América do Sul

Cebolla Rodríguez voltou à sua terra e foi uma das figuras do Plaza Colonia, um raro clube do interior campeão no Uruguai

Cebolla Rodríguez aceitou voltar para sua cidade natal após deixar o Peñarol e ajudou a liderar um inesperado título do Plaza Colonia

Pela terceira vez no Campeonato Uruguaio, um clube do interior conseguiu se sagrar campeão do Apertura ou do Clausura. O Rocha foi o pioneiro em 2005, antes que o Plaza Colonia pedisse bis. A equipe de Colônia de Sacramento já tinha erguido a taça de maneira inédita em 2016, num feito inacreditável – comparado com o do Leicester na Premier League. Cinco anos depois, os Albiverdes repetem a façanha, com a comemoração do Troféu Apertura neste domingo. O título ainda não é suficiente para os pequeninos se considerarem “campeões uruguaios”, com a definição do verdadeiro vencedor ao final da temporada. Ainda assim, tal celebração vale bastante à agremiação. E tem um personagem especial: o veteraníssimo Cristian “Cebolla” Rodríguez, que chegou ao Plaza em abril.

Cebolla Rodríguez não deixou muitas saudades quando passou pelo Grêmio, mas possui um currículo bastante respeitável. O meio-campista rodou por vários clubes da Europa, com destaque para Atlético de Madrid, Porto, Benfica e Paris Saint-Germain. O veterano chegou a ser campeão da Liga Europa e vice da Champions com o Atleti. Faturou também o Campeonato Espanhol e o Português, além das copas nacionais em Espanha, Portugal e França. Pela seleção, disputou dois Mundiais e quatro Copas América, levantando a taça continental em 2011.

A volta de Cebolla Rodríguez ao Campeonato Uruguaio aconteceu em 2017, após defender Grêmio e Independiente. O veterano continuou acumulando sucessos e servindo de referência ao Peñarol. Levou dois títulos do Campeonato Uruguaio, mantendo-se tão bem que seguiu como uma peça frequente na Celeste durante o Mundial de 2018. Porém, o medalhão perdeu espaço na última temporada e acabou deixando os carboneros, sem acordo pela renovação de seu vínculo. Mesmo com o jogador oferecendo a redução de seu salário, a diretoria preferiu encerrar o ciclo. Foi quando assinou com o Plaza Colonia. Embora tenha iniciado sua trajetória no próprio Peñarol, Cebolla voltava para sua casa, já que nasceu em Colônia de Sacramento.

“Meu lugar é aqui no Uruguai. Gostava muito da vida em Porto, por exemplo, mas me considero um tipo muito uruguaio. Sou muito de nossas tradições, do churrasco, do mate, do futebol, do carnaval. Não viveria nunca em outro país. Tenho a sorte de estar aqui, tranquilo. Gosto da terra e do campo. É aqui no campo que vou trabalhar quando deixar o futebol, por isso vou colocar muita garra nisso e sei que não vou me entediar. No interior está meu futuro e isso tenho claro há anos”, diria em sua chegada, ao jornal Ovación.

Aos 35 anos, Rodríguez serviria de referência no elenco do Plaza Colonia ao lado de Álvaro Fernández, seu companheiro de seleção e presente na Copa de 2010. De qualquer maneira, Cebolla possui uma trajetória mais condecorada. E manteve os pés no chão, auxiliando o técnico Eduardo Espinel numa equipe homogênea. O camisa 7 disputou 12 partidas no Apertura, metade delas como titular. Contribuiu com dois gols e viu os companheiros albiverdes sustentarem o bom desempenho até o final da campanha, num grupo em que nenhum outro atleta passou dos quatro gols marcados. O artilheiro, inclusive, é brasileiro: o atacante Diogo de Oliveira, contratado junto à Francana. Outro atleta do país no plantel é o meia Leonai, com passagem anterior pelo Comercial de Ribeirão Preto.

Em 14 rodadas do Apertura, o Plaza Colonia somou dez vitórias e três empates. Anotou apenas 18 gols, mas contou com uma defesa eficiente, vazada apenas sete vezes, e isso valeu como trunfo ao sucesso. O goleiro Santiago Mele, protagonista no título, não sofre gols há cinco rodadas. E a eficiência dos albiverdes valeu ouro diante dos instáveis Nacional e Peñarol. Neste final de semana, o clube do interior dependia de si para levar a taça por antecipação e cumpriu a missão. Derrotou o Montevideo Wanderers por 2 a 0 e pôde comemorar a façanha, repetindo o que já tinha aprontado no Clausura de 2016.

Depois da conquista, Cebolla Rodríguez era um dos mais cotados às entrevistas e ressaltou a maneira como o elenco se fechou: “Estou feliz pelo triunfo, pela equipe, por este campeonato. Sempre é complicado alcançar um objetivo como este numa equipe pequena. Conseguimos de boa maneira. É uma equipe sem individualidades. Todos responderam muito bem, foram todos fundamentais. Aqueles que não jogavam como titulares foram fundamentais. Isso se consegue num elenco amplo”.

Além do mais, Cebolla também admitiu como não esperava tal sucesso quatro meses atrás, quando chegou ao Plaza Colonia: “Antes da partida, havia pressão e ansiedade. Tínhamos que encerrar hoje. Não imaginava sair campeão com o Plaza quando cheguei ao clube. É mais complicado conseguir um título quando você não está numa equipe grande. Encontramos um bom grupo, uma boa comissão técnica”.

O técnico Eduardo Espinel também valorizou a presença de Rodríguez no Plaza Colonia: “Cebolla merecia pelo esforço que fez, por todas as coisas que diziam dele nos últimos tempos. Demonstrou que foi um pilar fundamental, ele é muito mais do que a contribuição em campo. Este é um grupo de rapazes humildes. Deixam tudo em campo, é algo admirável. Tinham que deixar a vida em cada centímetro do gramado e deixaram. E não foi só hoje. Em cada partida demonstravam que eram competitivos, que queriam brigar por coisas importantes. Foram forjando essa mística e três rodadas antes já se via que estávamos para ser campeões”.

Espinel reforça sua lenda no Plaza Colonia. Como jogador, o beque defendeu os albiverdes de 1999 a 2005 e atuou ao lado de Diego Lugano na zaga. Quando pendurou as chuteiras, trabalhou como técnico da base e assistente do time principal, mas também dividia seu tempo com serviços de carpinteiro, de treinador na várzea e de professor de tática na Organização do Futebol do Interior – um departamento da federação uruguaia. Em 2014/15, Espinel conseguiu seu primeiro emprego como técnico principal, chamado para livrar o Plaza Colonia do rebaixamento ainda na segundona. Chegou a tomar de 7 a 1, antes de pegar embalo rumo ao acesso. Já na temporada seguinte, não apenas conseguiu a permanência na elite, como faturou o Clausura de 2016.

Aquela equipe do Plaza Colonia era reconhecida pelo futebol vistoso, mais cadenciado que o da atual campanha, mas também tinha como sua marca a união nos vestiários e o trabalho incessante sem a bola. Reunia jogadores que, tal qual Espinel, precisaram se virar em trabalhos comuns para conciliar a carreira nos gramados. O grupo de 2016 possuía quem tivesse feito bicos como pintor, ferreiro e pedreiro. Alguns deles despontaram, a exemplo do goleiro Kevin Dawson, que hoje é ídolo do Peñarol e passou a ser convocado à seleção. Outros permanecem, como o ponta Nicolás Dibble, que trabalhava como entregador até ganhar uma chance nos albiverdes. Decisivo naquele Clausura, foi ao Peñarol e voltou, antes de ser agraciado com o gol do título neste Apertura. Nicolás Guirín e Ezequías Redín são os outros jogadores remanescentes.

Assim como Dibble, Espinel não ficaria apenas no Plaza Colonia durante estes cinco anos. Treinou Montevideo Wanderers e Rampla Juniors no Uruguai, além de ter passado pelo Guabirá na Bolívia e pelo Santiago Wanderers no Chile. Seu retorno a Colônia de Sacramento aconteceu no último mês de janeiro, já melhorando os resultados no Clausura passado e livrando os albiverdes do temor do descenso. E o comandante provou como realmente estava em casa neste Apertura, para levar a taça. Repetiu o feito dificílimo de 2016 e, pela segunda vez, provou a força do interior no Campeonato Uruguaio.

“Esse título é do interior. Só tenho palavras de agradecimento. Pessoas me ligaram de Salto, Paysandú, Florida, Durazno, de todos os departamentos do país. Fizeram isso porque se sentem identificados com esta equipe, com sua mística, com sua vontade. Senti esse carinho. Hoje tive que desligar o celular, porque gosto de responder logo as mensagens e não podia responder todas elas”, comentaria Espinel, depois do título, ao site Referi. “Tenho mais de 20 anos no Plaza Colonia. Conheço cada canto do clube e isso facilita o trabalho. Ninguém vai me contar como é o clube, vivi todas. Fui rebaixado como jogador, subi como treinador, fomos campeões em 2016 e passei por todas as experiências”. A última delas, de provar o gosto de um novo título quando muitos achavam impossível.

Com a conquista do Apertura, o Plaza Colonia garante vaga na semifinal da fase decisiva do Campeonato Uruguaio, que será disputada no final do ano. Ainda não está confirmado na Libertadores, embora já tenha assegurado pelo menos um lugar na Copa Sul-Americana de 2022 – torneio que disputou anteriormente em 2016 e 2020. E vai chegar mais forte como candidato a arrematar o troféu nacional no Clausura. Com o trabalho fantástico de Espinel e a rodagem de Cebolla Rodríguez, não dá para duvidar dos albiverdes. O clube de Colonia de Sacramento já se tornou especialista em driblar as probabilidades e cumprir o impossível.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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