Chilavert diz ter provas de corrupção nas contas da Conmebol
José Luis Chilavert é daqueles personagens do futebol que causa amor e ódio. Por isso mesmo, é tão divertido que exista. Só que o que o ex-goleiro traz desta vez não é algo engraçado e nem polêmico. O paraguaio traz denúncias contra a gestão feita na Conmebol e diz que o balanço financeiro da entidade mostra irregularidades que deixam os dirigentes mais ricos e os clubes mais pobres. Junto com outros ex-jogadores, Chilavert tem feito denúncias desse tipo contra a Conmebol, como foi na reunião que fizeram em São Paulo no dia 4 de setembro, e dizem que seus dirigentes terão que respondê-las.
Que os clubes recebem pouco dinheiro da Conmebol por suas participações em Libertadores e Sul-Americana, nós já sabíamos. Em parte, é por isso que clubes como o Corinthians reclamam há algum tempo dessa diferença que faz até o Campeonato Paulista ser mais lucrativo que o principal torneio da América do Sul. Mas a situação só piora. Segundo Chilavert, o presidente da Federação Venezuelana de Futebol recebeu mais dinheiro que os clubes pela participação na Libertadores e Sul-Americana. Rafael Esquivel é o presidente da FVF desde 1987. E ficará no cargo até 2017, depois de ser reeleito em março de 2013.
“Nos cofres de Esquivel entram US$ 200mil e aos clubes US$ 70 mil. O presidente não pode ganhar mais que os clubes”, denunciou o ex-goleiro, que esteve na Venezuela para uma reunião com ex-jogadores e clubes. Junto com o paraguaio estava Enzo Francescoli, ídolo uruguaio. Segundo os ex-jogadores, a Conmebol esconde muito dinheiro do seu balanço para não ter que repassar aos clubes.
O ex-goleiro quer que os dirigentes respondam por esses problemas, incluindo o presidente da Asociación Paraguaya de Fútbol (FPF), Juan Angel Napout, que é vice-presidente da Conmebol junto com os presidentes de federações nacionais de outros países. Segundo Chilavert, todo o Comitê Executivo terá que responder pelas irregularidades no balanço na justiça, “desde [Julio] Grandona, Eugenio Figueredo para baixo”.
O ex-jogador criticou os valores recebidos pelos clubes e usou o exemplo dos clubes paraguaios. “Se Cerro [Porteño], Olimpia ou Libertad recebem US$ 150 mil por passar de fase na Copa Sul-Americana, com o balanço que apresentaram deveriam pagar US$ 1 milhão”, disse. “Eu adoraria que Sol, Resistencia tivessem um gramado espetacular, um estádio adequado. Que benefício a Conmebol dá às equipes da América do Sul?”, questionou.
Chilavert diz que as denúncias sobre corrupção e fraude serão feitas não pelos ex-jogadores, mas sim por diferentes clubes no continente. Oito equipes estiveram na reunião para tratar das falcatruas da Conmebol: Zamora, Caracas, Aragua, Lara, Anzoátegui, Atlético Venezuela, La Guaira e Petare. “Deveríamos nos manter a união que tivemos hoje. Lamentavelmente, parecia que todos os dias somos rivais. Só jogamos 90 minutos e o resto do ano somos sócios e deveríamos estar unidos”, afirmou Luis Majul, diretor do Caracas.
Não é uma iniciativa isolada. No dia 4 de setembro, Chilavert e Francescoli estiveram em São Paulo para uma reunião com o Corinthians, representado por seus dirigentes, Romário e Careca, craques brasileiros, além de Diego Maradona, um dos maiores da história. Flamengo e Botafogo demonstraram apoio ao movimento em cartas enviadas para a reunião. Dos clubes convidados a participar da iniciativa, só o São Paulo não respondeu ao convite.
Romário disparou contra a Conmebol ao dizer que “não imaginava que poderia existir uma entidade mais corrupta que a Fifa”. O agora deputado disse que o grupo tem documentos que provam a má gestão e o uso indevido de dinheiro na Confederação Sul-Americana de Futebol, algo que Chilavert repete.
“Os ex-jogadores são os únicos que podem brigar de igual para igual. Vamos chegar longe porque temos provas. Eles fizeram o seu balanço e não fecha, nem sequer isso eles souberam fazer”, criticou o goleiro que defendeu o Paraguai nas Copas do Mundo de 1998 e 2002. “Queremos transparência na gestão da confederação. A cada dia os clubes estão mais pobres enquanto os que gerem a Conmebol são multimilionários. Queremos os clubes ricos, que, indiretamente, irá beneficiar os jogadores”, declarou Chilavert ao jornal venezuelano El Nacional.
Disputa por direitos de TV
Junto com Chilavert e Francescoli, Paco Casal também estava na reunião. Ele e Francescoli são do grupo diretivo da Gol TV, uma emissora de futebol nos Estados Unidos e na América Latina. O canal é concorrente direto da Fox Sports, que opera na América Latina e é co-organizadora dos torneios da Conmebol, além de detentora dos direitos de transmissão desses torneios, como a Libertadores, Sul-Americana e Recopa, além das Eliminatórias da Copa do Mundo. É justamente nesse ponto que está o problema.
A Torneos y Competencias, empresa que tem um acordo com a Fox Sports na América Latina, detém os direitos de diversos torneios esportivos e os cede para as emissoras dos países, como a Globo. Segundo Casal e Francescoli, a Gol TV ofereceu mais dinheiro pelos direitos de TV da Conmebol, que sequer quis negociar. Pudera: como negociar direitos de transmissão de um torneio que é organizado por uma emissora? Não há negociação possível para que outra emissora passe a deter os direitos de transmissão, ao menos não de forma simples.
Adelis Chávez, presidente do Zamora, acredita que o clube poderia ganhar “o dobro ou muito mais que isso” em cada participação na Libertadores ou Sul-Americana. Atualmente, o valor recebido chegam a pouco mais de US$ 500 mil. Os clubes sabem que podem ganhar mais, mas a disputa com a emissora que organiza os torneios com a Conmebol não é simples.
A linha ofensiva contra a Conmebol
Os ex-jogadores querem entrar com uma representação contra a Conmebol com as provas que dizem ter. Essas provas devem ser mostradas em menos de um mês, segundo relato de Chilavert. “Muitos deveriam responder na justiça e explicar como o seu patrimônio cresceu”, declarou Chilavert. O grupo de ex-jogadores e empresários quer apresentar essas provas à Fifa.
O problema é que é a Fifa tenderá a proteger os seus dirigentes, já que, se algum deles está envolvido em corrupção, a entidade já teve oportunidade não só de saber disso, como de punir. E quem disse que não tem gente da Fifa envolvida nesses problemas? O quanto afetaria a Fifa jogar esses dirigentes aos leões?
De qualquer forma, as denúncias faladas por Romário em setembro e Chilavert agora precisam aparecer. A partir delas, será necessário entender qual é a sua gravidade e o quanto os dirigentes da Conmebol serão afetados. Derrubar esses dirigentes por corrupção será só o início de algo que, para mudar para melhor, precisará muito mais.



