América do Sul

Carini se aposenta com o nome marcado, apesar das falhas e das expectativas quebradas

Para quem começou a acompanhar o futebol na virada dos anos 1990 para os 2000, Fabián Carini era praticamente um sinônimo de seleção uruguaia. E quem o viu no começo da carreira, estourando muito jovem, acreditava que seria assim por muito tempo. A promessa nunca se cumpriu realmente como apontava. O fenômeno logo desapareceu, acumulando falhas. De qualquer maneira, o goleiro marcou o seu nome em um país com escassas opções para a posição. Manteve-se absoluto quase uma década, disputou 74 jogos pela Celeste e foi titular em uma Copa do Mundo. Aos 37 anos, até pelo currículo entre os clubes, aposenta-se com a impressão de que poderia ter sido mais do que realmente foi. Ainda assim, presente no folclore do futebol de seleções sul-americano.

Carini até havia firmado contrato para 2017, com o Montevideo Wanderers, depois de passar três anos no Juventud. Entretanto, preferiu mudar de ideia antes de iniciar os trabalhos com a nova equipe. “Antes de mais nada, queria agradecer a todos pelo respeito e carinho com que me trataram durante toda a minha carreira profissional. Aqui se encerra uma etapa muito linda e importante para mim. São muitos anos e o corpo começa a pagar por isso. Quando já sente que está a 70% de seu rendimento, não me parece justo e nem profissional encarar um novo desafio esportivo”, escreveu, em carta emitida ao público.

Cria das categorias de base do Danubio, Carini estourou muito cedo. Dava a impressão de que ali poderia pintar um dos melhores goleiros do continente no Século XXI. Aos 17 anos, já era titular em seu clube. Também se tornou figura recorrente nas seleções de base, reserva no vice-campeonato mundial sub-20 de 1997. E logo virou aposta de Victor Púa na meta da Celeste principal, em tempos escassos de arqueiros confiáveis no país. Eleito melhor goleiro do Mundial Sub-20 de 1999, em abril, dois meses depois já era titular da equipe adulta na Copa América. Fez bom papel no torneio, figura importante para os charruas que venceram Paraguai e Chile nos pênaltis, antes de serem derrotados pelo Brasil na decisão.

A partir daquele momento, o Danubio se tornou pequeno demais para as expectativas sobre Carini. E em 2000 ele rumou à Itália, contratado pela Juventus, que buscava uma alternativa após a saída de Angelo Peruzzi. Por incrível que pareça, foram meses instáveis na meta bianconera. Edwin van der Sar não se firmou. Andreas Isaksson também chegou. Só que o uruguaio não aproveitou a lacuna, com raras aparições em campo. A partir de 2001, já não havia o que discutir: Gianluigi Buffon foi comprado a peso de ouro do Parma e se tornou absoluto na posição. Carini perdeu sua chance. Rodou por empréstimo pelo Standard Liège, antes de ser descartado pela Juve.

Neste intervalo, ao menos, manteve sua importância ao Uruguai. Aos trancos e barrancos, a Celeste conquistou a classificação à Copa do Mundo de 2002, após 12 anos de ausência. Fez papel de figuração no Grupo A, mas com o goleiro presente nas três partidas. Não era exatamente alguém plenamente confiável, com falhas recorrentes. Mas, até pela reputação que tinha construído, permanecia como o titular.

carini

O problema é que a falta de sequência nos clubes atravancou o desenvolvimento que se esperava e também atrapalhou o que Carini havia construído até então. Transferido à Internazionale em 2004, voltou a esquentar banco de outros monstros, Francesco Toldo e Júlio César. Até passou pelo Cagliari, sem sucesso. E, nas viagens com a seleção uruguaia, o posto de titular começou a cair nos braços de Sebastián Viera. Carini até entrou na reta final das Eliminatórias para a Copa de 2006, mas os charruas terminaram eliminados pela Austrália na repescagem.

Aos 27 anos, a carreira da antiga promessa começou a despencar. A Internazionale o vendeu para o Real Murcia, onde também mal entrou. Na seleção, sob as ordens de Óscar Tabárez, começou como titular, mas as lesões o atrapalharam, disputando vaga com o fraco Juan Castillo. A oportunidade de recomeço na América do Sul veio em 2009, contratado com pompas pelo Atlético Mineiro. Falhou demais e durou pouquíssimo com a camisa alvinegra. E, diante da ascensão de Fernando Muslera, também instável, mas em forma muito melhor, já não havia mais como brigar pela camisa 1 celeste. Em 2009, deixou de ser convocado, sem viajar para a Copa do Mundo do ano seguinte.

Se há ao menos um alento nos últimos anos da carreira de Carini, ele veio em 2011, de volta ao Peñarol. O veterano fez parte da surpreendente equipe que eliminou favoritos para retornar a uma final continental, enfrentando o Santos na decisão da Libertadores. Era reserva do bom Sebastián Sosa, mas pôde transmitir sua experiência no ambiente carbonero. Quando o companheiro foi vendido ao Boca Juniors, porém, Carini pouco suportou no 11 inicial. Ciente de seus limites, viveu uma temporada no Deportivo Quito, antes de retornar ao Uruguai, para o Juventud. No modesto clube, enfim, se tornou dono da meta. E não vivia dias finais tão ruins assim, a ponto de atrair interesse do Montevidéu Wanderers. Preferiu, contudo, não tentar a sorte outra vez. Orgulhoso de seu passado, mas talvez ciente que poderia ter ido além.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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