América do Sul

Até quando?

Na última terça-feira o Independiente voltou para o segundo tempo da partida contra o Defensor do Uruguai, válida pelas oitavas de final da Copa Sul-Americana, com a alma lavada. A equipe argentina tinha sofrido um 2 a 0 no Uruguai e saído atrás no marcador em casa. No entanto, de forma surpreendente, deu a volta por cima e em menos de 45 minutos virou o jogo para 3 a 1. O restante da partida prometia ser eletrizante no segundo tempo. Porém, antes de ele começar o goleiro do time uruguaio, Martin Silva, caiu no gramado com um profundo corte na cabeça. A imagem recuperada logo mostrou a causa: Silva havia sido atingido por uma pedra, atirada por um torcedor do Independiente.

O lamentável episódio, apesar de bárbaro, não foi tão surpreendente quanto deveria ser. Afinal de contas, há anos os jogos envolvendo equipes e seleções sul-americanas descambam para esse tipo de ato das torcidas. Só em 2010 vimos diversas cenas do tipo, sendo uma das mais destacadas, talvez, o quebra-pau envolvendo jogadores do Inter e do Chivas na final da Libertadores. E isso vem de longa data. Para não ir longe demais, em 1992, o Brasil visitou o Paraguai no Defensores de Chaco e quem sofreu foi o meia Elivélton, atingido também por uma pedra vinda da torcida adversária.

Aos poucos a selvageria dentro dos estádios passou a ser tratada como natural e, para alguns, até como “charme” das competições disputadas pelos lados da América do Sul. Um dos melhores exemplos é o destacamento de policiais munidos de escudo para garantir a segurança dos cobradores de escanteio em campos adversários. Em algumas localidades não é possível cobrar o tiro, tamanha a quantidade de pedras e objetos arremessados dentro de campo. O mesmo vale para os túneis infláveis que garantem a entrada dos jogadores já no meio do gramado. Ambas as medidas são absurdas, uma vez que são institucionalizadas pela Conmebol que, em vez de solucionar o problema em sua raiz, prefere fazer um arremedo.

E em se tratando de soluções não pode haver outro mecanismo, senão o de severas punições aos indivíduos que cometem esses atos e ao clube dono do estádio. Um caso como o da última terça-feira poderia, com menos sorte, ter se transformado em tragédia e, por isso, mereceria uma punição digna. Mais do que a ventilada perda de mando de jogos, seria perfeitamente cabível excluir o clube argentino da competição.

Era mais ou menos o que iria acontecer caso o árbitro brasileiro Wilson Luis Seneme interrompesse a partida por falta de condições de segurança. De acordo com o regulamento isso acarretaria na derrota da equipe local e classificação do Defensor. Mas Seneme não quis bancar as consequências financeiras e desportivas desse ato, preferindo qualificar a pedrada em Martin Silva como um ato isolado e aguardando mais de 20 minutos para o reinício da partida – tempo em que o arqueiro foi atendido e voltou ao jogo.

O jogo terminou 4 a 2 para o Independiente e Seneme foi duramente criticado pela imprensa argentina e uruguaia, bem como por dirigentes do Defensor. Apesar de ser o homem responsável pela decisão de seguir com a partida, a verdadeira culpada pela situação é a Conmebol, que há anos sabe das situações enfrentadas nos estádios sul-americanos e nada faz para extinguir o problema. A Conmebol, aliás, sequer admite que algo aconteceu na última terça-feira.

No resumo do jogo disponibilizado em seu site oficial a organização diz, com um cinismo surpreendente, que Silva sofreu uma lesão antes de começar o segundo tempo, mas que logo se mostrou recuperado. Ridículo e inocente da parte da entidade achar que ninguém viu ou leu sobre o caso na imprensa.

Ainda não há consenso sobre as punições que serão aplicadas ao Independiente no decorrer da Sul-Americana. O mais provável é que a equipe, a exemplo do Boca Juniors na Libertadores de 2008, fique sem seu estádio até o final da competição. É uma meia solução, pois a equipe pode jogar em qualquer estádio próximo e lotá-lo com torcedores. No entanto, dado o histórico de imobilidade e falta de vontade política da Conmebol perante o tema, esperar mais do que isso é utopia. Assim como esperar situações civilizadas nos estádios da América do Sul continua sendo um sonho distante…

Mais da Sul-Americana

Excetuando o lamentável ato criminoso ocorrido na partida entre Independiente e Defensor, os jogos de volta das oitavas de final da Sul-Americana foram bastante movimentados e bons de se ver. O Palmeiras foi quem teve vida mais fácil nos confrontos dessa semana. Em casa, a equipe paulista nem tomou conhecimento do Universitario de Sucre e ganhou por 3 a 1.

A LDU goleou por 6 a 1 o Unión San Felipe na altitude de Quito, mas passou por momentos difíceis no final do primeiro tempo, quando o placar apontava 2 a 1 para os equatorianos. Depois disso o fator altitude e a melhor qualidade de La U fizeram a diferença e a equipe deslanchou. Quem também reverteu a vantagem adversária no segundo confronto foi o Avaí, que tomou um susto no início do jogo, mas conseguiu fazer 3 a 1 nos primeiros minutos do segundo tempo, placar que se manteve e lhe deu a classificação.

Depois de irem bem nas partidas de ida, Atlético-MG e Goiás garantiram o resultado fora de casa com derrotas mínimas ante Independente Santa Fé e Emelec, mesmo caso do Newell's Old Boys, que eliminou o San José, da Bolívia. Confira os confrontos das quartas de final:

Newell's Old Boys x LDU
Deportes Tolima x Independiente
Atlético-MG x Palmeiras
Goiás x Avaí

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