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Galo e São Paulo foram batizados juntos na Libertadores, e com a bênção de lendas uruguaias

Atlético Mineiro e São Paulo se cruzam pelas quartas de final da Libertadores como velhos conhecidos. Afinal, os brasileiros já se enfrentaram oito vezes na história da competição. A memória está fresca quanto aos quatro jogos de 2013, sobretudo a dos atleticanos, quando o Galo eliminou os paulistas nas oitavas e arrancou para o título inédito. Em 1978, um ano após a polêmica final do Brasileiro entre as equipes, o Atlético deu o troco ao ganhar um jogo e empatar outro, deixando os tricolores pelo caminho na fase de grupos. No entanto, olhando para trás, o encontro em 1972 tem um valor especial. A partida no Mineirão marcou o batismo de atleticanos e são-paulinos na Libertadores, estreantes naquela edição. E ambos se apoiaram na tarimba de lendas uruguaias para o torneio sul-americano.

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Ladislao Mazurkiewicz, Pedro Rocha e Pablo Forlán são verdadeiras bandeiras da seleção uruguaia. Juntos, somam 11 Copas do Mundo no currículo, formando a espinha dorsal do bom time que a Celeste contava entre as décadas de 1960 e 1970. Mais do que isso, o trio também desempenhou papel fundamental na terceira conquista do Peñarol na Libertadores. Todos estavam em campo nas três partidas das finais de 1966, contra o River Plate. Pedro Rocha, inclusive, apareceu de maneira decisiva no mítico jogo-desempate no Estádio Nacional de Santiago, quando os Millonarios venciam por dois gols de vantagem até o segundo tempo, mas tomaram a virada por 4 a 2. O camisa 10 marcou o tento que sacramentou o triunfo carbonero, já na prorrogação.

Forlán foi o primeiro a chegar ao Brasil, levado pelo São Paulo em abril de 1970. Já depois da Copa do Mundo, Pedro Rocha desembarcou no Morumbi como um grande negócio tricolor. Juntos, porém, não conseguiram ajudar os são-paulinos a fazerem frente ao Atlético Mineiro no triangular decisivo do Brasileirão de 1971. Sem o camisa 10, o São Paulo acabou derrotado pelo Galo de Telê Santana: 1×0 no Mineirão, tento de Oldair. Ainda assim, ambos se classificaram pela primeira vez à Libertadores. E, pensando na competição continental, os mineiros buscaram Mazurkiewicz, lenda do Peñarol e de grandes atuações na Copa de 1970.

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No Morumbi, Forlán e Pedro Rocha apontavam que a Libertadores era o caminho para o São Paulo se afirmar internacionalmente. “A não ser no Brasil, pouca gente sabe o que é o São Paulo, que tem o maior estádio particular do mundo, que seu patrimônio é muito grande. No Uruguai mesmo, que é aqui perto, o São Paulo só ficou comentado depois que eu e o Pablo viemos para cá. Antes, só falavam do Santos, do Palmeiras e um pouco do Corinthians”, declarou Pedro Rocha, em entrevista ao Estado de S. Paulo em janeiro de 1972.

Já em Minas, Mazurkiewicz colocava a serviço do Atlético a sua experiência na Libertadores. De quem já conhecia muito bem todas as características e desafios da competição. “Para ganhar o título, o time tem que ter grandes jogadores e, acima de tudo, muita raça. Nunca um time ruim ou frio a ganhou. Ela deve ser disputada com técnica e muito coração. E o que torna a Libertadores ainda mais difícil é o sentimento nacionalista que toma conta dos jogadores. A rivalidade passa dos limites esportivos. O jogador fica motivado pois sabe que não está defendendo apenas o seu clube, mas o nome do futebol de seu país. Daí as disputas e os problemas surgem”, analisou ao Estadão. “Não pensem o Atlético e o São Paulo que vão encontrar facilidades não. Por mais fracos que pareçam os adversários, eles sempre vão dar trabalho”.

A estreia aconteceu em um domingo, diante de 30 mil espectadores no Mineirão – e sem Mazurkiewicz, com Renato defendendo a meta do Galo. O São Paulo parecia pronto para a vitória ao abrir dois tentos de vantagem. Terto inaugurou a conta aos cinco minutos, enquanto uma pane geral na defesa atleticana permitiu que Toninho Guerreiro anotasse o segundo, na etapa complementar. No entanto, a equipe de Telê Santana mostrou poder de reação para buscar o empate em 2 a 2. Aos 31 do segundo tempo, Wanderley acertou um chutaço de fora da área, enquanto Dadá Maravilha definiu o placar sete minutos depois, com uma de suas famosas cabeçadas. A partida ainda ficou marcada pela lesão de Teodoro, que fraturou a perna após entrada violenta de Humberto Ramos.

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Já no reencontro, as duas equipes foram cautelosas demais e não saíram do 0 a 0 no Morumbi. Uma das atrações da noite, Mazurkiewicz nem precisou trabalhar tanto, mas fez defesas importantes para manter o placar zerado. Era forçado principalmente por Pedro Rocha, destacado pelos jornais como o melhor em campo. Dando demonstrações de sua técnica, o camisa 8 levava perigo principalmente nas bolas paradas, tão conhecidas por seu velho companheiro.

No fim, a profecia de Mazurkiewicz se fez real. O Atlético Mineiro caiu na fase de grupos, acumulando cinco empates. E acabou se metendo em confusão na visita ao Olímpia, em jogo abandonado quando o placar apontava 2 a 2, depois que cinco atletas brasileiros foram expulsos. O São Paulo, por sua vez, teve vida um pouco mais longa. Avançou na única vaga de classificação oferecida pela chave, quando, então, não resistiu à força do esquadrão do Independiente no triangular semifinal. As lições do trio uruguaio só foram assimiladas pelos clubes anos mais tarde. E, no caso dos tricolores, justamente com o velho comandante do Atlético se consagrando como o maior mestre de sua história.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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