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Cruzeiro venceu o River porque entendeu que ter a bola no pé não seria bom

Algumas coisas eram esperadas pelo Cruzeiro quando enfrentasse o River Plate no Monumental de Núñez pelas quartas de final da Libertadores. Uma delas é que o time argentino tomaria a iniciativa. A outra é que tentaria usar a pressão da torcida para impor um ritmo intenso e criar volume de jogo. É o que times argentinos normalmente fazem nessas situações, e costuma funcionar. A Raposa entendeu isso, e venceu porque soube jogar dentro do contexto criado pelo adversário.

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O River Plate propunha seu jogo com um 4-3-3 bastante avançado. Todas as linhas jogavam avançadas para ter compactação e permitir a pressão em cima do Cruzeiro. O time mineiro poderia tentar quebrar esse jogo, tendo para si a posse de bola, cadenciando o jogo para criar um braço de ferro em quem conseguiria ter ainda mais volume. Seria uma atitude corajosa, mas burra. E Marcelo Oliveira sabia disso.

O Cruzeiro não tem um time de cadenciar, até porque essa não é as características das equipes montadas por seu técnico. Os celestes têm jogadores que sabem ser incisivos, partindo em velocidade e concluindo as jogadas sem perder tanto tempo. Por isso, a Raposa deixou o River acreditar que tinha sua pressão, mas não se intimidou e aproveitou que a defesa argentina jogava adiantada para esticar bolas nos contra-ataques, deixando Marquinhos, Leandro Damião e Willian no mano a mano com os zagueiros em diversos momentos. E aí ficava claro que o domínio riverplatense não era tão óbvio quanto parecia em uma observação apressada.

A postura celeste foi corajosa, pois muitas vezes deixou o jogo aberto e acelerado, o que também expunha sua defesa em alguns momentos. Mas funcionou. Com as saídas rápidas, o Cruzeiro impedia que o River fizesse um abafa eficiente, o que acabou ofuscando o contestável Téo Gutiérrez e, no segundo tempo, Cavenaghi. Enquanto isso, a limitada defesa argentina ficou mais vulnerável, e acabou falhando quando pressionada. Não conseguiu se livrar da bola após um lateral do ataque cruzeirense, se enrolou em um bate-rebate e a oportunidade surgiu para Marquinhos com o gol aberto.

A diferença de estratégia das duas equipes fica nítida pelos números. O River Plate teve superioridade marcante em posse de bola (61%), passes (413 a 192) e escanteios (5 a 1), todos dados que indicam volume de jogo ou presença no campo de ataque. Mas, na produção efetiva (finalizações), houve equilíbrio: 17 a 13 para os argentinos, e 7 a 5 em chutes certos. Ou seja, o River dava 24,3 passes a cada arremate, enquanto que os mineiros o faziam a cada 14,8. Objetividade.

O Cruzeiro poderá aproveitar a vantagem no placar para explorar ainda mais essa velocidade em Belo Horizonte. Ainda é um duelo perigoso, pois o River Plate é forte. Mas o cenário ficou bastante favorável aos celestes. E justamente porque soube usar a estratégia dos argentinos contra eles próprios em Buenos Aires.

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Ubiratan Leal

Ubiratan Leal formou-se em jornalismo na PUC-SP. Está na Trivela desde 2005, passando por reportagem e edição em site e revista, pelas colunas de América Latina, Espanha, Brasil e Inglaterra. Atualmente, comenta futebol e beisebol na ESPN e é comandante-em-chefe do site Balipodo.com.br. Cria teorias complexas para tudo (até como ajeitar a feijoada no prato) é mais que lazer, é quase obsessão. Azar dos outros, que precisam aguentar e, agora, dos leitores da Trivela, que terão de lê-las.

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