo, você se acostuma às suas limitações”, afirmou, em entrevista ao jornal paraguaio D10. A visão comprometida não o impediu de perseguir o sonho de ser jogador de futebol, e ele começou como goleiro, ao mesmo tempo em que vendia tomates com o primo no Mercado Municipal de Assunção. “Comprávamos tomates de madrugada e vendíamos no mercado porque, durante o dia, eu treinava e fazia outras atividades”, acrescentou.

Ricardo, ou Henry, seu apelido, transitou para o setor ofensivo do futebol e fez a sua carreira no futebol amador. Com muitas dificuldades. “É difícil jogar na nossa categoria. Não há muito dinheiro para viver disso, mas graças ao presidente (do Cristóbal Colón, David Sánchez) sempre nos sentimos profissionais”, disse. A trajetória o levou a enfrentar o grande Cerro Porteño, justamente o time para o qual torce. Depois da atuação na Copa do Paraguai, quando também colocou uma bola na trave e criou boas chances, recebeu os parabéns dos jogadores do Cerro Porteño e deixou sua mensagem de incentivo: “Espero que passemos do Palmeiras! Temos que passar”. As duas equipes enfrentam-se nas oitavas de final da Libertadores.

Mais do que qualquer prêmio em Zurique, a maior recompensa para Ricardo foi o contrato de dois anos com o Sol de América, que comprou 50% dos seus direitos econômicos. “Além do gol, o que mais nos chamou a atenção foi a sua entrega, a dedicação. Esperamos que os jogadores do Sol tenham essa entrega. No Sol, a atitude não se negocia”, disse o presidente do clube Miguel Figueiredo. Ricardo admitiu que, se entrar em forma, pode jogar ainda melhor. E, agora, ele pode se dedicar apenas ao futebol.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.
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