Por que a ideia de diminuir a Libertadores não irá vingar
Uma volta ao passado. É assim que o novo presidente Eugenio Figueredo pensou a Copa Libertadores. A sua declaração sobre eventuais mudanças na principal competição sul-americana. Uma delas é a redução do número de equipes. A outra é que os times do mesmo país se eliminem, uma espécie de fase nacional, como há na Copa Sul-Americana. A ideia foi dita em uma entrevista ao jornal chileno La Tercera, mas parece muito longe de sair disso.
“Temos que fazer um produto mais competitivo e que se pague mais. Me parece que tem que haver uma série de times que se eliminem em seu próprio país, para quando chegarmos à excelência, cheguem o melhor dos melhores de cada país, em vez de três e cinco como temos atualmente”, afirmou Figueredo, presidente que assumiu a Conmebol no lugar de Nicolás Leoz.
Ele foi além. O dirigente ainda criticou a arbitragem no continente. E usa essa razão como justificativa para diminuir o número de jogos. “Há 150 partidas da Copa Libertadores [na verdade, 138, presidente] e, portanto, 150 quartetos de arbitragem. Mas temos muito pouco material humano qualificado. Então, vemos o mau desempenho de um árbitro, quando muitos não estão capacitados. E não há tempo para buscar a excelência”, afirmou o presidente.
A Libertadores tem 38 equipes, sendo que seis delas jogam a primeira fase (chamada também de pré-Libertadores) e 32 que disputam a fase de grupos. Atualmente, são cinco vagas para Brasil e Argentina, três vagas para Bolíbia, Chile, Colômbia, Equador, México, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela. O campeão também tem vaga garantida, o que faz que um país possa ter seis times na competição – é o caso do Brasil em 2013, já que o Corinthians é o atual campeão.
De volta para o futuro?
A ideia de Figueredo lembra o formato anterior da Libertadores. Até 1999, só dois times por país disputavam a competição e ficavam no mesmo grupo com dois times de um outro país. Naquele ano, por exemplo, Palmeiras e Corinthians dividiram o grupo com dois paraguaios, Cerro Porteño e Olimpia. Se os dois times do mesmo país se classificassem, necessariamente tinham que se enfrentar na primeira fase de mata-mata. Primeiro, o Palmeiras enfrentou o Vasco, que entrou direto nas oitavas de final. Como o Corinthians também avançou, o Palmeiras enfrentou o rival nas quartas.
A partir de 2000, a Libertadores teve o número de participantes ampliado para 32. Desde então, os times do mesmo país não ficam mais no mesmo grupo. Em 2004, novo aumento no número de participantes na Libertadores, de 32 para 36. Em 2005, a Copa Libertadores chegou ao formato atual, com 38 equipes e uma fase preliminar (no regulamento chamada de primeira fase).
As eliminatórias para a Copa do Mundo também podem mudar. A ideia é manter o formato atual, disputa em pontos corridos em ida e volta, mas que mudem os jogos – a ordem é a mesma desde a eliminatória para a Copa de 2002, quando o Brasil disputou.
Longe da realidade
Para uma mudança como essa de regulamento, seria preciso pelo menos que a ideia passasse pelo Comitê Executivo da Conmebol, o que é muito improvável, já que os países mais fortes politicamente, Argentina e Brasil, não aceitariam ver seus times com uma participação reduzida a dois clubes na fase de grupos.
Figueredo pode até realmente querer isso, o que ele mesmo não deixou claro. Não seria surpresa, mas ele poderia perder força política em um cenário de mudança. Dificilmente ele entraria nessa briga, ainda mais tão recente no cargo. Seria preciso o apoio de muita gente para que ele consiga fazer isso – e esse não é o cenário atual.
Tem outro aspecto: Figueredo pensa em aumentar o valor pago pelas TVs aos clubes pela Libertadores, mas diminuindo o número de times de Brasil e Argentina esse valor tende a diminuir. Aliás, o problema é anterior: as emissoras não irão aceitar essa redução. No formato atual, as emissoras podem ter muitos jogos de times brasileiros, argentinos e mexicanos, o que é interessante comercialmente. É mais um empecilho para as mudanças ventiladas pelo novo presidente da Conmebol.
As mudanças que a Libertadores precisa não passam pela mudança de formato, mas pela organização. É preciso um controle maior de segurança nos estádios, um padrão mínimo de qualidade e um planejamento logístico melhor. É preciso melhorar a arbitragem – e nesse ponto, Figueredo tem razão – e torná-la mais preparada para aplicar a regra com mais rigor. Muitas vezes, os times da casa acabam ganhando salvo conduto para serem violentos e isso não deveria acontecer.
Mais do que isso, é preciso acabar com as ridículas cenas de policiais com escudos (o que tem diminuído, algo que já merece menção) e na segurança em volta do estádio, na chegada ao estádio. As mudanças de 2012 já foram boas. Esperamos que ao invés de pensar em mudança no formato, Figueredo pense nessas melhorias na organização. Porque isso sim os clubes querem. E já passou da hora de não só quererem, mas exigirem.



