América do Sul

Em uma batalha de nervos, o Chile colocou os seus méritos acima da arbitragem

Que Chile e Uruguai fariam um grande jogo pela Copa América, não havia muitas dúvidas. Mas não necessariamente com futebol exuberante de ambas as seleções. Seria, sim, um jogo de muita vontade, entre uma equipe lutando pelo maior momento de sua história e outra conhecida pelo espírito aguerrido. De fato, como se desenrolou o jogo no Estádio Nacional de Santiago. Faltaram gols e mais chances. Em compensação, sobrou vontade e pegada. Por vezes, até ultrapassando os limites do aceitável, o que gerou uma série de polêmicas com a arbitragem. Não dá para tirar, no entanto, os méritos do Chile. La Roja mandou na partida e venceu por 1 a 0, aproveitando a vantagem numérica.

O ambiente em Santiago era fantástico desde antes a bola começar a rolar. Do hino uruguaio cantado com ímpeto ao chileno completado à capela pela multidão que lotava as arquibancadas, a atmosfera arrepiava. E o jogo seguiu a tônica do que os dois times costumam propor dentro de campo. O Chile dominava a posse de bola e tentava agredir no campo de ataque, conforme manda a cartilha de Jorge Sampaoli. Já o Uruguai se defendia de maneira ferrenha e tentava explorar o jogo aéreo, sua força e a fraqueza dos rivais. Ainda que Óscar Tabárez também fugisse do básico e pressionasse a saída de bola adversária, tentando forçar o erro o quanto antes.

O primeiro tempo contou com poucos lances de perigo. Enquanto o Chile rodava a bola de maneira sufocante, não conseguia encontrar brechas. E mesmo acertando muitos passes, faltava arriscar mais. Quando fez, parou nas boas defesas de Muslera. Enquanto isso, os chilenos pareciam de sobreaviso dentro da sua área com as bolas pelo alto da Celeste, com Claudio Bravo sempre atento para interceptar. Mais notável era a tensão entre os dois times. Muitas foram as faltas ríspidas e os bate-bocas dentro de campo. O árbitro Sandro Meira Ricci tentava contornar a situação com poucos cartões.

Já no segundo tempo, a partida recomeçou mais equilibrada. O Uruguai conseguia sair para o ataque e ter posse de bola, o que parecia exclusivo ao Chile até então. Mas, aos 18 minutos, o duelo mudou de rumos. Cavani e Gonzalo Jara se estranharam, com o centroavante recebendo o segundo amarelo. Sandro Meira Ricci viu a tentativa de tapa do uruguaio, embora não tivesse chances de reparar também na “dedada” que ele levou. Cavani, com seus motivos, tentou partir para cima do brasileiro, em vão. Com um a menos, a missão do Uruguai se tornava ainda mais difícil, limitada aos contra-ataques.

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A partir de então, o Chile intensificou sua presença no ataque, com as entradas de Pinilla e Matías Fernández. Já o Uruguai apostava em uma só bola. Que quase veio, em um chutaço de Carlos Sánchez que passou próximo à trave. Só que, enquanto a Celeste vivia de lampejos, tomava sufoco da pressão (um tanto quanto improdutiva) de La Roja. Alexis Sánchez se movimentava muito e abria espaços, assim como Valdívia ajudava a puxar a marcação. Mas a zaga comandada por Godín e Giménez à perfeição só foi vencida aos 36 do segundo tempo, em um erro de Muslera. O goleiro socou uma bola na entrada da área e não se reposicionou a tempo, com a visão obstruída por vários jogadores. Valdívia serviu e Isla chutou rasteiro, no canto. O gol que fez o Estádio Nacional entrar em erupção.

A partir de então, restou pouco tempo de futebol, de fato. Embora tenha acertado primeiro a bola, Fucile acertou um carrinho duríssimo em Sánchez e recebeu o segundo amarelo. O lance causou ainda mais revolta dos uruguaios, com direito a invasão de campo de Óscar Tabárez e mais de cinco minutos de paralisação até que os ânimos fossem apaziguados. Situação controlada, o jogo não teve mais clima para seguir, e até aconteceu em menos tempo do que deveria, com os acréscimos a menos de Meira Ricci. Para o Chile comemorar a classificação.

O Chile pinta como favorito à decisão, ainda mais enfrentando Peru ou Bolívia nas semifinais. Apesar das deficiências em finalizar, que não vêm de hoje, La Roja possui um excelente padrão de jogo, ofensivo e atordoante aos adversários. Mesmo uma defesa tarimbada como a uruguaia teve problemas para conter as transições, especialmente de Sánchez, o melhor em campo. A oportunidade de fazer história está na mesa.

Já a bronca do Uruguai com a arbitragem é compreensível, especialmente pela expulsão de Cavani – mais até pelo rigor sobre a agressão do que pelo momento não visto. Sem os seus dois melhores jogadores, e ainda a pressão do time (e da torcida) da casa, não deu para suportar o Chile. E os anfitriões saem revigorados, especialmente por afastarem o fantasma de não conseguirem ir bem nos mata-matas, por mais que não tenham apresentado o seu melhor futebol. Com virtudes, os chilenos são semifinalistas. Saíram vencedores em uma batalha para ser lembrada durante um bom tempo.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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