América do Sul

Depois de um ano cheio de percalços, o Defensor conquista os playoffs de acesso na segundona do Uruguaio

O Defensor sobe ao lado de Albion e Danubio, mas encarou um ano bem difícil para cumprir sua missão

A segunda divisão do Campeonato Uruguaio viveu uma temporada histórica. O Albion, clube mais antigo do país, voltou à elite após um hiato de 113 anos. O Danubio subiu de imediato, após o sentido rebaixamento na temporada passada. E os playoffs de acesso coroaram o Defensor, outro clube tradicionalíssimo que precisou lidar com as incertezas da segundona em 2021, após o rebaixamento na campanha anterior. Os violetas terminaram na quarta posição durante a fase de classificação, mas prevaleceram nos mata-matas e puderam comemorar a promoção nesta quinta-feira.

O Defensor disputa com o Danubio o posto de “terceira força” do futebol uruguaio. E os feitos dos violetas justificam tal demanda. O clube possui quatro títulos nacionais, incluindo o marcante troféu de 1976, o primeiro a romper a hegemonia da dupla Nacional e Peñarol a partir do profissionalismo. São ainda oito vices e quatro taças dos chamados “torneios curtos” – os populares Apertura e Clausura. O Defensor soma 94 participações na elite, sendo mais de cinco décadas ininterruptas na primeira divisão de 1966 a 2020, e é o terceiro clube com mais pontos na história da liga. Além disso, são 16 presenças na Copa Libertadores, com lembrança especial à caminhada até a semifinal de 2014.

O rebaixamento do Defensor vinha anunciado desde 2019, quando o time fez uma campanha fraca no Campeonato Uruguaio e o sinal de alerta se ligou na tabela acumulada do promédio. Porém, os violetas se afundaram ainda mais em 2020, com uma campanha que conseguiu ser pior. Rondaram as últimas posições tanto no Torneio Intermédio quanto no Clausura. A queda se confirmou na última rodada, com um melancólico empate por 0 a 0 com o Cerro Largo, que permitiu ao pequeno Boston River se salvar.

O Defensor passaria por maus momentos na segundona. Os violetas confiaram o comando técnico a Eduardo Acevedo, antigo ídolo do clube e treinador em outras passagens, que permaneceu mesmo com o descenso. O time não engrenou durante o primeiro turno e sequer ocupou a zona de acesso direto, permanecendo na área dos playoffs. Para piorar, houve uma troca na presidência e conflitos internos atravancavam o rendimento. Acevedo saiu e veio Leonel Rocco, que até botou o Defensor na segunda colocação num curto período, mas também não cumpriu a missão de buscar o acesso direto. Outras rusgas acabaram expostas, com um racha no elenco e acusações de que a comissão técnica incitavam a violência em campo.

Com a impossibilidade de alcançar Albion ou Danubio no G-2, Héctor Rodríguez e o ídolo Gerardo Miranda seriam uma solução caseira como dupla de técnicos para os playoffs de acesso. O Defensor, além do mais, afastou nove jogadores do elenco (a maioria medalhões) e se agarrou às suas condecoradas categorias de base para cumprir sua missão. Assim, o time consolidou seu posto na quarta colocação e iria para os mata-matas decisivos.

A fase final reuniu outros clubes tradicionais – além do Defensor, também Racing, Cerro e Central Español. Na semifinal os violetas bateram o Cerro, outro a cair na temporada passada. Depois da vitória por 2 a 1 no primeiro jogo, o Defensor até perdeu o segundo por 1 a 0, mas avançou por ter a melhor campanha. Já a decisão aconteceu contra o Racing, que ficou à frente dos violetas na tabela de classificação. O primeiro jogo no Estádio Charrúa foi decidido com um sonoro 3 a 0 para o Defensor, gols de Kevin Méndez, Matías Abaldo e Joaquín Valiente. Assim, bastou segurar o empate por 0 a 0 nesta quinta para comemorar o retorno à primeira divisão. O duelo teria três pênaltis perdidos durante os 90 minutos, dois deles pelos violetas, que não fizeram falta.

Dono de prolíficas categorias de base, o Defensor contou com alguns de seus garotos para conquistar o acesso, em especial na defesa e no meio-campo – onde despontam nomes como Matías Ocampo, Joaquín Valiente e Francisco Barrios. No entanto, os violetas também tiveram sua dose de experiência, buscando muitos veteranos sem contrato. Jogadores com passagens pela seleção deram sua contribuição, a exemplo de Diego Vera e Gonzalo Bueno. Outros tantos com trajetória no exterior também ajudaram, como Kevin Méndez e o capitão Álvaro Navarro.

Depois da conquista, uma cena emblemática aconteceu na zona mista: às lágrimas, Álvaro González e Alan Maturro deram uma entrevista abraçados. O primeiro, aos 37 anos, foi uma referência nos vestiários e levou a experiência de quem disputou até Copa do Mundo com o Uruguai. O segundo, aos 17 anos, foi um dos garotos que seguraram as pontas durante a crise e virou uma grata surpresa na zaga. Juntos, auxiliaram os violetas a superarem os percalços para consumarem o acesso. O restabelecimento na elite ainda deve ser mais longo, considerando a exigência de um clube acostumado a disputar a Libertadores. O alívio sobre as costas, ainda assim, já vale tamanha emoção do Defensor.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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