América do Sul

Conheça a história de vida do garotinho por trás desta foto emblemática

Você possivelmente já viu a imagem acima. Um dos símbolos mais fortes já registrados no futebol, ela representa diferentes mensagens. Mostra o valor que uma criança costuma dar ao esporte, bem como a dedicação incondicional de um torcedor a seu clube, independente das dificuldades. Mas, sobretudo, a cena ressalta como aquilo que é “apenas um jogo” para alguns possui uma força descomunal: como o futebol pode ajudar até mesmo na luta pela vida.

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Pois a fotografia é um resumo emblemático da caminhada de Ángel Cruz, de oito anos. O menino peruano é torcedor fanático do Universitario. E as limitações não se tornaram impedimento para que ele continuasse frequentando o Estádio Monumental. Ver o garotinho com uma sonda no nariz, ligada a um tubo de oxigênio, se tornou uma imagem recorrente nas arquibancadas do Campeonato Peruano.

Angelito, como é conhecido entre os outros torcedores cremas, enfrenta o seu duro adversário desde os primeiros dias de vida. O menino nasceu com seis centímetros a menos de esôfago e passou por diversos tratamentos a partir de então. Que acabaram lhe causando outros problemas de saúde. “Tudo o que aconteceu com Ángel foram erros depois de erros. Depois de operar aos três anos, ele convivia com refluxos, que iam para o pulmão. Com o tempo, isso lhe causou fibrose pulmonar”, afirmou Manuel Cruz, pai do menino, em entrevista ao jornal La República.

angelcruz

Diante dos percalços, o Universitario se tornou um ânimo para Ángel, que coleciona tudo sobre o clube. E, ao lado de seu pai, o menino passou a frequentar o estádio como se fosse uma terapia, mesmo a contragosto dos médicos. Os momentos mais célebres de Angelito apoiando o time vieram em 2013, presente em boa parte dos jogos da campanha pelo 26º título nacional. A recomendação médica era a de que o garoto não gritasse, mas ele não pôde conter a euforia. O estádio se tornou a sua própria condição para seguir vivendo, e dificilmente conseguiriam afastá-lo de seu principal prazer. Daquilo que sustenta a sua luta.

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A presença de Ángel nas arquibancadas também causou a mobilização do Universitario em sua causa. Enquanto jogadores e dirigentes doaram dinheiro ao tratamento do pequeno, a torcida assumiu a responsabilidade pela campanha de ajuda, divulgando através de seus próprios canais. E não foram apenas os cremas que estenderam a mão ao menino, com outros clubes também se solidarizando. Já a prefeitura de Barrancos, cidade onde vive com sua família, se responsabilizou por pesquisar o tratamento mais indicado no exterior.

Em agosto, Angelito passou por uma operação no pulmão, realizada por médicos peruanos e americanos, por causa da fibrose. E a corrente de força pelo garoto fez aquilo que parecia impossível, unindo torcedores dos rivais Universitario e Alianza Lima nos pedidos por orações. Depois de cinco horas, a cirurgia foi concluída com êxito. Para, depois de mais de dois meses de recuperação, realizar novamente o seu desejo de voltar às arquibancadas.

angelito

No último dia 18, Ángel Cruz esteve no Estádio Monumental para acompanhar o duelo entre Universitario e César Vallejo, válido pelo Campeonato Peruano. Ainda com seu tubo de oxigênio (justamente no dia em que outra criança com uma sonda nasal emocionou o futebol brasileiro), o fanático crema assistiu à vitória por 3 a 0 de sua equipe, que a manteve no páreo pela liderança do Peruano. Não deixou de exibir o seu sorriso.

Apesar da recuperação, Ángel continua necessitando de cuidados especiais e de acompanhamento médico. Por isso mesmo, sua família pede doações, com a ajuda dos torcedores do Universitario, através da página “Salvemos a Angelito”. Todos na esperança de ver um dia o menino indo ao estádio sem qualquer limitação. Mesmo que os tubos o acompanhem 24 horas por dia, o Universitario é que tem sido o seu verdadeiro oxigênio na batalha pela vida.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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