América do Sul

Em meio ao caos, o Colo-Colo enfrentará uma decisão para evitar o inédito rebaixamento no Campeonato Chileno

O Colo-Colo disputará a partida mais dramática de sua história nesta quarta-feira. Os colocolinos correm sérios riscos de sofrer um inédito rebaixamento no Campeonato Chileno, em tragédia anunciada ao longo dos últimos meses. Para evitar o descenso, o Cacique precisará vencer o confronto direto com a Universidad de Concepción, em partida única realizada na cidade de Talca. A vitória poderá resultar num alívio tremendo aos Albos, diante da falta de perspectivas que a queda representaria. De qualquer maneira, a semana caótica vivida em Santiago já está na história do clube mais popular do futebol chileno.

Os riscos de rebaixamento refletem mais as circunstâncias vividas pelo Colo-Colo neste campeonato do que necessariamente uma quebra gradual. O Cacique ergueu seu último título nacional em 2017 e chegou a ser vice-campeão em 2019, garantindo presença na última Copa Libertadores. Todavia, também não dá para dizer que o ambiente era excelente no Estádio Monumental David Arellano. Há um conflito interno em relação aos caminhos tomados pela ‘Blanco y Negro’, a sociedade anônima que administra a agremiação. Torcedores, antigos ídolos e até mesmo jogadores atuais não estavam contentes com a gestão. O estopim viria da pior maneira dentro de campo.

O Colo-Colo paga o preço por péssimas decisões no departamento de futebol, mas também por disputas de poder e interesses de bastidores. O clube realizou escolhas ruins na montagem de seu elenco para 2020, com apostas que não deram certo, assim como não soube gerir a crise desencadeada pela pandemia. A administração do Cacique decidiu acionar a legislação chilena para manter os salários de seus jogadores, em vez de entrar em acordos por reduções, e isso aprofundou os problemas sem que a solução perdurasse por muito tempo. Houve um racha entre jogadores e dirigentes quanto ao tema. Além disso, uma minoria acabou privilegiada pela cartolagem em meio às dificuldades.

Obviamente, o que não estava bem do lado de fora repercutiria mal em campo. O Colo-Colo investiu nas repatriações de jogadores como Matías Fernández e Jorge Valdívia, o que não vingou. Com um elenco envelhecido, os resultados não eram bons. Mesmo o ídolo Esteban Paredes acabou perdendo espaço e batendo de frente com os dirigentes. A recuperação na tabela tornou-se ainda mais difícil, por mais que os Albos tenham esboçado uma reação.

Lanterna em seu grupo na Libertadores, o Colo-Colo não começou bem no Campeonato Chileno. A equipe conquistou apenas três vitórias em todo o primeiro turno e, despencando à medida que as rodadas se passavam, entrou na zona de rebaixamento no fim de outubro. As passagens dos técnicos Mario Salas e Gualberto Jara pelo banco de reservas não deram jeito, assim como Gustavo Quinteros demorou a engrenar no comando. As coisas iam tão mal que os colocolinos iniciaram o segundo turno na lanterna, antes de esboçarem uma reação a partir de dezembro. A equipe passou a buscar vitórias contra times da parte de cima da tabela e respiraria fora do Z-3 por um tempo. Em compensação, uma sequência de empates na reta final acabaria freando a reação.

Quando o Colo-Colo dependia apenas de si, empatou os três últimos compromissos e se viu obrigado a disputar os playoffs do descenso. O pior aconteceu no domingo, contra o O’Higgins. César Fuentes abriu o placar ao Cacique no início do segundo tempo e a equipe ia se safando dos riscos até os acréscimos finais. Porém, um gol de Tomás Alarcón aos 51 minutos relegou os colocolinos aos playoffs. O empate por 1 a 1 contra o O’Higgins deixou o Colo-Colo com 39 pontos, atrás do Deportes La Serena no saldo de gols, e obrigado a jogar seu futuro nesta quarta.

Foi uma edição surpreendente do Campeonato Chileno, em que vários clubes com desempenhos destacados nos últimos anos se viram à beira do abismo. Semifinalista da Copa Sul-Americana, o Coquimbo Unido caiu por ser o lanterna desta edição da liga. Já o Deportes Iquique, que em 2017 esteve na Libertadores, foi rebaixado por ser o último no promédio. O Colo-Colo ficou nos playoffs de descenso por ter sido o terceiro pior colocado na tabela desta temporada. Disputará a sobrevivência contra a Universidad de Concepción, outra de aparição recente na Libertadores, que foi a penúltima no promédio.

O empate contra o O’Higgins gerou revolta entre os torcedores do Colo-Colo e ameaças aos jogadores. Porém, as últimas horas guardaram uma grande comoção dos albos para levantarem os ânimos dos atletas. Centenas de pessoas saíram às ruas de Santiago na despedida do ônibus da equipe, contrariando as orientações sanitárias. Desejavam transmitir um último alento para o time. O Cacique possui um elenco mais tarimbado, mas também precisará lidar com uma pressão psicológica maior pela necessidade de vitória. Além disso, a Universidad de Concepción possui um retrospecto favorável contra os colocolinos, com 11 vitórias nos últimos 21 encontros.

A situação do Colo-Colo, de qualquer maneira, cobra mudanças na estrutura interna do clube. A Blanco y Negro S.A. até conseguiu um relativo sucesso em seus primeiros anos à frente da agremiação, que catapultou Sebastián Piñera à presidência do Chile. Eram tempos nos quais as contas estavam no vermelho e foi necessário recorrer às categorias de base, garantindo uma importante série de troféus. No entanto, a promessa de acabar com as dívidas e catapultar os Albos nunca se cumpriram. Pelo contrário, o Cacique possui hoje débitos até maiores do que na chegada da S.A. e precisa se reinventar, com um elenco caro diante das perdas pela pandemia.

O descenso, a esta altura, pioraria bastante a situação econômica do Colo-Colo. Resta saber o nível de autocrítica, numa gestão rotulada como individualista e que possui quedas de braço entre seus principais nomes, sem levar em consideração a própria importância social do time mais importante do país. O péssimo rendimento neste Campeonato Chileno já foi um enorme aviso. Que pode culminar numa forçada mudança, caso a queda ocorra em Talca. Que uma gestão empresarial possa trazer ares de “profissionalismo”, também corre o risco de culminar num culto à personalidade e na busca apenas pelos lucros da empresa, como ocorre no Cacique.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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