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Enquanto autoridades fingirem que não veem o racismo, não adianta Elias prestar queixa contra González

Jogadores do Corinthians e do Danubio discutem. O assunto está quente, e pela reação de Elias no meio do bolo, dá para imaginar do que se trata. O empurra-empurra segue por um minuto sem que ninguém apareça para evitar uma confusão maior. Quando os ânimos esfriam, o volante do Corinthians se direciona ao árbitro e conta que foi chamado de “macaco”. O árbitro Diego Haro diz que não viu, e continua se preocupando mais com o jogador uruguaio que está sendo colocado na maca.

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A atitude do juiz diz muito sobre o porquê de casos de injúria racial serem tão recorrentes no futebol. O peruano foi mal durante toda a partida, muitas vezes por interpretar erradamente as jogadas ou não ter a coragem de tomar atitudes mais duras no aspecto disciplinar. Mas, no caso da ofensa de Cristián González a Elias, ele faz questão de não estar por perto da confusão, acabou não vendo o que ocorreu, não fez força para se inteirar após ser informado e já tem a desculpa perfeita para lavar as mãos em sua súmula.

Haro errou, mas não está sozinho. Ele é apenas o elemento final de um sistema covarde  que é feito para não se combater o racismo em campo. O delegado da Conmebol, por exemplo, tentou mostrar surpresa ao “descobrir” por meio de jornalistas brasileiros que “macaco” é um xingamento racista no Brasil (o atacante Guerrero, quando soube dessa reação do dirigente, afirmou que “macaco é xingamento em qualquer lugar”). Roberto de Andrade, presidente do Corinthians, disse que o clube deixou na mão de Elias a decisão de prestar queixa contra González e aceitava a ideia de que “o que acontece em campo fica no campo”.

É um círculo já comum. As autoridades civis podem fazer algum barulho se forem acionadas, mas no final acabarão liberando o jogador. Os clubes convenientemente largam a decisão sobre a ida à delegacia na mão do atleta ofendido, como se eles não tivessem responsabilidade em dar suporte se um funcionário foi ofendido. As federações fingem que não veem nada e usam a burocracia para justificar a falta de atitude quando há alguma pressão.

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Esse cenário ocorre em vários casos de racismo, sobretudo no futebol internacional. A Uefa costuma punir esse tipo de situação com multas, geralmente em valores perfeitamente acessíveis a quem cometeu o crime. A Conmebol não foi diferente. Por exemplo, o Real Garcilaso foi multado em apenas R$ 12 mil e uma bronca (“se fizer de novo, vou tirar mando de campo, entendeu?”) pelo xingamento generalizado ao cruzeirense Tinga no ano passado.

Nesse aspecto, algumas punições que ocorreram no Brasil foram surpreendentemente duras. O Grêmio foi eliminado na Copa do Brasil e o Esportivo de Bento Gonçalves foi rebaixado no Gauchão por perda de pontos decorrentes de xingamentos racistas de torcedores. E é esse tipo de medida que realmente pode ter efeito.

Dentro desse universo em que todos parecem se mobilizar para fazer vista grossa ao racismo, a vítima se torna a parte mais frágil. Ir à delegacia é a atitude correta, mas é sempre uma decisão colocada como individual. O atleta ofendido se vê obrigado a lutar sozinho por uma causa que todos deveriam defender. Isso o deixa exposto, e muitas vezes comprar a briga se volta contra ele. A torcida pode reforçar o discurso racista quando quiser atacá-lo (só lembrar como Aranha sofreu ataques racistas de alguns santistas quando foi ao Palmeiras). A imprensa pode usar o caso para criar uma imagem de mártir ou de líder de uma causa que talvez o jogador não queira para si. As entidades podem ficar incomodadas prejudicar o clube ou o próprio atleta no decorrer da competição.

Por isso, discutir se Elias acerta ou não ao ir à delegacia é algo menor. Ele deveria prestar a queixa contra González e reforçar a luta contra o racismo, mas é difícil condenar alguém que está em posição tão fragilizada. Até porque não é preciso um boletim de ocorrência ou uma frase a mais na súmula do árbitro para que se saiba o que ocorreu. As imagens estão aí, e as instituições podem perfeitamente tomar as atitudes necessárias sem obrigar a vítima a se expor. Então, que tomem.

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Ubiratan Leal

Ubiratan Leal formou-se em jornalismo na PUC-SP. Está na Trivela desde 2005, passando por reportagem e edição em site e revista, pelas colunas de América Latina, Espanha, Brasil e Inglaterra. Atualmente, comenta futebol e beisebol na ESPN e é comandante-em-chefe do site Balipodo.com.br. Cria teorias complexas para tudo (até como ajeitar a feijoada no prato) é mais que lazer, é quase obsessão. Azar dos outros, que precisam aguentar e, agora, dos leitores da Trivela, que terão de lê-las.

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