América do Sul

Depois de cinco anos de penúria, o tradicional Sport Boys voltou à primeira divisão peruana

A camisa rosa já é um símbolo suficiente para marcar o Sport Boys como um dos times mais singulares do continente. O clube de Callao, entretanto, vai muito além de sua principal identificação. É uma das principais agremiações do futebol peruano, com larga importância histórica. Los Rosados são os primeiros campeões do país na era do profissionalismo, possuem cinco títulos nacionais, participaram de seis edições da Libertadores. Mais relevante, formaram a seleção peruana que disputou os Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, na primeira participação internacional da Blanquirroja. Mas, nos últimos anos, a camisa pesada estava no limbo. Desde 2013, o Sport Boys figurava na segunda divisão peruana. Foram cinco temporadas vivendo o seu calvário. Até que, enfim, o acesso fosse desfrutado neste final de semana.

O Sport Boys é o quinto clube com mais participações no Campeonato Peruano desde sua nacionalização, em 1966. Aparece atrás apenas do trio de ferro de Lima (Alianza, Universitario, Sporting Crystal) e do Melgar. Seu primeiro rebaixamento aconteceu no final dos anos 1980, com a recuperação acontecendo rapidamente. Entretanto, a crise financeira acertaria em cheio os Rosados a partir da década passada. Ao longo dos últimos dez anos, a agremiação conviveu com as altas dívidas, com a falta de dinheiro e com as constantes mudanças de gestão. Obviamente, isso teria um impacto brutal sobre o rendimento em campo.

Em 2008, o Sport Boys sofreu seu segundo rebaixamento, mas acabaria conquistando o acesso no ano seguinte. Por fim, a derrocada fatal viria em 2012. Alcançar o acesso à primeira divisão do Campeonato Peruano costuma ser bastante difícil – atualmente, as vagas se limitam ao campeão da segunda divisão e ao vencedor da gigantesca Copa Peru, que funciona como um torneio de acesso a todos os clubes que não figuram nos dois primeiros níveis da liga nacional. Ainda assim, apesar do grande funil, os Rosados passaram longe da promoção nas quatro temporadas anteriores. No máximo, alcançaram a sexta colocação em 2013, mas não mais do que isso.

Esta temporada, desde o início, se prometia diferente. O Sport Boys passou a disputar as primeiras colocações logo nas primeiras rodadas. Mesmo com a presença de outros clubes tradicionais, como Cienciano e Unión Huaral, ficou claro que o principal concorrente dos Rosados seria a Universidad César Vallejo, que chegou a figurar na Libertadores em 2016, mas acabou rebaixada à segundona. E a briga aconteceu ponto a ponto. O clube de Callao permaneceu no topo da tabela durante a maior parte da campanha, mas derrapou na reta final, permitindo que a Laranja Mecânica igualasse seu número de pontos.

Na antepenúltima e na penúltima rodada, Sport Boys e César Vallejo venceram seus jogos. Ambos chegaram aos 57 pontos. Todavia, a Laranja Mecânica tinha uma virtual vantagem. Em um campeonato disputado por 15 times, os Rosados seriam justamente aqueles que folgariam na última rodada. Assim, a Universidad César Vallejo precisava apenas de um empate na visita ao Deportivo Hualgayoc para se coroar campeã e, consequentemente, assegurar a promoção. Pois os anfitriões ajudaram o Sport Boys, derrotando os universitários por 1 a 0, em partida de contornos épicos – o goleiro do Hualgayoc foi expulso no início do segundo tempo e os líderes ainda desperdiçaram um pênalti. Como os dois primeiros colocados da segundona continuaram com 57 pontos, apesar da vantagem do César Vallejo no saldo de gols, eles foram forçados a disputar um jogo-desempate para definir o título.

A finalíssima aconteceu no domingo, no neutro Estádio Inca Garcilaso de la Vega, em Cusco. O Sport Boys saiu em vantagem no primeiro tempo, com Carlos Ambriz, mas cedeu o empate logo na volta do intervalo, com o argentino Leandro Fleitas anotando para o César Vallejo. O 1 a 1 prevaleceu no placar e o acesso acabou decidido nos pênaltis. Então, pesou a competência dos Rosados: eles perderam apenas uma de suas cobranças e asseguraram o triunfo por 4 a 2. Depois de cinco anos, voltariam à elite do Campeonato Peruano. Ao final, prevaleceu também um senso de justiça. O presidente da Universidad César Vallejo foi flagrado em gravações que indicariam um caso de suborno para favorecer sua equipe. A federação peruana, contudo, tinha recusado a reclamação feita pelo Sport Boys. Afirmou que “não existiam provas suficientes” para impugnar seus adversários na decisão.

Já nesta segunda, em Lima, os torcedores do Sport Boys viveram sua libertação. Milhares de fanáticos, com suas camisas rosadas, tomaram os arredores do aeroporto e carregaram os seus jogadores nos ombros. Festa merecida por uma penúria que durou tanto tempo. Agora, é ver como essa se comoção acontecerá também na primeira divisão. É certo que o clube de Callao precisará do amplo apoio de sua torcida, depois de tanto tempo longe da elite. A mera fuga do rebaixamento será o objetivo inicial. Para, quem sabe, os Rosados reviverem suas glórias e recobrarem a grandeza de quem representa tanto ao futebol peruano.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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