América do Sul

Estudiantes reencontra adversário que protagonizou a “Façanha de La Plata”

“Basurko chegou ao Equador em 1969, como um padre católico que nunca deixou de praticar seu esporte favorito, o futebol. Nessas casualidades da vida, foi visto por pessoas ligadas à Liga Deportiva de Portoviejo, que o levaram ao futebol profissional e, rapidamente, pelas suas atuações de destaque, foi contratado por Galo Roggiero para a equipe principal do Barcelona, em 1971”, escreve o clube de Guyaquil na nota em que anunciou ao mundo a morte do Juan Manuel Basurko, padre, espanhol, e autor do gol de uma das vitórias mais importantes da história do Barcelona: 1 a 0 sobre o Estudiantes, na Libertadores de 1971, duelo que se repetirá na próxima  edição do torneio sul-americano, depois do sorteio da última quarta-feira.

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O jogo que ficou conhecido como a “Façanha de La Plata” pode parecer banal, à primeira vista, porque aconteceu na fase semifinal da Libertadores e, no fim, o Estudiantes passou à final mesmo assim. Mas o Estudiantes era uma máquina liderada por Juan Ramón Verón, La Bruja, tricampeão da Libertadores, acusado de usar todas as artimanhas possíveis para vencer suas partidas, e o Barcelona nunca havia passado da primeira fase em nenhuma das quatro participações anteriores. O primeiro jogo, no Equador, havia terminado 1 a 0 para os argentinos.

Um outro detalhe importante: a segunda partida seria realizada em La Plata onde, em toda a história da Libertadores, o Estudiantes nunca havia sido derrotado, com onze vitórias e um único empate – 0 a 0 com o Millonarios, em 1968.

Havia, porém, uma lenda no elenco do clube equatoriano. Alberto Spencer, goleador máximo da Libertadores, realizava seus últimos jogos antes de se aposentar, já estava com 34 anos e não colocava mais tanto medo em seus adversários. A revista argentina El Gráfico descreveu o Barcelona da seguinte maneira: “Uma equipe de terceira categoria na qual o maestro Spencer está fazendo a última parada de sua grande carreira goleadora”.

Foi de fato a última parada da brilhante carreira de Spencer, que ainda tinha um ou outro truque guardado dentro da manga. Deu o passe, em jogada combinada com Jorge Bolaños, para Basurko sair na cara do goleiro e marcar, enquanto os argentinos esperavam a marcação do impedimento. Foi o único gol daquela partida de 29 de abril de 1971, que terminou 1 a 0 para o bem organizado time treinado pelo brasileiro Otto Vieira.

Imagens daquela partida (Foto: Arquivo/El Comercio)
Imagens daquela partida (Foto: Arquivo/El Comercio)

O Clarín colocou na manchete: “Deus (e Basurko) com Barcelona”. O El Día descreveu a reação dos torcedores do Estudiantes: “Eu (o repórter) vi os torcedores locais chorarem de dor, enquanto a torcida amarela fazia o mesmo de alegria em vários setores do estádio (…) O mesmo público platense, embora amargado e balbuciando palavras como desastroso, incrível, pavoroso, parece ficção e etc, aplaudiu o conjunto de torcedores equatorianos”.

Na parte de cima do setor de esportes do equatoriano El Universo, a chamada era “A inesquecível noite em que o Barcelona ganhou do Estudiantes”, introduzindo o texto que dá a medida do quanto aquele resultado significou para os equatorianos: “Muitos anos passarão, virá o ano 2000 e outras gerações com a chegada do século XXI. O homem chegará não apenas à lua mas a outros planetas, possivelmente a outro sistema solar (foram um pouco otimistas demais aqui), mas os torcedores equatorianos e particularmente os guyaquileños vão sempre se lembrar da noite em que o Barcelona venceu o Estudiantes de La Plata. O Barcelona realizou uma façanha que logo se converterá em lenda”.

Depois desse jogo, no entanto, o Barcelona perdeu para o Unión Española enquanto o Estudiantes venceu seus dois duelos contra o time chileno e avançou à decisão contra o Nacional, do Uruguai, a quarta seguida do time de Verón pai – e o primeiro vice-campeonato. Os equatorianos venceram o campeonato nacional daquele ano, pela quinta vez na história, e Spencer aposentou-se no ano seguinte. Basurko, naquela mesma temporada, voltou brevemente para a Liga Deportiva de Portoviejo, antes de retornar à Espanha e abandonar o sacerdócio. Mas ambos já estavam na história do Barcelona de Guayaquil e de uma das partidas mais marcantes da Libertadores.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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