América do Sul

“Foi o grito de todo o país”: Como Rincón se erigiu como um herói nacional na Colômbia

Recontamos a trajetória de Rincón desde as ruas de Buenaventura até o reconhecimento como uma lenda do futebol colombiano

“O país esperava muito de nós e tínhamos que dar uma alegria nesse momento. Queria que as pessoas se sentissem orgulhosas de nós”. Em tempos sombrios na Colômbia, de cotidiano sangrento e domínio do narcotráfico em diversas cidades, o futebol serviu de alento. A classificação dos Cafeteros para a Copa do Mundo de 1990, com um futebol leve, se tornava a antítese do noticiário e a representação lúdica de uma população feliz em sua essência. Aquela campanha no Mundial teve dificuldades e o risco palpável de uma eliminação precoce. Isso até que um empate contra a Alemanha Ocidental acendesse o orgulho colombiano, pela atuação deslumbrante e também pelo gol arrancado no fim para dar a vaga nas oitavas. Freddy Rincón, o dono das aspas que abrem o texto, foi exatamente o responsável por proporcionar essa alegria, ao balançar as redes.

Rincón carregaria esse gol para sempre. Foi um craque e colecionou títulos numa carreira respeitadíssima, em especial no Brasil, mas foi na Colômbia que o meio-campista experimentou a gratidão de seus compatriotas, por permitir o estalar daquela euforia com um lance inesquecível que o acompanhou por toda a vida. “Foi o grito de todo o país. Algumas vezes me comovo muito. Em outras, quando estou sozinho, algumas lágrimas caem. Esse foi o gol mais importante da minha carreira”, refletiria, anos depois. “Até hoje me encontro com pessoas que me dizem que bateram a cabeça no teto, que quebraram uma lâmpada, que romperam a televisão, que gritaram como loucos, que choraram…”

Nesta quinta-feira, a Colômbia se despede de Freddy Rincón. Aos 55 anos, o veterano não resistiu aos ferimentos causados por um acidente de automóvel em Cali. As homenagens são muitas e honram a história de um ídolo nacional. Será eterna sua memória, a imagem de seus grandes lances e o eco daquele grito de gol. Rincón é maior para os colombianos do que seu talento pode sugerir, porque aquele inoxidável tento proporcionou um sentimento nacional que mais de três décadas depois segue unindo sua gente.

Como tantos outros colombianos, Rincón apaixonou-se pelo futebol cedo. A inspiração para se tornar jogador veio de casa. Freddy Eusébio Gustavo Rincón Valencia era o mais novo de oito irmãos, sete deles homens. A família era conhecida no futebol amador de Buenaventura, cidade portuária na costa do Pacífico, a algumas dezenas de quilômetros de Cali. Manuel Rincón chegou a enveredar pelo profissionalismo antes de Freddy, enquanto Ignacio Rincón atuou até pelas seleções de base. De qualquer maneira, o ídolo do garoto era mesmo Rafael Rincón, zagueiro de muita qualidade técnica. Uma lenda urbana, inclusive, circunda os Rincón: diziam nas ruas de Buenaventura que o craque da família era Rafa, não Freddy. Porém, apenas um se tornaria conhecido como ‘El Coloso de Buenaventura’, e foi o caçula.

“A qualidade de Rafa ninguém mais tinha na cidade. Ele sabia tudo, tinha um domínio incrível, cobrava faltas como os deuses, chutava com as duas pernas, era um zagueiro de nível mundial. Porém, não chegou longe porque foi trabalhar no porto para botar comida em casa. Pagavam melhor lá do que nos campos”, contaria Freddy Rincón, em entrevista à Revista Bocas, publicada em 2013. “Quando criança, queria ser como Rafael. Então, nunca sonhei em ser como outro jogador. Por mais estranho que soe, eu queria ser Freddy Rincón. E isso foi porque tudo estava indo muito bem, eu estava jogando cada vez melhor”.

Freddy começou a frequentar desde cedo os campos de Buenaventura para acompanhar os irmãos. Era um mascote do clube La Abeja, onde jogavam os mais velhos, e acompanhava de perto as partidas. Por vezes, também se aventurava no gramado, mas acabava tomando um baile dos outros Rincón que não facilitavam ao menino. Não só isso, igualmente o ensinavam. Da mesma forma que aplicavam canetas no futuro craque, apresentavam outros segredos para se tornar mais técnico e habilidoso. O caráter do jogador da seleção se moldava ali: a dureza e o refinamento.

“Desde menino comecei a me impor fisicamente. O que acontece é que sempre joguei no meu quarteirão com os mais velhos, que eram meus irmãos. E, na rua, você tem que fazer isso porque, se há um descuido, você acaba enfiado na janela da casa do vizinho, numa daquelas grades pontudas. Desde então, comecei a olhar os espaços, a pressentir quem vem, quem vai, olhar para trás, perceber ao redor, colocar o braço, colocar a perna firme. Isso se aprende na rua. Fui muito baixinho até os 15 anos. Então, meus irmãos me motivaram muito a me levantar, para eu não chorar. Diziam que, se me batessem, que eu devolvesse. E nunca chorei. Depois dos 15 anos, me desenvolvi. E aí sim…”, relembrou Rincón, também à Revista Bocas.

O craque, aliás, não atribuía apenas à genética a sua força física. Tinha algo também de caráter: “Tive um par de tios fortes, mas com meus irmãos jogávamos duro e acho que isso nos fez assim. Como não tinha dinheiro para o transporte, todos os filhos tínhamos que buscar madeira para reconstruir a casa onde vivíamos. Então, voltávamos caminhando quilômetros com tábuas nas costas. Assim, no bairro perceberam que os irmãos Rincón faziam essa volta e, a pé, trazíamos cargas de madeira, tijolo e cimento. Era mais barato para as pessoas. Nós construímos nossa casa no lombo. E teve a ver com alimentação. Minha mãe ganhava a vida fazendo frituras, arroz com leite e muitas vezes foi cozinheira nos eventos do bairro. Então, em casa, apesar da pobreza, sempre teve comida saborosa”.

O começo de Rincón aconteceu, como era de se esperar, no futebol amador de Buenaventura. O garoto tinha 14 anos quando se juntou a um time chamado El Capricho. Por lá começou a treinar e a disputar jogos nos intervalos do campeonato de várzea local. Freddy aproveitava o palco para mostrar sua habilidade, com canetas e chapéus, em busca do reconhecimento. No início dos anos 1980, até vislumbrava a Copa de 1986 como objetivo. A bola era a obsessão do adolescente, que “jogava de sete da manhã às dez da noite, sem parar, todos os dias”.

Rincón rodou pelo futebol de Buenaventura durante a adolescência. Defendeu depois o Tequendama, até chegar ao Atlético Buenaventura, sua ponte aos grandes clubes do país. Os traços do craque já estavam presentes ali e a fama do irmão menor da família de jogadores rodava pela cidade. Na época, Tomás, outro dos irmãos mais velhos, era quem gerenciava a carreira em ascensão. Não demorou para que surgissem oportunidades em testes. Freddy primeiro passou por uma peneira no América de Cali, grande potência da Colômbia e um dos times mais fortes da América do Sul nos anos 1980. Contudo, a concorrência era tão acirrada que o novato mal foi observado. Isso até que ele rumasse a Bogotá, para o Independiente Santa Fe.

O dono do Atlético Buenaventura tinha contatos no Santa Fe e levava alguns garotos para treinar com os Cardenales. O trânsito tinha beneficiado outros irmãos da família Rincón, já que Ignacio e Manuel passaram pelos alvirrubros. A partir de 1986, Freddy se juntou de vez às categorias de base e passou a viver na capital. O menino potente e habilidoso chamava atenção nos treinamentos, jogando como zagueiro ou meio-campista. Jorge Luis Pinto, que tempos depois dirigiria a seleção colombiana e faria história à frente da Costa Rica na Copa de 2014, era o comandante do Santa Fe na época. Logo pinçaria o jovem para o time principal, ao receber também a recomendação do lateral esquerdo William Morales, símbolo do clube que igualmente notou o enorme talento.

A estreia de Rincón pelo Independiente Santa Fe, num jogo contra o Atlético Bucaramanga em 1987, tinha tudo para queimar seu filme. O rapaz de 21 anos saiu do banco tão motivado que, numa disputa pelo alto, deu um encontrão no adversário e recebeu o vermelho direto. Apesar de tudo, Jorge Luis Pinto seria bastante compreensivo e não desperdiçaria a promessa por excesso de vontade. Continuou dando chances e, um mês depois, entregou a camisa de titular ao jovem. Marcou dois gols contra o Junior de Barranquilla. Depois disso, El Coloso de Buenaventura nunca mais saiu do time.

“Jorge Luis Pinto me deu caráter. Ele me ensinou que, para conseguir algo na vida, é preciso trabalhar duro. Também me treinou como nenhum outro técnico. Ele conseguiu tornar realidade o que me dizia que seria, que ia ser um dos grandes jogadores da Colômbia e, por que não, da América. Creio que algo fiz para que isso fosse certo”, diria Rincón, em entrevista ao Win Sports. “Eu me diverti muito jogando em Santa Fe. Jogava muito livre, muito relaxado”.

Jorge Luis Pinto foi importante para incutir essa confiança em Rincón e também ensinar seu trabalho tático minuciosamente. Enquanto isso, dava liberdade para que seu futuro craque deslanchasse com muitos gols, em posições mais ofensivas. O Independiente Santa Fe faria campanhas interessantes no Campeonato Colombiano em 1987 e 1988, com uma equipe agressiva, que chegaria a brigar pelo título. Aquelas temporadas, todavia, foram dominadas pelo rival Millonarios. Pior, foram influenciadas diretamente pelo narcotráfico, que usava os clubes para lavar dinheiro e servir de brinquedinho particular dos chefões. Escândalos de arbitragem e ameaças eram o padrão. “Não fomos campeões porque não nos deixaram. Roubaram muito nosso time, essa é a verdade. O título de 1988 era nosso, mas, infelizmente, o apito amigo não deixou”, refletiria Rincón.

Rincón permaneceu no Independiente Santa Fe até o segundo semestre de 1989, quando conquistou a Copa Colômbia. O reconhecimento maior por sua fase seria dado pelo América de Cali, o mesmo que tinha ignorado o adolescente anos antes. O técnico Gabriel Ochoa Uribe, lendário comandante dos escarlatas, se encantou com o futebol do prodígio e o levou para Cali numa barca de contratações que visava a conquista da Libertadores. Depois do título do Atlético Nacional naquele ano de 1989, os Diabos Vermelhos necessitavam de uma resposta, ainda mais também fomentados pelo dinheiro do narcotráfico. Independentemente do contexto sombrio, a transferência representava um salto importante à carreira do jovem de 23 anos, não apenas pensando nos clubes, mas também na seleção.

A estreia de Rincón com a seleção da Colômbia aconteceu em 1988, durante um torneio amistoso para celebrar os 450 anos de Bogotá. O técnico Francisco Maturana, no entanto, considerava o prodígio muito tímido. Não o chamou mais em 1989, vendo de casa a Copa América e a classificação para a Copa do Mundo após um hiato de 28 anos. A chegada ao América de Cali representava o amadurecimento do garoto e o treinador cedeu, incluindo a novidade nos amistosos preparatórios ao Mundial de 1990. Foi quando deslanchou. A partir de fevereiro de 1990, Rincón emendou uma sequência de aparições com os Cafeteros – e como titular.

Rincón agarrou a oportunidade na seleção colombiana, mesmo com a forte concorrência. Disputava posição com Bernardo Redín e Luis Alfonso Fajardo por um lugar na meia. Maturana deu um jeito de usar o Coloso de Buenaventura como atacante, para aproveitar melhor sua explosão e sua chegada. Pior a Alexis Mendoza, capitão do Atlético Nacional campeão da Libertadores, que perdeu espaço nas convocações durante esta reta final. Rincón justificou tal predileção repentina com gols, balançando as redes de Hungria e Egito às vésperas do Mundial da Itália. Seria nome certo no 11 inicial dos Cafeteros.

“A ida para Cali me abriu as portas da seleção. Era o mais novato e, graças aos gols e boas atuações nas partidas de preparação na Europa, tive a oportunidade de entrar no grupo e ganhar a posição”, relembrou Rincón, em entrevista ao jornal El Espectador. Rincón vestiria a camisa 19 da Colômbia no Mundial, compondo a linha de frente ao lado de Arnoldo Iguarán, veterano que era a principal referência do ataque dos Cafeteros ao longo dos anos 1980.

A estreia da Colômbia na Copa de 1990 não seria tão empolgante assim. A equipe de Pacho Maturana venceu Emirados Árabes Unidos por 2 a 0, mas sem causar tanto encanto. Os emiratenses geraram perigo em diversos momentos e o resultado seria arrematado apenas no fim. Rincón, em particular, desperdiçou boas chances de fazer um placar mais confortável. Já diante da Iugoslávia, na segunda rodada, os colombianos perderam por 1 a 0. Os Cafeteros de novo não convenceram, mas Rincón agradaria um pouco. Como avaliou o Jornal dos Sports: “Rincón foi o único que criou jogadas de perigo ao gol iugoslavo. Embora isolado, lutou muito tentando abrir espaços na defesa adversária”.

Na rodada final, a Colômbia teria seu jogo mais difícil, contra a embalada Alemanha Ocidental, que vinha de duas goleadas nas partidas anteriores. A derrota eliminaria os Cafeteros precocemente. E, diante da falta de rendimento, Maturana faria alterações no ataque. Preferiu barrar o tarimbado Iguarán e manteve Rincón como aposta na linha de frente, ao lado de Carlos Estrada. Uma escolha que se pagaria com o gol mais lembrado dos colombianos em Copas do Mundo.

“O momento era delicado. Tínhamos que ganhar ou, na pior das hipóteses, empatar com um gigante como era a Alemanha. Todo mundo dizia que iam golear e isso, em vez de nos assustar, nos fez crescer muito mais e nos deu força para enfrentá-los olho no olho”, recontou Rincón, ao El Espectador. “Maturana sempre quis nos transmitir ânimo e confiança em nosso futebol, nosso estilo. Queríamos fazer que a Alemanha trabalhasse como não tinha feito contra as outras equipes. Queríamos demonstrar que, contra nós, não teriam as coisas fáceis”.

“O ambiente na equipe era muito bom. Tínhamos treinado bem e pensar em tudo o que tínhamos feito para chegar ali nos fez manter a calma. Por minha parte, dormi muito tranquilo. Confiava que íamos conseguir um bom resultado e pensava que era uma partida que podia significar nossa consagração”, complementou. E estava certíssimo.

Aquela partida poderia ter uma história menos dramática para a Colômbia. A Alemanha Ocidental até começou melhor e parou em René Higuita, mas os Cafeteros cresceram no meio da primeira etapa e perderam ótimas chances de abrir o placar. Em uma delas, Rincón fez um carnaval pelo lado esquerdo e passou por três, antes de cruzar na medida para Estrada, que cabeceou por cima. Durante a segunda etapa, os colombianos recuaram e os alemães martelaram. Teriam uma bola no travessão, até que o gol saísse aos 43, numa pancada de Pierre Littbarski no ângulo.

Neste momento, a Colômbia se despedia da Copa do Mundo e tinha pouquíssimo tempo para se salvar com o empate. O placar no San Siro, porém, acabaria em 1 a 1. E a classificação colombiana saiu aos 47, num lance que apresentou o melhor do futebol ofensivo pedido por Maturana. A troca de passes começou ainda no campo de defesa, orquestrada por Carlos Valderrama. Rincón participou do início, antes de se projetar numa avenida pela direita – em buraco facilitado pelo desfalque de Andreas Brehme do lado alemão.

Valderrama aludiu que tocaria para a esquerda, mas seu radar detectou Rincón na direita e para lá seguiu seu presente. O camisa 19 recebeu o passe açucarado e conduziu com suas passadas largas. Diante de Bodo Illgner, o craque escolheu o caminho mais curto até as redes: por entre as pernas do goleiro. A emoção do atacante na comemoração é uma das cenas mais emblemáticas do futebol colombiano. É a fotografia de um sentimento. O próprio Franz Beckenbauer, técnico alemão, admitiu depois que abriu um sorriso depois do gol. Imagine então como estavam os Cafeteros.

“A emoção que sinto não dá para contar. É uma alegria muito grande”, declararia o jovem Rincón, depois da partida, segundo o Jornal do Brasil. “Foi o gol mais importante da minha vida. Quando recebi a bola, levantei a cabeça e vi que o goleiro alemão fechava o meu ângulo. Mas ele saiu com as pernas muito abertas e chutei nessa direção, rezando para que entrasse”. O atacante ganhou nota 9 segundo a avaliação do jornal O Globo: “Herói do jogo ao marcar o gol de empate e que garantiu a classificação de seu time. Também muito veloz e habilidoso, se colocou em excelente posição para receber o passe de Valderrama e mostrou inteligência ao tocar entre as pernas do goleiro alemão”.

Anos depois, ao jornal El Espectador, Rincón detalhou o entendimento com Valderrama, a quem considerava seu melhor amigo no futebol: “Nunca sentava com Pibe para falar das jogadas que íamos fazer, ou de ações em campo. Havia um entendimento tremendo de partida após partida, com um olhar já sabíamos o que fazer. Ele entendia como era que eu gostava de jogar. Mesmo que nessa jogada ele estivesse virado para o outro lado, segui correndo e acompanhando o lance. Quando recebi, me passaram um montão de coisas pela cabeça. Tive três, quatro opções para definir, mas foi o próprio goleiro quem me deu a oportunidade. Quando saiu na minha frente, saltou com as pernas abertas e, como por instinto, defini por baixo, era a única maneira que poderia fazer o gol”.

Já Valderrama, ao jornal El Heraldo, confessava também o carinho que tinha por aquele momento. Mais pela festa posterior do que pela jogada em si: “O gol de Freddy vejo de tempos em tempos, mas sempre há emoção. O mais bacana foi a comemoração, todos fomos abraçar Freddy. Foi uma tremenda emoção”. Junto com os 11 em campo, milhares de pessoas saíram às ruas para festejar na Colômbia. Eram tempos de medo no país, mas a satisfação pela seleção se sobrepunha a tudo. Rincón era um novo herói nacional.

A alegria da Colômbia seria frustrada nas oitavas de final, com a derrota para Camarões por 2 a 1 na prorrogação, mais lembrada pela falha clamorosa de Higuita diante de Roger Milla no segundo tento dos Leões Indomáveis. O que poucos se lembram é que os Cafeteros foram melhores durante o primeiro tempo e poderiam ter matado o jogo antes. Rincón ficou a milímetros de marcar um dos gols mais bonitos daquele Mundial. Cobrou uma falta potente pelo lado esquerdo da área e a bola, caprichosa, estalou a forquilha da meta do estático Thomas N’Kono, exatamente na junção da trave com o travessão. No fim, o camisa 19 ainda atuou recuado no meio e tentou puxar a equipe, sem sucesso.

Rincón se despediu da Copa de 1990 com uma campanha mais curta do que a Colômbia gostaria. Porém, as portas no país estavam abertas ao seu talento. Foi quando o craque se consolidou como o principal jogador do América de Cali. O meia participou de seus primeiros títulos no Campeonato Colombiano, ao conquistar a competição em 1990 e 1992. Uma das vítimas favoritas de Rincón era o rival Deportivo Cali, curiosamente seu time de infância. Mesmo em tempos tão tensos no país, o astro admitia que torcia para os alviverdes. O que não o impedia também de maltratar os vizinhos, com 12 gols no dérbi. O gol mais bonito de sua carreira, segundo suas próprias palavras, foi um chutaço de calcanhar no clássico.

Ao Win Sports, anos depois, Rincón indicava até certa mágoa com o Deportivo Cali: “Fui torcedor porque meu pai me impôs, mas depois que comecei a jogar com o América eu me arriscava muito. Dizia que era torcedor do Deportivo jogando no América e sempre me arrisquei. Nunca o Deportivo Cali reconheceu isso e me renegam como se eu fosse um inimigo deles. Mas era a minha vítima preferida, fazia gols de todas as formas”.

Aquele América de Cali também ganharia destaque na Libertadores, primeiro na edição de 1992, quando os Diabos Vermelhos eliminaram Universidad Católica e Atlético Nacional, sucumbindo apenas nos pênaltis diante do Newell’s Old Boys nas semifinais. Rincón tinha feito gols nos dois jogos contra o Atlético Nacional nas quartas. Já em 1993, o América passou por Bolívar e Sporting Cristal, parando de novo nas semifinais contra a Católica. Ainda na fase de grupos, Rincón fez gols diante de Flamengo e Internacional, com direito a uma atuação de gala na vitória dos escarlatas por 3 a 1 dentro do Maracanã.

Paralelamente, Rincón também fazia muito sucesso com a seleção da Colômbia. Esteve entre os destaques no time que terminou com a quarta colocação na Copa América de 1991, inclusive derrotando o Brasil na fase de grupos. Depois, terminaria em terceiro na Copa América de 1993. A Argentina foi a pedra no sapato durante a campanha. As duas equipes empataram por 1 a 1 na fase de grupos, com gol de Rincón. Já na semifinal, o empate por 0 a 0 levou à decisão por pênaltis. Freddy até converteu o primeiro, mas a Albiceleste ganharia por 6 a 5. A doce vingança ficou para meses depois, nas Eliminatórias.

O próprio Rincón admitia que a seleção da Colômbia da Copa de 1994 era melhor que a responsável pelo encanto em 1990. E isso se provou nas Eliminatórias. Os Cafeteros empataram com o Paraguai, antes de vencerem o Peru por 1 a 0, gol de Rincón. Depois vieram os 2 a 1 sobre a Argentina em Barranquilla e o 1 a 1 com o Paraguai em Assunção, com mais um gol de Rincón. Após os 4 a 0 sobre o Peru em casa, com Freddy deixando sua marca de novo, a classificação seria jogada contra os argentinos, em Buenos Aires, dentro do Monumental de Núñez. O jogo mais célebre das Eliminatórias na América do Sul teria um show do esquadrão de Pacho Maturana, com a goleada por 5 a 0. Rincón estava particularmente inspirado e fez dois gols.

Rincón cravou a primeira estaca na Argentina, no fim do primeiro tempo. Valderrama, sempre ele, encontrou o companheiro em disparada pela direita. Com um tapa no domínio, o meio-campista escapou da marcação e saiu de frente com Sergio Goycochea. Desta vez não teve chute por entre as pernas, mas sim drible no arqueiro antes de tocar às redes vazias. Outro golaço histórico. A imposição colombiana não pararia nisso. Faustino Asprilla ampliou e o terceiro gol da equipe foi de Rincón, pegando de primeira o cruzamento de Leonel Álvarez e contando ainda com um desvio. A classificação praticamente se sacramentava ali. Não a goleada, que ainda contou com novos tentos de Asprilla e Adolfo Valencia.

“A melhor sensação foi quando o jogo terminou e a torcida argentina começou a nos aplaudir. Sabemos como são os argentinos e escutá-los nos reverenciando foi maravilhoso”, relembrou Rincón, à Placar, anos depois. “As discussões com argentinos sempre aconteceram, palavras ofensivas, mas isso acabou nos motivando mais a fazer gols. Em nenhum momento abaixamos o moral, queríamos jogar ainda mais”.

Mais portas se abriram a Rincón neste momento. E o América de Cali, que tantas vezes impediu a venda de seu craque por ordens dos narcotraficantes, aceitou negociá-lo. O Boca Juniors esteve a ponto de assinar com o meia, mas os escarlatas desistiram da venda. Isso até que o Palmeiras, no auge da Era Parmalat, fechasse com o reforço em outubro de 1993. Freddy ainda terminou a temporada com os Diabos Vermelhos no Campeonato Colombiano e passou perto de mais um título, em desfecho emocionante da liga que coroou o Junior de Barranquilla. Sua grandeza no Pascual Guerrero, de qualquer maneira, estava gravada com letras douradas.

A chegada de Rincón ao futebol brasileiro era bastante representativa naquele momento. Enquanto conquistava seu espaço no Palmeiras, campeão paulista no primeiro semestre de 1994, o meio-campista permaneceu como um nome imprescindível da seleção colombiana às vésperas da Copa do Mundo. A empolgação com um possível sucesso dos Cafeteros, contudo, acabaria manchada pelo medo. A violência do país se estendia à equipe nacional. O próprio Rincón viveu isso muito de perto, em março de 1994. Seu irmão mais velho, Armando, foi assassinado na porta de casa em Buenaventura. Segundo a polícia, a vítima acabou alvejada por quatro tiros quando chegava em casa. A motivação não chegou a ser esclarecida na época.

A pressão sobre a Colômbia, com ameaças contra o próprio time antes da Copa de 1994, certamente era ainda mais pesada a Rincón nesse contexto. Às vésperas da competição, ele chegou a se consultar com um bruxo, que disse coisas negativas. Previu a eliminação precoce e inclusive que uma lesão grave poderia acontecer. “Nunca chegamos pensando que íamos ser campeões, mas estávamos esperançosos por aquilo que aconteceu antes. Porém, recebemos ameaças na concentração, alguns jogadores não estavam concentrados no objetivo, coisas estranhas se passaram e muitos de nós não soubemos manejar tudo isso”, recordou à TyC Sports.

Rincón foi titular nas três partidas da Colômbia na Copa de 1994. Não evitou o desastre, com um time claramente tenso em campo e abusando dos erros. As derrotas para Romênia e Estados Unidos nas duas primeiras partidas encaminharam a eliminação, enquanto a vitória sobre a Suíça não providenciou mais a salvação. As ameaças logo viriam à tona e, semanas depois, a morte de Andrés Escobar transformaria aquele capítulo em tragédia. Rincón teria atuações discretas ao longo do Mundial, com um pouco mais de destaque diante dos suíços, mas nada que aliviasse. Ao menos, sua imagem como símbolo da seleção estava sacramentada além da decepção.

Ainda durante a Copa, Rincón deixou o Palmeiras e foi anunciado como reforço do Napoli, em negócio articulado pelo Parma por conta da parceira com a Parmalat. Jogando novamente no ataque, o colombiano fez uma boa temporada na Serie A. O que mantinha sua importância na seleção. A Copa América de 1995 foi a melhor de Rincón, que anotou três gols na campanha, inclusive no empate por 1 a 1 com o Paraguai nas quartas de final, com a classificação nos pênaltis. As semifinais voltariam a ser uma barreira para os Cafeteros, que ficaram com o bronze.

Rincón se tornou, em 1995, o primeiro colombiano a defender o Real Madrid. Lidou com o racismo e jogou pouco, com problemas internos, antes de voltar emprestado ao Palmeiras em 1996. Já em 1997, trocaria de lado na rivalidade ao ser comprado pelo Corinthians, onde se firmou como um volante histórico e um símbolo do clube. A boa forma com os alvinegros manteve sua reputação às vésperas da Copa de 1998, a terceira de sua carreira. O veterano participou de quase toda a campanha nas Eliminatórias e contribuiu com um gol diante da Bolívia, em classificação segura dos Cafeteros, garantida por antecipação.

Com um time envelhecido, a Colômbia seria coadjuvante na Copa de 1998. Até ganhou da Tunísia, mas as derrotas para Romênia e Inglaterra abreviaram a campanha. Rincón também não teria destaque particular como em 1990. E aquele fim de ciclo marcou a despedida do meio-campista, às vésperas de completar 32 anos, dos Cafeteros. A ideia era se concentrar no Corinthians, com o qual logo empilharia taças naquela prolífica virada de século. A forma do craque no clube, todavia, o faria mudar de ideia e voltar à seleção. Rincón disputaria cinco partidas das Eliminatórias para a Copa de 2002, sem evitar a queda dos colombianos. Seu último jogo pela equipe nacional aconteceu em junho de 2001. Não chegaria a jogar a Copa América daquele ano em casa, finalmente conquistada pelo país.

“Foi uma tristeza imensa deixar a seleção. Foi duríssimo por tudo o que deixei lá. E foi Maturana, o mesmo que me levou no começo, quem me tirou. Isso foi duro porque tínhamos um passado e ele, principalmente, construiu esse passado conosco. Creio que poderia manejar as coisas melhor: ele me chamou para uma partida e me dispensou. Nunca mais voltei a falar com Maturana. Não terminamos brigados, mas não gostei disso”, relembrou, à Revista Bocas.

Rincón se despediu da seleção com 84 partidas disputadas e 17 gols marcados. Esteve presente em três Copas do Mundo e três Copas América. E o restante de sua carreira como jogador seria vivido no Brasil. Os compatriotas certamente se orgulhariam dos títulos no Brasileirão e principalmente do Mundial de Clubes faturado como capitão. Apelidado de “Pelé” na juventude, Freddy passou depois pelo Santos, sem tanto impacto. Também defendeu o Cruzeiro. O Brasil se tornaria sua casa inclusive depois da aposentadoria e na empreitada curta como treinador.

Em 2012, Rincón ensaiou um retorno ao América de Cali. E não do lado de fora: queria ajudar o clube onde foi ídolo dentro de campo, diante do drama na segundona. O veterano, então com 46 anos, dizia que estava em boa forma e poderia contribuir com os escarlatas. Não passou da vontade, até pelos empecilhos de retornar à Colômbia, investigado pelo envolvimento com o narcotráfico. O craque chegou a passar quatro meses preso no Brasil em 2007, a pedido do Panamá, e teve seus bens embargados, até finalmente ser inocentado em 2016.

De volta à Colômbia, Rincón era tratado com reverência no país. Os compatriotas reconheciam um dos maiores talentos que o futebol local produziu, um símbolo da força e da qualidade. Mas, acima disso, se lembravam do terremoto que aquele gol em 1990 ofereceu a todo o país. Foi como se Rincón, com aquele chute por entre as pernas de Illgner, também indicasse uma luz no fim do túnel em meio ao terror cotidiano colombiano. O futebol oferecia magia e alegoria, para valorizar o povo e deixar a dureza do noticiário um pouco de lado. Em tempos mais leves, os compatriotas seguiram agradecendo pelo sonho alimentado pelo camisa 19, em meio à comemoração que vinha da alma. Uma alma compartilhada por todos os cafeteros.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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