América do Sul

Com fama de “vice”, Universidad Católica superou traumas e faturou inédito bicampeonato

O número dois sempre foi usado para provocar a Universidad Católica. Um dos clubes mais tradicionais do futebol chileno tem a fama de vice-campeão. E não é para menos: terceiro em títulos no campeonato nacional, é o primeiro em vices. Ao todo, a Católica ficou 21 vezes no quase, sobretudo a partir da década de 1990. Desde 2011, foi um vice por ano, cinco no total. Mas, em 2016, os dois dedos em riste ganham outro significado. Pela primeira vez na sua história, a equipe é bicampeã chilena. Faturou a dobradinha ao erguer a taça do Apertura 2016/17 no final de semana, após já ter conquistado o Clausura 2015/16.

Dá para dizer que este time se colocou em um lugar especial da Universidad Católica. Desde o seu primeiro título nacional, em 1949, o clube nunca havia conseguido ser bicampeão. Viveu de sucessos esparsos, com três títulos na última década, além de participações frequentes na Libertadores. Mas sempre faltou um pouco mais na hora de consumar a hegemonia. Agora não falta mais. Além disso, este é o primeiro bicampeonato no país desde a Universidad de Chile de Jorge Sampaoli (que foi tri, entre 2011 e 2012). Aumenta as expectativas sobre o que a equipe poderá fazer na Copa Libertadores.

Mario Salas é o responsável pela ascensão da Católica. Ex-jogador da seleção chilena, o treinador chegou aos Cruzados em 2015. Encerrou o jejum de seis anos sem faturar o Campeonato Chileno, além de interromper as velhas piadas. Afinal, o desempenho foi irretocável nas duas conquistas. No primeiro semestre, o Clausura veio com um ponto de vantagem sobre o Colo-Colo, graças à virada sobre o Audax Italiano na última rodada. Já o Apertura não dependeu de tanta emoção. Dona do melhor ataque, da segunda melhor defesa e sem perder desde setembro na competição, a equipe terminou três pontos à frente do Deportes Iquique.

O elenco da Católica é tarimbado. A base se inicia pelo goleiro Cristopher Toselli, ídolo inconteste da torcida. Os esteios na defesa são os rodados Lanaro e Parot, além do capitão Cristian Álvarez. E, do meio para frente, o destaque fica para velhos conhecidos do futebol sul-americano, que parecem ter se encontrado em Santiago. José Pedro Fuenzalida foi um dos protagonistas da conquista. De Copa América estupenda pela seleção, o chileno segue voando pelo clube e assumindo a liderança. Mais à frente, Nicolás Castillo também destoou. O atacante de 23 anos surgiu na própria Católica e rodou por Club Burgge, Mainz 05 e Frosinone, antes de retornar no início do ano. Foi o artilheiro tanto do Clausura quanto do Apertura, anotando 24 gols no total, incluindo os dois do título.

Além deles, acompanham três argentinos com experiência em gigantes de seu país: Enzo Kalinski (San Lorenzo), Ricardo Noir (Boca Juniors e Racing) e Diego Buonanotte. Este último, aliás, vive o momento mais relevante da carreira em anos. O garoto que surgiu como grande promessa no River Plate nunca estourou de fato, prejudicado pelas lesões e por um traumático acidente de carro. Tentou a sorte no Málaga, no Granada, no Pachuca e no Quilmes. Na última temporada, até começou bem no AEK Atenas, mas não engrenou. Chegou à Católica em julho. E desequilibrou na conquista do bicampeonato, autor de oito gols em 13 partidas.

Classificada à fase de grupos da Libertadores 2017, a Universidad Católica promete ser um adversário indigesto. Rodagem não falta aos chilenos, assim como o momento é bastante favorável. Para quem conseguiu superar os traumas e se impor contra a concorrência dentro do país, dá para sonhar com uma campanha digna também no torneio internacional.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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