América do Sul

Em Barranquilla, 45 mil ofereceram uma recepção fantástica a Téo Gutiérrez, o rei errante

Téo Gutiérrez é um atacante de inegáveis predicados, mas também de inegáveis problemas disciplinares. O colombiano colecionou gols e confusões ao longo da carreira, quase sempre conquistando a idolatria em cada clube que passou, mas também saindo diversas vezes pela porta dos fundos. Nesta semana, o veterano de 32 anos busca mais um recomeço. Desta vez, de volta para casa, onde é bem-vindo pela maioria absoluta. Nascido e criado em Barranquilla, o artilheiro foi apresentado pelo Junior. Será a sua terceira passagem pelos rojiblancos, embora tenha sido formado por outro time da cidade, o Barranquilla Fútbol Club.

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O Estádio Metropolitano Roberto Meléndez pareceu até se transformar em um cenário dos livros de Gabriel García Márquez, que alimentou muitas de suas histórias na cidade litorânea e também torceu pelo Junior. Mais de 45 mil fanáticos lotaram as arquibancadas para ver o retorno do rei errante. Téo Gutiérrez declarou o seu amor pelos rojiblancos, e isso já era suficiente para convencê-los, independentemente dos pecados passados. O realismo mágico deste conto estava em tamanha adoração por um jogador que, apesar das juras quase sempre ditas a esmo, incorpora os desejos de glória e foi recebido como um messias. Realismo mágico que, afinal, se tornou corriqueiro em um mundo feito de sonhos e esperanças como o futebol. Fantástico já não é mais o causo, mas a fantasia que ele causa.

Em campo, ovacionado pela multidão em vermelho e branco, Téo Gutiérrez não se fez de rogado. Agradeceu o carinho e ensaiou uns passos de dança com o flamante Tiburón Willy, o sempre irreverente mascote do Junior. Ao redor do coração vagabundo, um enorme circo armado: camisas gigantes, música, modelos, jornalistas. A apoteose da torcida complementava a atmosfera incrível, muito acima do que o artilheiro mereceria. Mas mereceu, por tudo aquilo que provocou em uma das massas mais fanáticas da Colômbia.

Os melhores momentos de Gutiérrez no Junior aconteceram em sua primeira passagem, de 2007 a 2009. Chegou a marcar 30 gols entre o Apertura e o Finalización em seu último ano, levando os tiburones ao vice-campeonato nacional. Em janeiro de 2010, acabou rumando ao futebol turco. Voltaria ainda para uma breve passagem no segundo semestre de 2012, por empréstimo. Desta vez o sucesso foi menor, mas serviu para renovar a idolatria. Agora, retorna em definitivo e com contrato pelos próximos três anos. Tenta impulsionar um time que sequer passou aos mata-matas no Apertura, mas segue vivo na Copa Sul-Americana, na qual fará um confronto nacional com o Deportivo Cali.

“Venho ao Junior para dar a volta olímpica com a minha gente. Venho ser campeão, não tenho mais o que dizer”, declarou o atacante. “Isso é o mais lindo, as pessoas, o povo, esta alegria, saber que essa gente está me esperando da melhor maneira. Como jogador, venho dar tudo ao time”. Pertencente ao Sporting, Téo Gutiérrez passou os últimos meses emprestado ao Rosario Central, mas sem ser tão preponderante. Já não vive os melhores momentos desde a saída do River Plate, embora permaneça aparecendo esporadicamente nas convocações da seleção colombiana.

Uma pena que nem tudo foi só festa no Estádio Metropolitano. Duas pessoas se machucaram com a queda de uma grade de proteção, enquanto se debruçavam para ver o ídolo passar. Além disso, alguns embates entre polícia e torcida tomaram as ruas no entorno, com carros depredados e uso de bombas de gás lacrimogêneo. Violência que não condiz com a paixão que se viu nas arquibancadas. Tristeza distante do Realismo Mágico que, agora, os tiburones torcem para que se torne concreto.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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