América do Sul

Com a conquista do Clausura Uruguaio, o Liverpool reitera o melhor momento de sua história e o excelente trabalho do clube

Ainda restam duas rodadas para o fim do Torneio Clausura, mas o Uruguai proclamou seu novo campeão neste domingo, com enorme autoridade. O Liverpool, de Montevidéu, levou o troféu numa campanha estrondosa e também com um resultado categórico. Os Negriazules sustentam uma vantagem de oito pontos na liderança, garantida pela vitória no confronto direto com o Nacional. E não foi um triunfo qualquer contra os concorrentes, afinal, considerando os 4 a 0 aplicados em pleno Parque Central. É uma edição do Campeonato Uruguaio em que os pequeninos celebram, após o Rentistas levar o Apertura – ao bater o próprio Nacional num jogo-desempate.

O Liverpool não chamou tanta atenção no Apertura, com o modesto nono lugar. O salto de desempenho começou no Torneio Intermédio, que marca o meio da temporada no Uruguai, com a segunda colocação em sua chave – dois pontos atrás do Montevideo Wanderers, que seria vice-campeão. O Clausura, no entanto, guardaria uma arrancada fulminante dos Negriazules. Em 13 rodadas, a equipe se mantém invicta. São nove vitórias e quatro empates, com direito a três triunfos consecutivos ao longo de março, para disparar na ponta.

Neste domingo, aconteceu o jogo do título para o Liverpool. Os cinco pontos de vantagem sobre Peñarol e Nacional eram suficientemente confortáveis, mas seria importante derrotar os tricolores para evitar qualquer reviravolta. O que se viu no Gran Parque Central, porém, foi um marcante passeio dos Negriazules. Os visitantes golearam por 4 a 0, com dois gols em cada tempo. E o resultado consumou o título antecipado, com os tropeços dos demais perseguidores. O Peñarol também perdeu em casa, para o modesto Plaza Colonia por 3 a 1. Já o Montevideo City Torque ficou pelo caminho ao empatar com o River Plate.

A imposição do Liverpool no Gran Parque Central começou aos 14 minutos de jogo. As chances já se amontoavam quando Jean Pierre Rosso recebeu uma cobrança de escanteio rasteira na área e arrematou no cantinho. O Nacional não respondia na mesma altura e tomou o segundo aos 21, num golaço de Alan Medina. O camisa 10 deu um corte seco na marcação e bateu com um tapa, tirando do alcance do goleiro Sergio Rochet. Os Negriazules ainda perderam boas oportunidades de anotar o terceiro antes do intervalo.

Do outro lado, o goleiro Sebastián Lentinelly só começaria a ser exigido no começo do segundo tempo. Foram ao menos três intervenções difíceis do camisa 1 do Liverpool, até que seus companheiros alargassem o placar aos 30. Numa cobrança de pênalti, Juan Ignacio Ramírez tornou a contagem mais elástica. E sem que o Nacional sequer marcasse o gol de honra, num dia péssimo também de seu ataque, os Negriazules deram o golpe de misericórdia nos acréscimos. A defesa tricolor parou, até Gastón Pérez receber a bola e definir com enorme facilidade. O apito final provocou a comemoração dos visitantes, com a entrega da taça no mítico estádio. Na festa, os atletas ainda homenagearam Emiliano Alfaro, ídolo do clube que anunciou a aposentadoria aos 32 anos por conta de uma lesão.

Vale lembrar que, diferentemente de outras ligas com Apertura e Clausura, o Campeonato Uruguaio celebra apenas um campeão geral por ano. O Liverpool assegurou sua presença na semifinal anual, contra o Rentistas, ganhador do Apertura. Quem vencer pega na finalíssima o time de melhor pontuação na tabela geral. O Nacional lidera esta classificação anual, com 66 pontos. O único perseguidor neste momento é o próprio Liverpool, com 62, restando mais duas partidas. Caso os Negriazules passem à frente, serão campeões uruguaios automaticamente se vencerem o Rentistas na semifinal anual. Por outro lado, se o Rentistas ganhar, precisará enfrentar de novo o Liverpool na finalíssima. A tendência, de qualquer forma, é que o Nacional aguarde Rentistas ou Liverpool para decidir a taça.

Outro caso peculiar acontece na definição dos representantes uruguaios na fase de grupos da Libertadores 2021. Como as preliminares do torneio continental começaram sem que o campeonato local estivesse concluído, a federação uruguaia deu as suas duas primeiras vagas aos times de melhor colocação na liga que aceitassem a oferta – num “pegar ou largar” da vida. O Liverpool foi um deles, aceitando entrar nas preliminares quando estava na quinta colocação geral do Campeonato Uruguaio. Porém, os Negriazules foram despachados pela Universidad Católica do Equador na primeira fase e, mesmo se forem campeões nacionais, perderam sua chance de figurar na Libertadores de 2021. Como consolo, se levarem o título, poderão encurtar o caminho à fase de grupos da Libertadores 2022, caso fiquem entre os oito primeiros também no Campeonato Uruguaio de 2021.

O Nacional, por sua posição na tabela geral do Campeonato Uruguaio de 2020, já está assegurado na fase de grupos da Libertadores de 2021. O outro representante do país na fase de grupos pode ser o Rentistas, caso seja campeão uruguaio. Já em caso de título anual do Liverpool ou do Nacional, a vaga na Libertadores vai para quem tiver mais pontos entre Peñarol e Montevideo City Torque na tabela geral. Neste momento, os aurinegros estão um ponto acima na classificação anual e precisam sustentar essa dianteira.

Mesmo com a ausência na fase principal da Libertadores 2021, esse time do Liverpool já registrou seu lugar na história do futebol uruguaio. O Torneio Clausura é a conquista mais importante da agremiação em 106 anos desde sua fundação e referenda o momento ímpar, acompanhando o troféu no Torneio Intermédio de 2019 e a Supercopa Uruguaia de 2020. Mesmo participando da elite nacional desde 1920, os Negriazules nunca tinham ganhado nada além das divisões de acesso até 2019. No máximo, haviam levado um Torneio Relâmpago em 1968 e disputaram um jogo-desempate com o Peñarol pelo Apertura de 1995. Além disso, por cinco vezes terminaram na terceira colocação da liga – três delas nos anos 1970, quando o Liverpool era visto como candidato ao posto de “terceiro grande”.

Marcelo Méndez é o atual comandante do Liverpool, à frente do elenco desde outubro de 2020, assumindo na segunda rodada do Torneio Intermédio. A ascensão atual começou com Paulo Pezzolano, antigo ídolo do clube que chegou em 2017 para revolucionar o futebol como técnico em Belvedere. Faturou o Intermédio em 2019 e seguiu ao Pachuca no final daquele ano. Ramón Cuello o substituiu e conquistou a Supercopa em fevereiro de 2020, mas perdeu o emprego após a campanha fraca no último Apertura. Já Méndez foi escolhido após estourar no Progreso que conquistou o acesso e também passar pelo Danubio.

Marcelo Méndez deu continuidade ao estilo de jogo firmado sobretudo por Pezzolano, no que representa uma ruptura ao que normalmente se vê no Campeonato Uruguaio. Mesmo sendo um clube modesto, o Liverpool tenta ser protagonista em campo e aplica as mesmas diretrizes da equipe principal às infantis. Favorece a posse de bola, a ação vertical, a boa mobilidade no ataque e a marcação por pressão. O que se nota é uma excelente produção ofensiva, evidenciada contra o Nacional, mas que já garantiu 30 gols em apenas 13 partidas no Clausura. Desde que Méndez chegou, os Negriazules levaram 70% dos pontos disputados.

Já dentro de campo, a grande figura do Liverpool é Juan Ignacio Ramírez. “Colo”, como é apelidado, já se tornou o maior artilheiro da história do clube com apenas 24 anos. Foi uma das referências no time que levou o Intermédio em 2019 e continua em ótimo nível. O jovem chegou a disputar o Torneio Pré-Olímpico de 2020 com a seleção do Uruguai e se candidata a pintar na Celeste principal em breve. O veterano armador Hernán Figueredo foi outro a brilhar no Clausura. E impressiona também o potencial do plantel, considerando a idade de vários titulares. Nomes como o goleiro Sebastián Lentinelly, o lateral Federico Pereira, o volante Fabrício Díaz e o meia Alan Medina estão entre os tantos que não passam dos 23 anos.

Os bons trabalhos nos gramados refletem os acertos nos bastidores. O Liverpool é conduzido desde 2001 por José Luis Palma, presidente de personalidade forte que promoveu a melhora das estruturas e a saúde das finanças. O dirigente, que assumiu o clube sem antecedentes na gestão do futebol, era reconhecido por melhorar a instituição no caráter administrativo. Demorou a emplacar no esportivo, mas, depois de alguns golpes ao longo dessas duas décadas, a guinada recente premia a reorganização geral. Neste ponto, também é essencial Gustavo Ferrín, antigo treinador das seleções de base que virou diretor esportivo dos Negriazules a partir de 2019.

O Liverpool fechou o balanço de 2020 com um superávit de US$6 milhões, mesmo diante da severa crise financeira causada pela pandemia. E deve ganhar mais uma bolada durante a próxima janela de transferências, graças aos talentos revelados pela base. Colo Ramírez é o nome quente do time atual, mas a agremiação ainda tem 70% dos direitos relativos a Nicolás de la Cruz, seu prata da casa que hoje se destaca pelo River Plate. A sustentabilidade é evidente, num clube com folha de pagamentos na casa dos US$180 mil por mês. Enquanto isso, seu ótimo centro de treinamentos conta com dez campos para aprimorar a base.

No duelo contra o Rentistas, o Liverpool terá um favoritismo tremendo, e não apenas por sua fase em particular. Os adversários na semifinal anual ocupam a última colocação no Clausura e ainda correm riscos de rebaixamento. Desta maneira, caso o Nacional confirme sua vantagem na tabela anual, o mais provável é que os tricolores cruzem o caminho dos Negriazules na decisão do Campeonato Uruguaio de 2020. Os 4 a 0 deste domingo e também os 4 a 2 anteriores na Supercopa pesam a favor dos pequeninos. As possibilidades de um campeão inédito no Paisito são reais, e não parecem uma mera surpresa diante de todos os acertos do Liverpool nos últimos tempos.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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