América do Sul

Carpinteiro, professor, técnico na várzea: Espinel viveu o inimaginável com o Plaza Colonia

Não fosse a dura concorrência do Leicester, o Plaza Colonia certamente poderia ser apontado como o dono do maior conto de fadas do futebol mundial em 2016. A façanha do Pata Branca é enorme, não apenas pela disparidade em relação aos concorrentes no Uruguai, mas principalmente pela escalada na conquista do Torneio Clausura. Há 32 meses, o clube de Colônia do Sacramento beirava a falência e acabou salvo por empresários locais que investiam no futebol amador. Neste interim, como os ingleses, o time flertou com o rebaixamento em 2014/15 – mas ainda na segunda divisão. Tomou impulso da lanterna até a zona de acesso em nove rodadas. Até que, de um modesto 13º lugar no Apertura, levou o caneco com uma campanha irretocável no Clausura, impondo o primeiro trauma do Peñarol em seu novo estádio durante a “decisão”, com a vitória por 2 a 1 no domingo.

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Um dos principais artífices do sucesso do Plaza Colonia é Eduardo Espinel. O treinador assumiu a equipe em outubro de 2014, nas últimas posições da segundona, logo após uma acachapante derrota por 5 a 0 para o Villa Teresa dentro de casa. Em seu primeiro mês de trabalho, o técnico chegou a tomar uma goleada por 7 a 1 do Liverpool e permaneceu cinco partidas sem vencer. A situação era tão ruim que os próprios jogadores começaram a ganhar ingressos, para distribuir entre familiares e amigos, tentando encher as arquibancadas. Apesar do cenário, o comandante ganhou o respaldo da direção para seguir em frente, emendando uma sequência de 18 rodadas de invencibilidade (sendo 15 vitórias) e carimbando o acesso.

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A chegada de Espinel ao comando do Plaza Colonia, aliás, foi fruto do mero acaso. Entre 1999 e 2005, ele atuou como zagueiro do Pata Branca. Era mais conhecido pela força e raça do que pela qualidade técnica, como tão típico pelas bandas uruguaias. Durante a estreia dos alviverdes na elite do Campeonato Uruguaio, em 2002, Espinel formava dupla de zaga com uma jovem promessa que estoura no elenco: ninguém menos que Diego Lugano. Juntos, costumavam estender a carga de treinos para aperfeiçoar os fundamentos. Treinados por Diego Aguirre, estavam em campo nas duas vitórias sobre o Peñarol naquela competição: 2 a 0 no Estádio Alberto Suppici e 4 a 3 em pleno Centenario. E, enquanto calçava chuteiras, o zagueiro tratou de iniciar os seus estudos como treinador.

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Espinel investiu na formação intelectual. Após receber o diploma, seguiu se aperfeiçoando para dar aulas a futuros técnicos. Enquanto isso, a carreira com a prancheta era mera paixão. O ex-zagueiro chegou a trabalhar no Plaza Colonia em 2010, como técnico da base e assistente do técnico Luis Matosas, mas sua maior dedicação vinha mesmo no Nacional de Cardona, clube amador de seu povoado. Ainda assim, seu sustento provinha de trabalhos como carpinteiro e da disciplina de “Técnica e Tática” que ministrava no curso para treinadores da Organización del Fútbol del Interior – departamento da federação uruguaia. Um de seus alunos era Chiqui García, gerente de futebol do Plaza Colonia.

Após uma das aulas, já às 11 da noite, o convite surgiu soando como uma piada para Espinel. Diante do péssimo início na segunda divisão, García queria o seu professor de volta ao Plaza, para salvá-lo do rebaixamento. Reticente, o treinador não desejava abandonar a sua vida em Cardona. Por isso mesmo, os alviverdes se comprometeram a pagar até o combustível. E Espinel percebeu que não poderia desperdiçar a oportunidade de assumir o seu primeiro time profissional. Todos os dias, passou a atravessar os mais de 100 quilômetros que separam Cardona e Colônia de Sacramento em seu Fiat Uno – comprado graças à ajuda de um amigo, e que não lhe cansa de deixar na mão, dependendo de caronas.

Todo o esforço já tinha sido recompensado na segundona. E ao recolocar o Plaza Colonia na elite do futebol uruguaio, Espinel tinha seu objetivo muito claro: manter o clube na primeira divisão. A campanha no Torneio Apertura não teve nada de espetacular, com oito empates em 15 compromissos, o suficiente para deixar o time fora da zona de descenso. Contudo, a arrancada no Clausura surpreendeu. Na quarta rodada, os alviverdes derrotaram o Nacional e assumiram a liderança. Só saíram de lá por duas semanas, antes de recuperarem a primeira colocação em meados de maio. E consumaram a conquista da melhor maneira possível, calando a torcida do Peñarol que abarrotava o Estádio Campeón del Siglo. Tornando o Plaza ele mesmo o grande campeão deste século no Campeonato Uruguaio.

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“Para nós, é um orgulho sermos campeões com a simplicidade que conseguimos. Mas, acima de tudo, pelo esforço e pelo trabalho. Com o tempo, a verdade é que isso terá significado, mas ainda não nos demos conta do que alcançamos. Agora, precisamos comemorar com as pessoas que sempre estiveram ao nosso lado. Estou orgulhoso por estes rapazes, porque sou consciente de tudo o que passaram”, afirmou Espinel, após a partida. Um agradecimento especial direcionada também aos seus familiares. Em outubro, a filha mais velha do treinador ganhou trigêmeos, mas apenas um sobreviveu. “O nome dele é Ciro e é o ídolo da família. É um estandarte permanente porque lutou durante quase três meses no CTI e hoje é tão bonito. Tem sete meses e queremos dedicar este momento a ele, porque nos vimos refletidos em sua luta”, declarou, em entrevista ao site Tenfield.

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Quando ressalta os sacrifícios de seus jogadores, aliás, o técnico se refere muito além do que aconteceu no campeonato. Se Espinel trabalhou como carpinteiro, outros tantos conciliaram os treinamentos com outros serviços para complementar a renda. Dispensado do Nacional, o goleiro e capitão Kevin Dawson se sustentou como pintor, enquanto o meio-campista Matías Caseras trabalhou como ferreiro e pedreiro. O zagueiro Germán Ferreira, por sua vez, só ganhou uma chance porque teve a sorte de bater na porta do clube justo no dia em que o titular da posição perdeu a hora dormindo. O lateral Alejandro Villoldo, autor do gol do título contra o Peñarol, estava no futebol de várzea. E o responsável por sofrer o pênalti que resultou no tento, Ezequiel Redín, conquistou a confiança da comissão técnica diante do compromisso que tinha para tentar levar o máximo de gente às arquibancadas na época de entradas gratuitas.

Embora mantivesse os pagamentos em dia, durante o período de maiores dificuldades financeiras o Plaza Colonia chegou a servir aos atletas um singelo prato de arroz com salsichas como refeição. Ao menos todos terminaram o domingo comendo pizza, e em pleno gramado do Estádio Centenario. Era esta a promessa de Espinel, caso permanecessem na elite. Pelo título, a dívida dos jogadores com os céus é outra: terão que caminhar os 70 quilômetros até o Valdense, local onde o time costuma se concentrar.

“Sabíamos que se o trabalho fosse bem feito, com prazer, as coisas iam terminar assim. O Plaza jogou de sua própria maneira, não havia o que mudar. Foi uma equipe que aproveitou, nunca se pôs nervosa. E o trabalho nos deu razão. O mais importante que podemos dizer agora, em meio ao festejo, é que isso é um exemplo de vida. Quando se tem grandes objetivos, é preciso tomar um caminho, o que lhe parece mais correto, e segui-lo. Quando encontra uma árvore caída, precisa fazer lenha e seguir em frente, sem desviar. Essa equipe estava convencida do que queria e víamos algo bonito no horizonte. É um exemplo para a vida. A vida é assim e precisa ter um objetivo claro, trabalhar para alcançar”, completou Espinel.

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Além do título, o Plaza Colonia terminou reconhecido pelo futebol vistoso que desempenhou no Campeonato Uruguaio, independente de jogar em casa ou fora. O espírito coletivo prevaleceu ao longo das 14 rodadas realizadas, entre a boa cadência nos passes e a postura combativa sem a bola. Uma identidade enfatizada por Espinel, principalmente diante de um elenco repleto de vivacidade. Dos 16 jogadores com ao menos 10 aparições ao longo da competição (somando Apertura e Clausura), apenas dois deles possuem mais do que 26 anos de idade. Confiança não só na base, mas também em talentos dispensados por outros clubes, sobretudo os de Montevidéu. O ponta Nico Dibble, por exemplo, foi mandado embora do Defensor porque faltou a três treinamentos seguidos. Sentia saudades da namorada que morava em Colônia de Sacramento e ficou na cidade, trabalhando até como entregador antes de chegar aos alviverdes.

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“Não inventamos nada, só buscamos uma forma de jogar e de conviver em grupo. Há três palavras que o Plaza não negocia mesmo depois de uma derrota: respeito, humildade e trabalho. É o que permanece ao longo do caminho. Sobre esses três pilares nos debruçamos. E ao que não pode jogar, apoia, uma onda positiva que vai de um para o outro. Assim aconteceu esta loucura que vivemos”, finaliza Espinel. “Sou grato aos jogadores. Eles são o mais importante. Se não estão dispostos, o treinador não consegue nada. Eu era um desconhecido e os jogadores fizeram que isso acontecesse de repente. Sem eles não seríamos nada”.

Em 2017, o Plaza Colonia completa seu centenário. Mais do que patrono do estádio, Alberto Suppici também fundou o clube de sua cidade natal, enquanto ainda era ídolo do Nacional como jogador. ‘El Profesor’, técnico campeão do mundo com o Uruguai em 1930, serve de inspiração e tanto para Espinel seguir seu trabalho. Para celebrar a data histórica, o Pata Branca busca se garantir a participação na Copa Libertadores, enfrentando novamente o Peñarol na definição do Campeonato Uruguaio. A participação inédita no torneio continental terminaria de coroar o sonho que se vive em Colônia de Sacramento.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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