Foi uma experiência interessante assistir ao duelo entre Atlético Mineiro x São Paulo, no Independência. Pela Libertadores da América, os dois times não se enfrentavam desde 1978, em tempos de Reinaldo, Waldir Peres, João Leite e outras feras. O Galo não disputava a competição desde 2000 e certamente estava morrendo de saudade de brigar pela América.

Ora, mas tanto tempo fora só poderia causar tremenda comoção na torcida, que compareceu em peso ao Independência para prestigiar seu time e a volta de Diego Tardelli, ídolo recente de volta do Oriente Médio. Em campo, o Atlético jogou como se não tivesse ficado um ano sequer ausente. O São Paulo, que começou sua caminhada com uma chinelada no Bolívar (e também quase passando um vexame na Bolívia), assistiu na primeira etapa a uma atuação memorável de Ronaldinho.

Para muitos, o dentuço ainda não mostrou a que veio. Desde que voltou do Milan, Ronaldinho é contestado quase que toda rodada. Nesta quarta-feira, provocou aquela admiração que todos estavam acostumados a ter, cinco, seis anos atrás. Sim, ele voltou, voltou a valer. Malandro, ludibriou a defesa tricolor e jogou uma bola “na maciota”, como diriam os antigos. Ao ponto de beber a água de Rogério Ceni e continuar em posição privilegiada após um lançamento lateral. Sem impedimento, correu para pegar a bola de Marcos Rocha e acionou Jô, atento. O grandalhão guardou e colocou o Galo na frente.

Conforme o tempo passava, ficava claro que desta vez não foi o dinheiro, as mulheres, a gandaia ou a promessa de regalias que motivaram o camisa 10. Foi a vontade de jogar. Só quem tem vontade de jogar, corre pelo campo como ele correu, passa as bolas que ele passou e especialmente, tira o coelho da cartola como ele tirou no segundo gol, ao cruzar para Réver cabecear.

Arbitragem não atrapalhou

Outro aspecto que poderia ter sido destaque foi a arbitragem de Marcelo de Lima Henrique. Ao que parece, o árbitro conduziu bem o confronto e atendeu ao desejo de 100% dos amantes do esporte: deixou o jogo correr, respeitando a grandeza do duelo, dos adversários e acima de tudo, da competição, caracterizada pela sua emoção, eletricidade e por que não insanidade. Não é necessário nenhum comentário sobre a participação do sr. de Lima Henrique.

Reação tricolor

O São Paulo não podia deixar barato. Veterano continental, o selecionado de Ney Franco viu uma certa brecha na condição física no adversário e passou a apertar a defesa atleticana. Numa dessas Luís Fabiano armou um passe precioso para Aloísio, que fez o pivô em cima do defensor, chutando forte para vencer Victor. Minutos antes, o arqueiro do Galo praticou grande defesa em jogada do mesmo Luís Fabiano.

Aproximava-se o apito final e o temor de um empate tardio estava estampado na cara de alguns torcedores. “É o Cuca, né”, pensaram. Não foi bem assim, para o alívio da massa presente. Ganso dominou a bola em vacilo gritante de Marcos Rocha (matou no peito dentro da área) e ajeitou para o arremate. Aquele segundo e meio durou anos, décadas. No tempo em que a bola caia no pé do são-paulino até efetivamente se encontrar com o pé e tomar sua trajetória, ninguém respirou na metade alvinegra em Belo Horizonte.

Bola pra fora, vitória do Atlético, que retorna após 13 anos com vitória. Sobre um dos fortes candidatos ao título desta competição. E para quem quer chegar calado e conquistar a América, este placar de 2 a 1 pode ter significado um grande passo. Vimos o retorno de dois grandes ao holofote: um clube e um craque que hibernava. A Libertadores agradece.

Mais posse e pouco ataque

No papel e até na prática, o São Paulo esteve muito mais tempo com a bola nos pés (56,66% contra 43,34% do Atlético), errou menos passes (360 certos, 48 errados), driblou mais (17 vezes, cinco erradas) e esteve bem mais presente no meio campo do que o Galo (16,39% contra 10,38% do Atlético).

Enquanto isso, do lado dos mandantes, pasmem, a área menos povoada durante todo o jogo foi justamente a faixa de 20-25 metros, entre o meio campo e a área do São Paulo. Em apenas 3,35% dos 43,34% que o time de Cuca teve como posse, a bola esteve na região central, que costuma ser mais capital e decisiva nos confrontos. Vai entender…